segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

QUAL O LUGAR DO FILÓSOFO? -- -por Kélsen André Melo dos Santos




QUAL O LUGAR DO FILÓSOFO?


Perpassando a tradição filosófica ocidental tudo nos remete à Àgora. Nas palavras de Jaeger Werner “ a filosofia nasce com a cidade.” E o filósofo é filho da cidade, é fruto dela. O filósofo se faz nas discussões, nas interlocuções que se estabelece entre ele e os cidadãos da Pólis/Cidade/Estado/Páis/Continente/Mundo. Sim, os filósofos podem ser aquilatados pelo alcance das suas idéias nas respectivas aldeias. Há aqueles cujas interlocuções se dão no nível da escola e comunidade local que lecionam. Outros alcançam a cidade, e assim vai ampliando os campos de discussão, interlocução, atuação. Todos são importantes, e, embora sejam, os filósofos mundiais e continentais que irão compor e compõem os livros de História da Filosofia são os filósofos da polis, das cidades, do Estado que sedimentam o pensar, o refletir, a práxis filosófica. Mas, antes de chegar ao mérito que destina esse texto, tento ressaltar que essa Paidéia da cidade como lugar do filósofo perdura em nossas cabeças até hoje sem muitas atualizações, criações, invenções, perversões, transgressões. É quase um consenso na história da filosofia. O filósofo é fruto e filho da cidade e dela não escapa. Assim, se nós, filósofos não mudamos, muda a pergunta: o que é a cidade? Quando falamos de cidade estamos falando de qual espaço? Seja ele físico, mental, emocional, subjetivo, imaterial, o que é a cidade? O filósofo filho da cidade é fruto do que?
Não tenho a mínima pretensão de responder quaisquer umas dessas perguntas, pelo contrário, a minha única pretensão e objetivo é salientar que hoje a cidade ‘são’ muitas e que as Àgoras são várias. No entanto, queremos ocupar um lugar no qual perdemos, fomos tirados e outros ocuparam. Penso que mais importante do que nos atermos ao espaço, lócus- CIDADE. O filósofo deve buscar a essência. E a essência da Pólis, filosoficamente, era a Àgora. Assim, nosso deslocamento deve ser para onde estão as Àgoras atuais? Por que os filósofos as ocupam com muita vergonha e timidez? Ou por vezes, não as ocupam?
As mídias socias é uma nova Àgora? Será que nessa balburdia do mercado não poderíamos lançar redes e chamar pessoas para novos espaços? Mas, quais? Quais espaços nó filósofos andamos oferecendo e ofertando para quem quer fugir da efusão midiática, televisiva, maciça, massacrante? Quem, melhor do que aqueles que foram formados para dialogar para ocupar esse lugar? Efetivar esse papel?
Na Europa há cursos, pós-graduação tanto acadêmica (mestrado) quanto profissional (especialização) no que chamam de FILOSOFIA APLICADA. Em suma, ela tem como essência, o que todo bom licenciado em Filosofia coloca em suas aulas e sua prática: educar à cidadania, à criticidade, à eticidade e outros. O diferencial é que fazem isso em consultórios, em empresas e não apenas para dúzias de alunos no ensino público ou privado, e nada contra o lecionar, mas outros espaços são possíveis. 
Aqui no Brasil temos a FILOSOFIA CLÍNICA, ela não goza da mesma abertura acadêmica, mas tem a especialização. Em suma, ela tem como essência, aproximar o filósofo de formação da dor do outro. Dar ao filósofo novas condições de atuar na polis auxiliando os seus cidadãos num cuidado bem situado.

