domingo, 22 de maio de 2016

Ortega y Gasset e nosso tempo | Por José Mauricio de Carvalho

Ortega y Gasset e nosso tempo

       Acaba de ser publicado, pela Filoczar de São Paulo, Ortega y Gasset e nosso tempo. O livro é uma continuidade de nossos estudos sobre o filósofo espanhol. Em certo sentido continua o que foi proposto em Introdução à Filosofia da Razão Vital de Ortega y Gasset, publicado em 2002,  pela  editora  Cefil,  de  Londrina.  Não  se  trata  de  uma ampliação  da  temática  abordada naquela ocasião, mas de uma reconstrução de aspectos fundamentais do pensamento orteguiano, a  partir  dos  estudos  mais  recentes  e  sistemáticos  feitos  sobre sua  obra.  Desde  a  publicação daquele livro muitas dezenas de tese de doutoramento foram defendidas sobre o autor, surgiu a revista  do Centro  de  Estúdios  Orteguianos,  que  estuda  exclusivamente  sua  obra,  e  uma  nova edição  comentada  de  suas Obras  Completas foi  publicada  pela  Taurus.  Muitos  desses  estudos renovaram nossa compreensão do pensamento do filósofo.

Questões  que  no  primeiro  livro  foram  apresentadas  como  intuição  e  rapidamente comentadas,  por  exemplo  a  aproximação  do  raciovitalismo  com  a  fenomenologia  de  Husserl, assunto controverso pois era negado pelo próprio filósofo, foram confirmadas com estudos mais recentes  de uma  nova geração  de pesquisadores. Ficou  bem  demonstrado  que  Ortega conhecia apenas uma parte pequena da obra do criador da fenomenologia. Também ficou demonstrado o impacto  do  pensamento  de  Heidegger  sobre  a  razão  histórica  e  os  livros  da  chamada  segunda navegação. Além  disso,  a  noção  de  razão  vital  apresentada  como  aprofundamento  da  ideia  de autenticidade  da  vida  em  circunstância,  isto  é,  dos  assuntos propostos  nos  primeiros  escritos parecem consolidadas com as últimas pesquisas sobre o autor. Ficou mais claro que os textos da década de trinta constituem uma segunda navegação, mas  não propriamente uma  mudança nos rumos da meditação inicial. E há muito mais novidade, os estudos sobre o tempo das massas nos permite entender melhor os dias que vivemos, ainda que muitos aspectos de nosso tempo Ortega tenha  apenas  vislumbrado,  e    ainda  a  inédita  aproximação com  Karl  Jaspers  que  estamos também antecipando.
O livro, portanto, é essencial para todos os interessados na obra do pensador espanhol e nos estudos de Filosofia em geral, mas destina-se a um público maior. O entendimento de que estamos num tempo de crise de valores é percebido hoje ainda mais que nos dias  em que viveu Ortega e esse desvio do homem contemporâneo de crenças que guiaram as gerações anteriores, pede  a  compreensão  da  realidade  humana,  impregnada  por  questões onde  a  ética  se  torna  um esforço  de  sentido.  Esse compromisso  de  fidelidade  do  homem  consigo mesmo  e  com  o
significado de sua vida  é  apresentado  por Ortega  como resposta a um tempo  histórico  e a uma sociedade  que,  sem  referentes  comuns,  exige  o  extraordinário  empenho  de  todos  nós  para encontrar  sua  missão.  Missão  entendida  como  concreta vocação  que  exprime  o  legado  que somente o indivíduo é capaz de deixar para todos os homens em todos os tempos. Isto porque as escolhas  que fazemos  marcam  não só  nossa história pessoal,  mas  a trajetória  da sociedade  que vivemos. Finalmente, o livro permite entender a Filosofia como atividade necessária e adequada a todo homem. A Filosofia  é  mais  ou menos procurada ao longo da sua longa tradição de mais de dois mil e quinhentos anos de história. Em nossos dias refletir sobre a vida, tema essencial de Ortega,  é  exigência  para  a  superação  da  rotina  de  trivialidades,  de  trabalhos  superficiais  e  da luta  pela  sobrevivência,  que  geralmente  ofuscam  o  que  a  vida  tem  de  mais  encantadora, desafiadora, saudável e realizadora. Não é a toa que pesquisas recentes mostram que o estudo da Filosofia melhora a inteligência das crianças e torna melhor a vida do adulto.

José Mauricio de Carvalho - Professor do IPTAN