quarta-feira, 26 de março de 2014

HISTORICIDADE - Filosofia Clínica / os caminhos existenciais por Lúcio Packter

 "O quanto as palavras são exatas para o que a pessoa comunicará? Se você perguntar a alguém muito próximo, a pessoa poderá dizer que as suas palavras geralmente exageram, diminuem, omitem, tendem para um lado ou para o outro das questões, são marcadas por uma ideologia etc. É natural que isso ocorra.

É usual também que palavras ganhem vida própria. A pessoa começa descrevendo algo e subitamente as palavras criam passagens, ventam para planícies e trigais, sopram por vales, e quando retornam já são outras. 
Palavras podem encontrar experiências que não podem ser traduzidas. Exemplo: experiências que podem ser sensações, mas que não podem ser palavras. Assim também existem vocábulos que não conhecem transposições para os sonhos, os amores, as brisas. Exemplo: Aliezxtofentyw."

Lúcio Packter



"Um encontro semanal com cinquenta minutos de duração para que a pessoa expresse elementos dos 40 anos de idade que possui? Como a pessoa consegue testemunhar quatro décadas de vida em poucos minutos semanais? Isso se torna plausível mediante a edição.

Editar significa que a pessoa escolherá entre tudo o que viveu o que para ela tem relação com as questões em andamento na clínica. Algumas pessoas escolhem falar sobre o que dói, sobre o que foi marcante ou importante, sobre o que imaginam ser uma informação pertinente aos trabalhos.

De acordo com a edição que a pessoa realiza sobre sua historicidade de vida, às vezes o relato se distancia muito do que de fato existiu, do que de fato existe no cotidiano desta pessoa. Um exemplo: o que aconteceria se uma edição exigisse que Dom Casmurro fosse apresentado em apenas 10 páginas? A pessoa pode não conhecer a dimensão de distâncias entre o que narra e o que houve, ainda que as proximidades decimais dificilmente ocorram entre narração e fato. 

Um alento importante é que muitas coisas em consultório não dependem da extensão do texto ou de sua edição. Mas quando a edição é fundamental, compete muitas vezes ao filósofo ajustar os elementos historiográficos da edição à vida da pessoa. 

O modo como a edição que a pessoa realiza é apresentada pode ser parte das questões essenciais; algumas ausências, confusões, desencontros do texto podem ser importantes para que a pessoa lide com temas dolorosos ou difíceis.

Observe se você se identifica com a sua história de vida. Ela explica quem é você, ela fornece um testemunho adequado sobre a sua existência? Ou sua história de vida pouco tem a ver com a sua alma, o seu coração? Há caminhos de conciliação, de acertos, de buscas, geralmente.

A vida que vivemos, preste bem a atenção, pode ser uma edição? Vivemos o que escolhemos como importante, possível, adequado etc? E esta edição tem a ver conosco de fato? 

Quais os indícios que mostram que a edição que uma pessoa apresenta dos fatos, do que viveu, de sua vida, tudo isso em consultório, pouco tem a ver com ela ou que apresenta apenas uma caricatura da pessoa? 

Alguns indícios: desajustes e inadequações, sentimento de estar fazendo ou sendo algo esquisito do que de fato deveria ou poderia ser, desencontros, texto pontuado de contradições no enredo, alienações de si mesmo, etc. A pessoa pode não se identificar com o que diz dela mesma, sua própria palavra se deprecia."

  Lúcio Packter

Programação:
HISTORICIDADE: Filosofia Clínica  * os caminhos existenciais 


19 de abril, sábado 
08h00 – credenciamento
09h00 – Apresentação
Márcio José Andrade, prof. titular em Campinas  

9h30 - Elementos de identificação que surgem em Historicidade
parte I
Lucio Packter 
10h30 –  intervalo (café)  
11h00 - Elementos de identificação que surgem em Historicidade - parte II
Lucio Packter 
12h30 – almoço
14h00 - Elementos que surgem por indicações indiretas
parte I
Lucio Packter

15h30 –  intervalo (café)

16h00 - Elementos que surgem por indicações indiretas
parte II
Lucio Packter

20 de abril, domingo
9h00 - Inferências a partir dos elementos fenomenológicos
parte I
Lucio Packter
10h30 –  intervalo (café)
11h00 - Inferências a partir dos elementos fenomenológicos
parte II/Lucio Packter 
12h00 - almoço
13h30 – Questões relativas ao temas/Lucio Packter
 14h30 – Apresentação
Isabel Cristina - professora titular em Poços de Caldas
15h30 –  intervalo (café)
16h00 – Apresentação
prof.ª Elizabeth Alves - coord. Equipe Filosofia Clínica
 Belo Horizonte
17h00 - Encerramento