Finalizando, os lugares do filósofo na cidade podem ser muitos, mas todos precisam de ousadia. Ousadia que perdemos, ou nos foi retirada quando entramos na Cátedra. Mas, temos “novos” horizontes para a Filosofia. Sigamos....
Kélsen André. 10/01/2015


PAREM DE FORMAR PARA A SALA DE AULA.
Vítor Paro, tem um artigo, que por algumas vezes se faz apelo, súplica, que diz: PAREM DE PREPARAR PARA O TRABALHO. A escola, o mercado, o mundo não deveria ser obstáculos e rivais, pelo contrário. Mas, esse texto tem como objetivo realizar um apelo às faculdades de filosofia: parem de formar para a sala de aula, ainda que seja melhor, do que para o bacharelado.
Longe de criticarmos a licenciatura, o que desejamos é expandir, ampliar os limites do curso de Filosofia, mas antes de entrarmos nisso, vejamos alguns outros cursos: Educação Física, Pedagogia, Administração.
Eu formei, fui formado bacharel em licenciatura em Filosofia pela PUC/MG em 1999. Meu irmão entrou na Faculdade de Educação Física por volta de 2001. Nesse intervalo nós da Filosofia brigamos pelo retorno da mesma ao Ensino Médio como apregoava a LDB (1996), a aprovação do projeto de Lei do Padre Roque, a sanção do Fernando Henrique, etc... Nesse mesmo período a Educação Física se organizou, criou um conselho Federal (CONEF- set de 1998), tem conselhos Estaduais, tem carteirinha de atuação, ampliaram o espaço de atuação deles tanto nas escolas, quanto nas academias, quanto em tudo o que diz respeito à prática esportiva.
Foi o 1º “ato médico” da história, mas garantiram um lugar que foge estritamente à sala de aula. Eles têm licenciatura, bacharelado, academias, escolas de natação, futebol, basquete, vôlei, etc. ampliaram o campo de atuação.
As pedagogas eram quase que exclusivamente professoras do ensino fundamental. Outras supervisoras, especialistas. Hoje, elas têm vários campos de atuação: empresarial, hospitalar, ONG, organizações sociais e religiosas, RH Sim? Pedagogas podem atuar no RH das empresas. Isso foi assegurado por alterações na grade curricular, mais ainda, por buscar um novo lugar das pedagogas no mercado.
Mas, nenhuma mudança é tão significativa quanto nos cursos de Administração e Engenharia. Nessa década de 1990 as engenharias eram basicamente: civil, elétrica, mecânica, e quando muito a mecatrônica. Hoje se tem engenharia ambiental, de alimentos, eletrônica, naval, aeroespacial, energética, trânsito, etc... O verbo é “enegenheirar” e necessitamos de engenheiros não para construir pontes como na década de 80, mas para pensamentos estratégicos da nação. Os engenheiros que eram chamados de estúpidos, só falavam de carro, mulher e futebol recebem uma formação hoje que os coloca em destaque dentro de qualquer tipo de empresa. Eles são pagos para pensar e, diga-se de passagem, pensam muito bem e estruturam e organizam as empresas muito bem. Tem engenheiro trabalhando em RH para desespero das psicólogas.
A Administração que nessa mesma década formava profissionais para atuarem como administradores de empresas alteraram toda sua grade curricular para formarem empreendedores. O sentido do curso deixou de ser estudar para cuidar da empresa de alguém, para estudar e ser dono da sua própria empresa, ou caso queira, trabalhar para alguém. Administradores estão indo para o 3º setor, estão atuando também no RH das empresas, todas essas situações eram impensadas na década de 1980 e até mesmo na de 1990.
Ponto é que as profissões estão em crise e diante dela abriu-se um amplo espaço para reformulações, ampliações e destituições. Vários cursos sumiram para reaparecerem com outro nome, repaginado, Biblioteconomia é um deles. O que quero pontuar é que as reformulações feitas pela Ed Física, Pedagogia, Engenharias e Administração parecem poucas, mas são mudanças substanciais. São mudanças que colocam todos esses cursos que estavam fadados ao desaparecimento com uma sobrevida, aliás, mais do que sobrevida é mesmo um novo alento e uma nova transformação. E as licenciaturas, em especial, a Filosofia? Continuamos formando para licenciatura e bacharelado. Continuamos passivos, dependentes das escolas públicas ou particulares.
