quinta-feira, 28 de abril de 2016

O caso Marcela Temer | Por José Maurício de Carvalho

O caso Marcela Temer
Certo periódico colocou em evidência a jovem esposa do Vice-Presidente da República. Desde então as redes sociais não perdoaram a míope perspectiva da reportagem e as críticas se multiplicaram. E já saiu de tudo, de cachorrinha vestida de madame  a madame vestida de prostituta, de estudante na balada à celebração nos bares, todas as imagens e vídeos ostentando a maravilhosa epígrafe da reportagem: bela, recatada e do lar.
É evidente que as referências da reportagem à Marcela Temer são de extremo mal gosto, pois expõem aspectos da sua intimidade que ela, recatada, não gostaria e nem precisariam vir a público, mesmo sendo os personagens, ela e o Vice-Presidente Michel Temer, figuras públicas. Além do mais, ela pode escolher como deseja viver e espero que seja feliz com sua escolha. Um dos aspectos mais fascinantes da existência humana é que vivê-la é a realização de um sentido, de um caminho existencial singular, que cada um escolhe na circunstância em que se encontra. Na principal obra da primeira fase de sua reflexão filosófica intitulada La Meditación del Quijote, o filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955) considera a questão do sentido como identificadora da vida humana. Conforme se lê em Ortega, a vida como realidade metafísica, texto publicado na Revista Trans/form/ação, Marília, 38 (1), 167-186, jan./abr. 2015: "Daí a caracterização da vida como o grande problema a ser desvendado. (...) Viver é realizar um programa, um destino, desenvolver um projeto vital num mundo que se encontra aí. (...) Assim, a característica principal da ontologia raciovitalista é conceber a vida como tarefa de vencer a circunstância no quanto ela impede a realização do projeto vital. A ação guarda uma fidelidade ao núcleo interior do sujeito que o filósofo formula como obrigação ética (p. 171).
Ao expor a esposa do Vice-Presidente a uma situação que ela certamente não desejaria e apresentá-la como ideal de mulher, o periódico revelou não só miopia de perspectiva, mas a mais completa imbecilidade.
Infelizmente não há outra palavra para qualificar a reportagem. Primeiro porque esse modelo de mulher, nada contra ele, não é mais a realidade da maioria absoluta das mulheres de nosso século. Essa realidade de todo o mundo não é diferente no Brasil. Hoje em dia a mulher trabalha fora, estuda, faz mil atividades e muitas brasileiras, dizem as pesquisas do IBGE, são chefes de família. São mulheres que ganham a vida trabalhando, além de atender às tarefas domésticas. Segundo, porque revela desconhecer o processo histórico pelo qual passou a sociedade no século passado, quando a brutal crise de cultura, as dificuldades econômicas, o desemprego em massa, as Guerras Mundiais e a vida convertida em tragédia exigiram novas considerações sobre a vida humana que não só superou escolas filosóficas e crenças em vigor, como mudou completamente a vida das pessoas e o papel da mulher na sociedade. Terceiro porque o tipo de vida da jovem esposa do Vice-Presidente somente pode ser desfrutada por uma minoria ínfima de mulheres de uma classe social privilegiada.
Se se tratou de estratégia jornalística para vender revista na verdade expôs o despreparo profissional e a falta de inteligência desses representantes da direita que, desde que apontaram Paulo Renato de Souza como notável educador, não se cansam de demonstrar incompetência e burrice. Cada dia o periódico se supera na incapacidade de defender, com elegância e inteligência, as teses do conservadorismo que representa. A lamentar o fato: para um debate político qualificado é preciso expor com qualidade as teses e posições políticas, o que não é o caso da reportagem em questão.

José Mauricio de Carvalho