domingo, 22 de março de 2015

Um livro sobre os dilemas de ser psicoterapeuta - resenha de José Maurício de Carvalho

Um livro sobre os dilemas de ser psicoterapeuta

Acaba de ser publicado pela editora Vozes o livro Ser Terapeuta da Psicóloga e Filósofa Clínica Rosangela Rossi. O livro é um romance onde se encontram dois psicoterapeutas: um filósofo clínico e um outro de formação jungiana. A leitura é simples e instigante, mas ninguém se engane sobre a profundidade do abordado. É que o profundo pode ser dito e aqui é dito de modo simples, ou claro, como diria o filósofo espanhol Ortega y Gasset: a clareza é a gentileza do filósofo. E é tão bom quando é assim mesmo quando não tratamos de meditação filosófica, o profundo continua profundo, mas mostra sua proximidade conosco.

No romance os dois terapeutas habitam o mundo da autora e eles procuram tirar de si mesmos respostas para uma jornada interior de serenidade e equilíbrio. Muitas vezes os terapeutas não dão importância a isso, suas formações não chegam lá, só o tempo e a experiência revelam. O psicoterapeuta para ajudar alguém a mergulhar em si e iluminar suas dificuldades precisa ele próprio caminhar na luz benfazeja da serenidade íntima. Mais lindo seria o romance se fossem dois autores diferentes nesse diálogo, desde que trabalhassem com o mesmo cuidado e delicadeza de alma da autora. Rosangela vive intimamente esse diálogo devido a suas duas formações e o fato de fazê-lo não deixa de ser também encantador porque ela em sua vida procura agregar, soma e não afasta e rejeita um modo diferente de pensar o mesmo drama. É disso que se trata no fundo: o drama de como os terapeutas vivem o seu lado negro, o de conviver em paz com aquilo que atormenta e fere porque dói na alma.
O personagem principal do livro experimenta o desafio de voltar-se para a própria intimidade para ajudar quem o procura a conviver consigo mesmo, de passear pelo lado mais triste de si para ajudar o outro a fazer o mesmo, a respeitar o seu mundo e o seu núcleo mais íntimo, para respeitar o outro em suas escolhas legítimas. Denomino legítimas aquelas opções feitas não pelas dores, mas em fidelidade a si mesmo, naquilo que aproxima terapeuta e quem o procura como companheiros no destino da vida.
Em nossa realidade quotidiana tão corrida e desafiadora muitos acreditam que seu tormento está todo originado fora deles mesmos, mas não está. Muitas das nossas dores estão em nós mesmos, em não sabermos viver com o que nos fere nas entranhas e das entranhas da alma. E essas dores não serão curadas com fluoxetina ou outro anti-depressivo com função ansiolítica. Muito menos acabarão nas compras compulsivas, que esperam acalmar a alma com coisas cuja posse é vendida como felicidade e sucesso. Mas a felicidade não vem por esse caminho, embora o legítimo caminho da serenidade interior não invalide o desejo legítimo de possuir bens que assegurem uma vida digna.

No prefácio que preparei para o livro pude dizer que ele  "tem um objetivo desafiador, simples de falar, dificílimo de realizar. Ele pretende mostrar que o conhecimento da Filosofia Clínica criada por Lúcio Packter e da Psicologia Analítica de Jung tão diferentes em seus fundamentos e práticas podem conviver e orientar as buscas íntimas do psicoterapeuta. E não só essas teorias podem conviver, mas elas e muitas outras em infinitas combinações possíveis e abertas. Esse objetivo se apresenta em dois caminhos: o primeiro é o do homem comum que vive vida singular, que tem um lado escuro para ser iluminado, que vive continuamente dúvidas existenciais diante do que fazer. Sim, a vida é o que fazer como dizia Ortega y Gasset. O segundo é o caminho do terapeuta desafiado a construir uma prática clínica com informações colhidas em diferentes teorias, experimentando que o mundo da vida é mais quente, intenso e maravilhoso que nossas teorias para explicá-lo" (p. 13).
A preparação para ser psicoterapeuta é longa e difícil. Exige um prolongado estudo de teorias, do conhecimento das dificuldades pessoais e das doenças que afetam a consciência e o destino pessoal. Não se pode ser psicoterapeuta sem esses estudos, mas eles só não bastam. Talvez seja suficiente em algumas profissões um bom conhecimento das teorias, mas no caso não é. O conhecimento de si, a superação das próprias dores, o saber conviver com a angustia em si e no outro e muito importante e complementa o manejo clínico. E nesse esforço de busca íntima o terapeuta da alma é companheiro de todos os homens. Deve vencer a si mesmo antes de ajudar os outros a fazê-lo e essa jornada nunca está completa, ele precisa estar sempre clareando o seu lado mais escuro, suas inautenticidades.
Como já pudemos escrever no prefácio da obra o livro "é um desafio à liberdade: da autora que construiu diálogos improváveis e do leitor ao ver-se revirando intimamente em dúvidas e procuras das quais frequentemente não se ocupa" (p. 15).
O livro é também um alerta. Não podemos andar distraídos pela vida, distantes de nós mesmos, perdidos nos afazeres diários, ocupados com coisas que normalmente nos afastam de nós mesmos. A Filosofia, as Religiões e também a Psicologia estão aí a nos dizer isso, cada uma do seu jeito, com seus métodos e pressupostos distintos, mas com o mesmo compromisso de apontar caminhos de autenticidade existencial.


José Mauricio de Carvalho
Departamento de Filosofia da UFSJ