sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Partidos que não representam interesses legítimos e emergência de interesses inadequados.| José Mauricio de Carvalho

Partidos que não representam interesses legítimos e 

emergência de interesses inadequados.


Um dos maiores desastres da vida política nacional é o grande número de partidos políticos que nada representam, além de tornarem excessivamente cara a disputa eleitoral e favorecerem a corrupção. O espaço político precisa ser aproveitado para debater grandes temas nacionais como: a defesa da Amazônia, a responsabilidade dos cidadãos, o exercício da liberdade, a preservação ambiental, a preservação cultural, o progresso material e espiritual do país, a defesa das fronteiras e o combate a violência. No entanto, a multiplicidade de partidos não ajuda nesse debate porque dificulta entender a posição de cada partido sobre esses grandes temas. Além do mais, sendo boa parte dessa multidão de agremiações legendas de aluguel, elas vendem o apoio parlamentar aos governos de modo que facilitam a corrupção.
Logo, uma reforma política capaz de baratear o custo dos políticos e valorizar o debate nacional dos grandes temas passa pela redução drástica dos quase 40 partidos existentes. Assim, ao invés de programas para defender o obvio como, por exemplo: a valorização da educação, da saúde, da soberania nacional, o respeito social da mulher, etc. esses partidos, se fossem poucos e ideologicamente comprometidos, estariam se posicionando sobre os grandes temas nacionais e interesses legítimos da sociedade: como tratar o problema das aposentadorias? Como financiar a educação e a saúde? O que cada um tem a dizer sobre o investimento nas forças militares? Como enfrentar as dificuldades de infra-estrutura do país? Como proteger as fronteiras e como combater a violência? Sempre explicando como fazer e de onde pretende o partido obter os recursos necessários para realizar o que pretende.
O atual debate político nada contribui para o amadurecimento da sociedade ou esclarece sobre as posições dos partidos existentes, não aprofunda as questões de interesse público. É um debate que se limita a frases de efeito elaboradas por marqueteiros, descamba para a emoção irracional e a briga pessoal, além de não responder de forma objetiva as perguntas que a população tem. Dessa maneira não se esclarece o que propõe cada político e seu partido e eles fazem o que bem entendem quando vencem as eleições. É evidente que falando o que os marqueiteiros sintetizam das pesquisas de opinião pública, o que se assiste do debate político nacional é, quando muito, a expressão de algumas opiniões, igualmente justificáveis ou apenas o reconhecimento de ideais, sem se explicar como realizar isso que todos consideram necessário: reduzir a desigualdade social ou valorizar a educação, por exemplo.
Com partidos ideologicamente identificados: um defendendo um liberalismo conservador, outro um liberalismo mais social, outro ainda posições sociais-democratas ou socialistas, ou ainda um partido ambientalista ou trabalhista, as pessoas se sentiriam melhor representadas na divisão de interesses legítimos. Ideais como a integração econômica da mulher na sociedade, a construção de uma sociedade menos desigual, maior respeito às pessoas idosas, maior integração das populações negra e indígena não constituem interesses adequados entorno aos quais os brasileiros devam se dividir. Assim, um quadro partidário, que nada representa e se alimenta da propina e corrupção, dá origem a que grupos com interesses contrários aos interesses nacionais, mas com aspiração legítima, surjam e estabeleçam espaços de conflito sobre questões que a rigor são de todos e não de alguns, como: a questão da Mulher, do Negro e do Favelado.
Essa última consequência, caso prospere a ideia de proclamar interesses inadequados como programas partidários, promoverá um desastre nacional com consequências imprevisíveis. Um partido para defender o interesse dos negros dará origem a um outro para defender os direitos da população branca e europeia, com agravamento dos conflitos sociais como vemos em outras nações.

José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei