segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Lições deixadas pela tragédia de Amatrice e Accumoli | Por José Mauricio de Carvalho



Lições deixadas pela tragédia de Amatrice e Accumoli



   Esta semana acompanhamos pela televisão e pela internet o drama provocado pelo terremoto no centro da Itália. A televisão e a internet nos levaram para dentro do que estava se passando no interior da Itália e mergulhamos no sofrimento da população, do resgate dos corpos aos velórios coletivos. Entre as tristes imagens os antigos casarões despedaçados pela força da natureza. O terremoto destruiu algumas pequenas cidades e casas nas montanhas da região central da Itália, mas em especial devastou as cidades de Amatrice e Accumoli. O terremoto ocorreu às 3 e 30h de quarta feira, ainda 22 e 30h de terça pelo horário de Brasília. O sismo alcançou 6, 2 na escala Richter e provocou quase 300 mortes já confirmadas até o momento da escrita deste artigo, muitos feridos e mais de 2000 pessoas desabrigadas. O grande número de mortos e feridos se explica pelo fato do desastre ter acontecido à noite, quando as pessoas estavam dormindo.
     Essa tragédia, que atingiu as cidades italianas, permite introduzirmos questões importantes, pois passamos por tragédias, muitas vezes, sem uma análise mais cuidada. Acontecimentos tão impressionantes como esse suscitam indagações e perplexidade. E tanto mais produzem inconformismo e comoção quando mais próximos estamos dos que sofrem. É claro que tragédias naturais de tamanha proporção são capazes de suscitar solidariedade e perplexidade em todas as partes do mundo, mas ela é mais dolorosa num país como o nosso, que recebeu grande imigração italiana e onde as essas famílias são tão numerosas no conjunto do população. Pois bem, em qualquer dos casos, mais próximos ou distantes dos fatos, grandes tragédias tocam o homem, pois lhe mostram sua fragilidade e lembram a limitada realidade e falta de segurança de nossa existência.
     A limitação e finitude que nos marcam colocam na cena diária da vida as suas consequências, então sofremos quando algo nos acontece e não temos como escapar desse sofrimento, e precisamos sempre enfrentar em nossa existência circunstâncias penosas, dores, mutilações e a morte. E essas realidades extremas nos levam a pensar filosoficamente, pois na hora da tragédia não há como distrair-se, nem iludir-se com a vida. Pois do trágico que toca o humano não nos salva ser mais ou menos rico, mais ou menos jovem, mais ou menos atleta. Todos sofremos, envelhecemos, adoecemos, morremos, nos sentimos perdidos e perturbados pela culpa, todas essas coisas abalam nossas certezas e nos lançam no desafio de enfrentar as situações dolorosas da existência.
     As situações trágicas revelam parte da condição humana. Como não há uma forma de esconder a dor que toca, nem se iludir nos folhetins das redes televisivas ou nas luzes dos grandes shoppings, o sofrimento leva ao questionamento e a busca de sentido. Essa procura do homem pelo significado ganha força na objetivação dos produtos culturais onde a alma coloca para fora o que de mais humano se dispõe, de fazer o belo, de realizar o bem e de viver a verdade. E, nesse sentido, produzir cultura, refazer o destruído, refazer-se da dor e seguir vivendo é nossa forma de ir além do trágico e descobrir o lado mais generoso da existência. E estamos certos de que os italianos saberão reerguer essas cidades, como fizeram recentemente com Assis, reconstruirão os casarões e monumentos históricos como eles sempre foram.
     A vida é assim, mistura dores e realizações, o choro e o riso, e nos cobra um sentido pessoal e a realização cultural dos melhores valores que temos.
                                                                                                                        José Mauricio de Carvalho