quarta-feira, 6 de agosto de 2014

As tragédias e as regras - Por José Mauricio de Carvalho





As tragédias e as regras


Dois episódios sensibilizaram a opinião pública nos últimos dias, a demolição de dois antigos casarões de valor histórico na cidade de São João del-Rei e o episódio do menino que perdeu o braço depois de atacado por um tigre no zoológico da cidade de Cascavel.
Ambos os acontecimentos possuem elementos de tragédia, com proporções distintas, pois envolvem valores diferentes, mas ambos os episódios com final triste que parece poderia ter sido evitado. O que emerge na história parece surgir pela força do inesperado que os antigos gregos chamavam destino. Destino compreendido como o rumo de fatos que seguem uma direção, quando se espera que o contrário ocorra. O grego dizia que a vida humana era uma luta contra o destino, embora terminando sempre com vitória desse último, devia o homem se rebelar  contra as forças que o conduzem à má sorte. Para o grego a má sorte surgia da posição do fio na roda do tear das Moiras (deusas primordiais). Elas pela posição dos fios traziam, se para o alto a boa, se para baixo, a má sorte. As Moiras eram deusas lúgubres, responsáveis por dirigir a vida das pessoas e dos deuses por tudo que lhes acontecia. Na roda de tear das Moiras estava, assim acreditava o grego, desenhada a vida dos homens e deuses. A vida de cada um é feita de escolhas, mas também de coisas que nos acontecem. E para isso que nos acontece sem que tenhamos contribuído os gregos denominavam destino.
O homem contemporâneo dá mais atenção ao que resulta das suas escolhas e nelas coloca o sentido da vida. É compreensível isso porque hoje temos melhores condições de controlar as adversidades da natureza. E assim nossa experiência de viver está mais ligada à construção de um cenário vital que surge da ação humana, das nossas escolhas. A vida não parece um cenário já escrito, que se desenvolve sem nossa intervenção ou vontade, pois a cultura humana e, nela, a tecnologia atual oferece muitos meios para construir o futuro. E essa é nossa forma atual de pensar que ganhou força na filosofia contemporânea.
Os dois episódios mencionados podem ser avaliados como tragédia no sentido grego, mas parece melhor tratá-los apontando a falta de compromisso com as consequências das ações, ou com aquilo que se nomeia como irresponsabilidade. Em ambos os casos, o desfecho decorreu de não se seguir regras. A demolição pelo descumprimento simples das leis do país, além do mal ético decorrente do desrespeito ao valor histórico presente nas edificações e o ataque do animal pelo descumprimento pelo menino e por seu pai das regras do Zoológico. Consideramos que o animal não segue as regras da sociedade humana senão aquelas decorrentes da sua natureza selvagem. As regras controlam parte do comportamento humano e muitas delas estão associadas ao que chamamos de moral. A sociedade cria essas regras para assegurar o seu bom funcionamento e a moral, o direito, a educação, as instruções também têm esse papel. As regras permitem que os indivíduos convivam numa ordem social determinada, assegurando  a preservação de valores reconhecidos pela cultura como desejáveis.
Estamos vivendo um momento histórico em que há dificuldade de cumprir regras. No Brasil esse comportamento rebelde foi agravado pelo período antidemocrático, onde liberdade ficou associada a não ter que seguir regras, em fazer o que se dá na cabeça descumprindo regras morais, legais, ou quaisquer outras instruções sociais. E esse fato resulta em consequências que gostaríamos fossem evitadas.
No caso da demolição das casas cabe resposta da justiça e no caso da criança o castigo foi dado com o resultado do ataque do animal, o que não isenta o pai e o próprio zoológico de também serem punidos por negligência. A própria criança, contudo, agiria diferente se estivesse num ambiente em que seguir regras fosse realmente importante.
A vida social só consegue seguir em frente sem episódios como esses se houver a decisão de obedecer as regras da sociedade, mudando-as quando possível, fazendo outras melhores sempre que necessário. A esperança que acompanha nossa existência estimula a repensar o significado da liberdade e a buscar resultados melhores tentando fazer o que, às vezes, parece impossível na conjuntura que vivemos.
                                             
                                   José Mauricio de Carvalho
Chefe do Departamento de Filosofia da UFSJ/MG