terça-feira, 8 de julho de 2014

A velhice, entre a realidade e os mitos - por José Maurício de Carvalho






A velhice, entre a realidade e os mitos




Envelhecer é característico dos seres vivos, todos envelhecem e caminham para a morte. A morte, quando não precoce, é o horizonte da vida. É o ocaso de um mundo de sonhos, esperanças e realizações. Viver é o que se faz durante o tempo em que permanecemos vivos. Cada homem que morre é uma forma de ver o mundo que se vai, é um mundo que se perde. E se a vida resulta deste que fazer, destas escolhas que desenham no tempo a existência como arte, ela é também aquilo que nos acontece nos dias de nossa vida. Em nenhuma outra época o homem viveu o tempo de vida média que estamos alcançando neste início de século XXI, isto significa que temos, como humanidade, um tempo maior para realizar esta obra de sentido ou significado que é viver.
A prolongação da vida não diminuiu a angústia da morte, pois é inevitável o medo do que não conhecemos e também do sofrimento, das dores e limitações que normalmente a precedem. Por outro lado, a extensão da vida colocou para as sociedades nacionais o desafio de alongar o tempo produtivo das pessoas, fazê-las trabalhar mais. Isto é inevitável porque com o aumento da vida e do número de velhos, as nações consomem parte crescente de sua renda para pagar aposentadorias. Para as sociedades contemporâneas o desafio é conviver com crescente número de idosos, limitados em sua capacidade de trabalho, de locomoção e de atuação social. Por outro lado, o aumento do tempo de vida e de suas oportunidades revela o absurdo de se jogar fora a oportunidade de existir nas drogas, na destruição, nos atos contra a humanidade.
A necessidade de estimular as pessoas trabalhar um pouco mais antes de se aposentar não é necessariamente ruim. Estar em atividade é  boa maneira de renovar desafios e garantir renda melhor. Neste contexto, a tentativa de fazer as pessoas trabalharem e até além do razoável, promoveu mitos que não ajudam o velho ou velha de nosso tempo. Esse velho é, na prática, explorado e deixado de lado pela consciência de sua incapacidade produtiva. No entanto, ele escuta todos os dias as maravilhas da terceira idade ou de haver alcançado a melhor idade.
O primeiro e o mais triste mito é o da chamada melhor idade. Não creio que se possa eleger uma idade da vida para ser melhor, mas admito que para uns melhor é estar jovem, para outros, viver a maturidade e para alguns, a própria velhice. Isto depende das singularidades pessoais e das trajetórias existenciais, mas por certo este é um mito ruim por construir expectativas de coisas que geralmente não se realizarão, porque criarão fantasias sobre limitações físicas que estão integradas nas limitações humanas.
O outro mito, criado nos laboratórios da economia atual, é pretender estender crescentemente as exigências da aposentadoria, pois o homem não mudou biologicamente. E se a medicina vem conseguindo aumentar um pouco a média de vida, os limites reais não são diferentes dos homens das últimas gerações. Muitos chegavam aos 70, 80 ou até 90 anos, este número está crescendo porque os remédios conseguem combater doenças que levavam muitas pessoas precocemente à morte. Por outro lado, se for necessário que as pessoas trabalhem mais será preciso que lhes seja dado uma condição diferente: jornadas flexíveis, menores e compatíveis com as respectivas idades.
O prolongamento médio de vida não é garantia de que cada pessoa viverá realmente mais, mas alimenta a expectativa. E esta expectativa mostra a possibilidade de fazer algo novo e melhor: de criar mais técnica ou ciência, arte ou religião, filosofia ou literatura, mas principalmente relacionamentos de amor, onde o sentido de humanidade saia engrandecido da existência estendida que se ganhou.
A vida ganha a dimensão de eternidade se o sentido construído no que fazer diário contribuir para a cultura humana e nos fizer presentes no que fica para os próximos homens.
José Mauricio de Carvalho - 
Departamento de Filosofia da UFSJ.