segunda-feira, 7 de julho de 2014

A corrupção padrão FIFA - Por José Mauricio de Carvalho







A corrupção padrão FIFA


A avaliação simplificadora resultado de pobres análises da realidade nacional fizeram surgir na mídia e nas redes sociais a ideia frágil de que os recursos gastos com os estádios da copa resolveriam, ou melhorariam substancialmente, a realidade da educação e da saúde pública brasileiras, caso nelas fossem aplicados os recursos gastos na construção dos estádios. Essa análise simplória levou a conclusão igualmente débil: a de que poderíamos construir inúmeros hospitais e escolas de grande qualidade com o dinheiro de meia dúzia de campos de futebol que foram reformados para a Copa do Mundo no Brasil. Generalizou-se a triste ideia de que devíamos ter construído escolas e hospitais padrão FIFA com esse dinheiro, mudando assim o padrão da educação e saúdes nacionais. Essas análises simplificadoras tem encanto e mistificam porque buscar a excelência é um ideal que a humanidade persegue (e deve mesmo perseguir). Portanto, fazer tudo excelente é o que se deve buscar, inclusive para os estádios de futebol. Além disso, é boa ideia gastar parte importante dos recursos nacionais com a saúde e educação do povo evitando desperdício, pois isso garantirá, se feito com persistência, uma vida melhor para as futuras gerações de brasileiros. No entanto, os outros aspectos da vida não podem ser esquecidos e a mudança de padrão social da sociedade depende de trabalho contínuo, do planejamento sistemático, e do esforço atual geração para a melhoria do futuro. Essa mudança para melhor não virá com poucos anos de trabalho e pouco empenho.
Apesar do início do texto sugerir o contrário, não vou tratar aqui do mal uso dos recursos públicos. Pretendo considerar o triste fato da semana que foi a descoberta de uma quadrilha internacional, com participação de brasileiros, envolvida com a venda ilegal de ingressos de cortesia da FIFA. Tomo então emprestada a expressão padrão FIFA, usada nas análises simplificadoras acima mencionadas, para referir a uma forma de corrupção que alcança pessoas de diferentes nacionalidades, formação, estrato social e uma entidade séria situada numa das sociedades mais organizadas do mundo, a Suíça.
O esquema de fraude organizado para ganhos ilegítimos que foi descoberto pela Polícia Federal brasileira mostra que mesmo em meio a organizações sérias e de boa tradição pode surgir a corrupção. De modo geral, o mal feito, ou o mal moral, pode surgir em qualquer sociedade, não importa quão bem organizada seja e quão possuidora seja dos melhores princípios e intenções. É que o sujeito humano precisa ser fiel aos ideais éticos para que as coisas corram bem e as sociedades, futebolísticas ou não, cumpram seu papel e objetivos. Pouca eficácia possuem bons princípios se forem associados a má conduta. Contudo, mesmo sendo possível escolher o mal devido à liberdade pessoal é preciso defender os princípios, pois é da sua difusão que se fortalece uma regra aceitável para todos. E essas regras permanecem válidas, mesmo se alguns não as praticam.
A formação pessoal para a excelência é uma das maiores debilidades de nosso tempo de massas, dizia Ortega y Gasset. Poucas instituições procuram e defendem, com entusiasmo, a excelência, pois isso implica numa espécie de compromisso moral com o esforço e com a vocação pessoal. Excelência moral está associada a esforço e responsabilidade. A fragilidade da liberdade não pode impedir de combater o mal. Pois, se não é possível uma sociedade perfeita nessa terra, quando não se opõem ao mal praticado, os membros de uma sociedade produzem um mal maior, um mal metafísico, isto é, favorecem o gosto de fazer o mal ou, ao menos, a crença de que ele pode ser praticado sem enormes prejuízos para toda a sociedade. Muitas vezes, a simples omissão contribui para que o mal se espalhe.
Precisamos, por isso, combater o mal em todas as suas formas. Ao debater os princípios morais e assumi-los fortalecemos o propósito de evitá-los. Ao punir os que se deixam levar pela tentação do mal feito evitamos a propagação desse mal. Ao enfrentar os males dos quais somos causa involuntária, como o melhorar uma sociedade injusta, ajudamos a construir um futuro menos injusto. Ao combater o males objetivos presentes na vida social damos passos decisivos, reais e concretos para melhorar o mundo.
A história de corrupção envolvendo dirigentes da FIFA e outros aproveitadores de plantão mostra que o mal moral surge onde está o homem e deve ser combatido nas consciências e instituições. O fato mostra que fica o homem desafiado a renovar o compromisso na excelência dos princípios pensados e nas ações praticadas todos os dias de sua existência. Não há vitórias definitivas nessa batalha da consciência e da organização social.
José Mauricio de Carvalho

Departamento de Filosofia da UFSJ