segunda-feira, 27 de julho de 2015

Contando uma linda história - por José Mauricio de Carvalho

Contando uma linda história

A mais maravilhosa história da humanidade foi protagonizada há mais de dois mil anos por um jovem carpinteiro da cidade de Nazaré em Israel. Depois de ensinar alguns anos o caminho para Deus, assumiu com sua morte, as consequências de suas escolhas e ensinamentos. E assumiu com força inabalável. Ele percebeu, a certa altura da vida, que as autoridades religiosas judias não aceitavam sua mensagem, nem sua presença e caminhou serenamente para o destino trágico que a missão o conduzia. O Batismo no Jordão transformara o jovem carpinteiro em um novo homem e o levou à entregar a vida em sacríficio supremo. Foi a última forma que encontrou de combater o mal. Ao fazê-lo revelou aos homens a vontade de Deus e respondeu com o perdão a injustiça, a mentira e o julgamento fraudulento de que foi vítima. Viveu humildemente e morreu sublimemente: morreu por seus amados (Jo 15,13).
O jovem carpinteiro saiu do Batismo no Jordão elevado à condição de Rabino, mudou sua forma de viver com uma ética que abria os caminhos até Deus.  Seus últimos dias neste mundo foram relatados nos Evangelhos: a recepção com ramos em Jerusalém, a última ceia, a condenação, o testemunho de coerência diante dos juízes, a morte na cruz. Foi-lhe dada a forma desumana de executar escravos e inimigos perigosos de Roma. E a tudo suportou sem desespero, procurando a presença de Deus na sentença da cruz. Passou seus últimos momentos com o coração cheio de angústia, mas determinado a levar ao final sua missão. E com esta escolha libertou-se da angustia existencial e deu à sua vida um sentido maior, o de salvar os homens da maldade. Morreu, foi sepultado, e quando todos esperavam o fim da história começou a aparecer a seus discípulos e a pessoas que o conheceram. O absurdo dos fatos adquiriu, então, um sentido libertador. Apareceu de outro modo, com um novo corpo, mas ainda assim possível de ser reconhecido pelos discípulos. Ressurgindo renovou todas as coisas.
A linda história do Filho de Deus que viveu entre os homens, morreu ressuscitou e apareceu a muitas pessoas, mudou a história da humanidade. Primeiro trouxe valores desconhecidos: o amor até aos inimigos, a igualdade de todos os homens diante de Deus, a dignidade da pessoa humana, a liberdade de fazer escolhas e a responsabilidade necessária por elas. A tais valores soma-se a esperança de renovação do mundo e de uma nova vida que há de vir para todo homem depois de cumprida a jornada na terra.
Esta história já contada tantas vezes e com muitas variações é encenada na cidade de São João del-Rei durante a Semana Santa, mantendo-se um ritual que se repete, quase sem alterações, há dois séculos. Assim, a história do carpinteiro que era Deus ganhou, com a tradição, uma forma igualmente extraordinária de ser apresentada aos homens. A cerimônia foi recentemente filmada por Toninho Ávila e comentada pelo Pe. Ramiro José. Este último explicou o significado litúrgico dos fatos narrados: a presença viva de Cristo no ritual. Além dos eventos da Semana Santa gravaram também a via sacra realizada na Catedral de São João del-Rei, que é um outro modo de retratar os últimos momentos da vida de Jesus. Tudo isto pode ser adquirido por qualquer pessoa hoje em dia. Pode ser guardado como registro deste bem cultural imaterial, celebração que enriquece o casario dos séculos XVIII e XIX e que é o adorno desta celebração. Uma iniciativa interessante dos organizadores do vídeo. Ao assistir as filmagens comentadas nos vemos diante do desafio de reviver os últimos momentos do Senhor e reconstruir, para além da forma narrativa, o sentido de sua Presença em nossos dias.

                                                                                                     José Mauricio de Carvalho