quarta-feira, 6 de julho de 2016

Buber e a coexistência | Por José Mauricio de Carval

Buber e a coexistência
Coexistir é realidade humana fundamental, em nenhum momento da vida o homem está completamente isolado do mundo. Logo viver é relacionar-se e a consciência humana o reconhece pela intencionalidade. Isso ensinou Edmund Husserl, o criador do método fenomenológico, ao dizer que consciência é sempre de algo. O caráter relacional da existência foi igualmente reconhecido pelo filósofo espanhol Ortega y Gasset que descreveu a vida como "um que fazer". Isso representa, antes que qualquer outra realidade, o sentido relacional do existir, no caso de Ortega numa circunstância. Os diversos filósofos da existência consideraram o problema de algum modo, pois não importa que aspecto da existência se considere, estamos coexistindo. A coexistência se revela em nossa história, corpo, pensamento, sociedade ou psicologia. O que varia é o modo como se olha as relações. Ainda que Buber não seja propriamente um existencialista faz uma análise das relações que se aproxima das análises da existência.
Uma das mais criativas análises do caráter relacional da vida encontra-se em Eu - Tu, livro de 1923, obra prima de Martin Buber. O livro é  pequeno, mas denso em suas três partes. O estilo é pouco sistemático, mas vivo e dinâmico. O autor utiliza frases soltas intercaladas com trechos de aprofundamento, lembrando os aforismas e metáforas dos ensaios de Friedrich Nietzsche. A primeira parte do livro descreve o aspecto nuclear das relações, a segunda considera um tipo especial de relação expresso na história dos indivíduos e da sociedade e a terceira aborda as relações com Deus (Tu eterno). A estas três partes o autor apensou um post-scripitum (de outubro de 1957) onde esclareceu aspectos pouco compreendidos da obra, notadamente das relações entre os homens e com Deus.
Neste pequeno artigo apresenta-se apenas a primeira parte do livro, procurando-se indicar a riqueza das análises de Buber sobre as relações. Essas relações se resumem em dois pares de vocábulos Eu-Tu e Eu Isso, sendo o Isso substituível por Ele ou Ela. Para Buber, quando se fala Tu ou Isso, pronuncia-se palavras-princípios, que são os pares de vocábulos que resumem as relações possíveis com o mundo. E como Buber descreve esse mundo relacional?
Ele o faz diferenciando o Tu e o Isso. O primeiro refere-se à aquilo que não pode ser objetivado e portanto, não pode ser possuído pela consciência. Como tal é um nada pois está além da possibilidade de ser objetivado. O Isso em qualquer de suas formas Ele, Ela, Ele e Ela, Ela e Isso, exprime a experiência do mundo, ainda que a experiência, como fenômeno, se restrinja ao experimentador, e não algo entre ele e o mundo.
Ao examinar as relações, o filósofo menciona três esferas onde elas se dão: a primeira é a natureza, a segunda são os homens e a terceira os seres espirituais. Na primeira esfera a relação permite a classificação. Diz Buber (p. 54): "Eu posso classificá-la numa espécie e observá-la como exemplar de um tipo de estrutura e de vida". A segunda esfera de relações é entre os homens e elas não se objetivam como Isso e nem posso ter delas experiência. Essas relações são inexperienciáveis porque não se deixam apreender como o fenômeno e não têm utilidade ou função. Eu - Tu exprime unicamente um encontro ou relação. Nesse sentido, para haver encontro é necessário a presença e não sobrevive sem ela. O que fica sem a presença é o Objeto que não é duração, mas fixidez, interrupção, ou ausência de relação. E aqui temos um tópico nuclear do caráter relacional do homem, as relações Eu - Tu, na ausência do Tu se convertem em Eu - Isso, o que significa que o que ficou depois da presença foi uma reprodução fixa da vida, em si dinâmica e com profundidade inatingível.
Em contrapartida, algo do mundo pode estabelecer com o Eu uma relação de Tu. Nesse caso o fenômeno possui um significado oculto, místico. O que o homem primitivo queria exprimir de seu encontro com as coisas era uma realidade de mistério onde os fatos (p. 63): "são todos fenômenos elementares de relação." Esse encontro mágico com o mundo tinha um sentido maior, o  que fazia com que uma pedra tivesse poder. O que houve mais tarde foi que o Tu dessas relações primitivas foi objetivado, e o mundo foi classificado em grupos e gêneros. Deixou de ser Tu e tornou-se um Isso.
O homem primitivo, diz Buber, estabelece esse tipo de relação com a natureza porque coloca a palavra Eu - Tu antes de experimentar o Eu e posteriormente, quando ele objetiva o ente dá origem ao Isso. O Isso depende da cisão com o mundo e é o que se mostra na consciência fenomenológica, explica o filósofo (p. 65): "eu vejo a árvore é proferida de tal modo que ela não exprime mais uma relação entre o homem Eu e a árvore Tu, mas a percepção da árvore-objeto pelo homem consciência. A frase erigiu a barreira entre sujeito e objeto, a palavra - princípio Eu - Isso, a palavra da separação foi pronunciada."
Outro aspecto importante relacionada à forma primitiva de pensar se refere à nostalgia do primitivo. O conceito não se refere a uma espécie de culto do passado, mas a saudade do vínculo com o universo, experimentado na placenta, e que se perdeu com o nascimento. Esse entendimento se encontra na mística judaica e assim se exprime (p. 66): "o homem conheceu o universo no seio materno, mas ao nascer tudo caiu no esquecimento." A criança vive essa dinâmica nas suas experiências e perplexidades. O seu desenvolvimento encontra-se "indissoluvelmente ligado ao desenvolvimento da nostalgia do Tu, às realizações e decepções deste anseio."
A conclusão dessa primeira parte é que o Eu só se torna Eu na relação com o Tu. Muitas vezes, mas nem sempre, a relação com o Tu desaparece para dar origem ao Isso. Há casos em que fica o Isso em si, à espera de uma nova  relação.O mundo, no entanto, somente pode ser classificado quando deixa de ser Tu para tornar-se Isso. Como nem sempre assim ocorre o mundo aparece na duplicidade, ele é o Ser que não se objetiva e os entes que se objetivam. O Ser é aquilo que (p. 71): "o confronta, mas sempre como uma presença e cada coisa ele a encontra somente enquanto presença, aquilo que está presente se descobre a ele no acontecimento e o que acontece, se apresenta a ele como Ser". E, finalmente, na relação com o Tu surge o amor, pois o amor não se manifesta quando o que se intenta é experimentar e utilizar. Algo que lembra o imperativo categórico de Kant em que as relações éticas somente são possíveis quando o outro (ou Tu) é um fim em si mesmo.

José Mauricio de Carvalho