quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Todo mundo mente. Mente? Por Marta Claus




TODO MUNDO MENTE. MENTE?


Todo mundo mente. Isso é o que nos diz House, o polêmico médico da serie de TV. Foram ao todo oito temporadas de muito sucesso, discussões que deram origens a quatro livros: A Ciência médica de House, A Ética em House, Dr. House – um guia para a vida e House e a Filosofia. Encontramos também teses, artigos, monografias e vários trabalhos acadêmicos, artigos jornalísticos, blogs sobre o assunto. Mas o que mais me impressiona no Dr. Gregory House é a sua obstinação em provar a veracidade quase absoluta de seu pré-juízo padrão em todos os episódios -  todo mundo mente.
Sabemos que em filosofia clínica consideramos duas verdades como válidas, as objetivas e a subjetivas. As objetivas, pré-juísticas ou não, são aquelas que compartilhamos com um grupo, instituição, sociedades. As subjetivas são aquelas que são verdades para mim, são as que acredito independente das verdades objetivas. São essas as que House se refere quando afirma que todo mundo mente. Como a medicina lida com objetividades através de sintomas, exames, procedimentos técnicos, as verdades devem ser também objetivas. Mas e em terapia, especificamente em filosofia clínica, qual verdade do partilhante devemos levar em conta? É...todo mundo mente! Mente?
No caso da clínica filosófica, as verdades subjetivas não são necessariamente “mentiras” mas sim, uma construção de mundo singular e diferenciada. Se essa visão de mundo corresponde ou não com a realidade somente através da historicidade da pessoa poderemos saber, e isso por aproximação. Essa noção, ou falta dela, de realidade subjetiva pode, muitas vezes, sustentar a pessoa em sua vida e setores dela. Devemos então, na aplicação dos submodos chamar o partilhante para a realidade objetiva? Não existe uma resposta pronta. Se a verdade subjetiva do partilhante não estiver incomodando ou dificultando setores de sua vida poderemos deixar como está. Caso contrário, podemos movimentar essa verdade para a objetiva ou outra subjetiva que tenha acomodação em sua malha intelectiva.
Já nos casos clínicos do Dr. Gregory House, e segundo ele, a verdade subjetiva pode não ser a melhor opção visto que, para ele e só para ele, as mesmas são mentiras que prejudicam ou inviabilizam o tratamento. E ele vai mais longe: "É uma verdade básica da condição humana que todo mundo mente. A única variável é sobre o quê.” Em ter como determinante em sua EP esse pré-juízo House chega a cometer afrontamentos ao paciente, erros em exames clínicos e faltas éticas graves. Devemos lembrar que é só uma série de televisão onde tudo é programado para que House seja adorado, mesmo sendo arrogante, viciado em drogas, antiético com sua equipe e deselegante com os pacientes e amigos.
As verdades são politicamente corretas em muitas situações, mas em tantas outras a “mentira” é necessária e confortante. Por exemplo, você contaria a verdade a seu filho de nove anos se ele te perguntasse quando foi sua primeira experiência com maconha? Você contaria a sua filha que ficou grávida aos treze e fez um aborto? Contaria a sua esposa que teve um caso com a vizinha a dez anos atrás se ela perguntasse? Aqui o imperativo categórico kantiano não nos serve.
Devemos sempre contextualizar as questões e analisar com calma as historicidades envolvidas para que possamos, em clínica, perceber qual a melhor “verdade” que cabe em cada circunstância e situação. E segundo o próprio House: "Há uma razão para a mentira: funciona."

Marta Claus
Filósofa Clínica