Observando esses cursos citados, se eles nos ensinaram alguma coisa foi que tanto se pode provocar demanda no mercado, quanto se pode verificar o que o mercado demanda e ocupar esse lugar. Na Europa é comum o Aconselhamento Filosófico, assim como a Filosofia Aplicada. Temos no Brasil a Filosofia Clínica. São três áreas que ampliam o espaço e o campo de atuação do filósofo. Dentro desse nicho há ainda o de CONCILIADOR, MEDIADOR de conflitos. Esse é um campo no qual os filósofos estão tão aptos a exercer quanto qualquer estudante de direito, ou mais, porque na conciliação busca-se o diálogo, o entendimento, as clarezas das demandas racionais e afetivas que impossibilitam os sujeitos em conflito compreenderem a perspectiva do Outro. Ninguém mais habilitado a mediar conflitos do que um filósofo, já que a habilidade de compreender perspectivas contrárias e explicitá-las fazendo uso de uma racionalidade clara, transparente (o que pode ser dito, pode ser dito claramente) do que o filósofo. Quero dizer que há um segmento no mercado, há uma demanda no mercado, esse segmento é ocupado por vários, mas poderia ser espaço do filósofo. E, claro que para adentrar as particularidades, seja do atendimento ao outro, seja a mediação ou dissolução de conflitos, esse filósofo aprenderia as ferramentas, os mecanismos, as metodologias, que se utilizam para prestar essa mediação, como é ensinado na Filosofia Prática e Clínica.
Dois campos que estão aí, na ordem do dia. Dois campos que poderiam ser explorados pelas Faculdades de Filosofia tanto nos seus programas de graduação quanto nos de pós-graduação. Dois campos que retiram a Filosofia de um establisment conservador, elitista e tenta aproximá-la da praça, do outro, numa tentativa socrática de mostrar que a racionalidade é atributo humano e não estado sobrenatural que alguns, os eleitos possuem. Esses dois campos permitiriam o desvelar de estruturas de pensamento, de modos de organização existencial que a pessoa vivencia, mas não refletiu em profundidade, não recebeu um espelhamento para que as questões ao lhe ser devolvidas, ela desbloquear suas dores, seu sofrimento. Os filósofos como poucos podem fazer isso, tem habilidades para despertar esse cuidado de ir em direção ao outro como se vai em direção a um amigo e nesse encontro, ambos encontrarem- SOPHIA, a sabedoria.
Finalizo, dizendo que na década de 1970, 1980 era difícil imaginar um engenheiro atuando na forma como atua. A graduação, o mercado lhes deu nova orientação. E hoje aos meus olhos só tem uma graduação que rivaliza com as habilidades organizacionais, no que elas têm de lógica, estrutura, racionalidade, linguagem, como um engenheiro; esse profissional é o filósofo. Não aquele que esta preso nos ‘ismos’ da filosofia, mas aquele que esta aberto para encontrar o Outro, na sua lógica, na sua segurança, nas suas dores, conflitos, dissabores, racionalidade, linguagem. O diretor da Câmera de Comércio da Espanha é filósofo com especialização em Filosofia Aplicada. 
Finalizando, ao que tudo indica, no mundo tecnológico, conhecimento precisa ser aplicado. Não deveria ser uma ofensa de morte dizer o mesmo sobre a Filosofia. Precisamos aplicá-la. As pessoas têm sede de saber, de querer, de entender, de compreender. Os filósofos têm parte dessa senha, mas não a utilizamos por falsos pudores. A receita Mais Platão e Menos Prozac vale para todos nós, especialmente, filósofos. Ou, mais Filosofia Aplicada, Mais Filosofia Clínica. Todos esses propositores estão vivos e não precisamos esperá-los morrer para daqui 100 anos, 30 que seja, prestemos atenção em suas obras. 
Podemos começar o quanto antes. Que tal agora?