segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A Singularidade como Pilar na Construção Teórica e na Práxis da Filosofia Clínica - Deusemi Gome Ferreira Jr.

Institiuto Packter
Instituto Mineiro de Filosofia Clínica
Instituto Tecnológico e Educacional – ITECNE
Especialização em Filosofia Clínica – Pós Graduação Latu Sensu







A Singularidade como Pilar na
 Construção Teórica e na
  Práxis da Filosofia Clínica






Trabalho de Conclusão de Curso de
Especialização em Filosofia Clínica – Pós Graduação Latu Sensu
Orientadora: Profa. Dra. Marta Claus







Contagem, Outono de 2013
Deusemi Gomes Ferreira Júnior
A Singularidade como Pilar na
 Construção Teórica e na
  Práxis da Filosofia Clínica







Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como parte das atividades para obtenção do título de Especialista, do curso de Pós Graduação em Filosofia Clínica, do Instituto de Educação Tecnológica – ITECNE, em parceria com o Instituto Mineiro de Filosofia Clínica – IMFIC.













Orientadora: Profa. Dra. Marta Claus
Contagem, Outono de 2013
Dedico este trabalho ao meu Filho, Tiago,
Ele que é o alvo da minha maior possibilidade de amar. Tudo o que faço hoje é, inevitavelmente, pensando nele. À minha esposa, Nícia, pela cumplicidade e compreensão pela ausência que os estudos impõem.



























Agradecimentos

Em primeiro lugar a Deus, pelo dom da vida e pela possibilidade de pensar. Aos meus pais e meu irmão pelo amor incondicional. Ao Filósofo Lúcio Packter pela ousadia de colocar suas idéias, em partilha, para o mundo. À Dra. Marta Claus pela paciência e pela alegria que demonstra em ser filósofa clínica. Aos que comigo atravessaram essa estrada, caminhamos juntos com muita cumplicidade.
















Introdução
Este trabalho tem por objetivo mostrar o grande salto teórico e prático que a Filosofia Clínica de Lúcio Packter deu no que se refere ao conhecimento do ser humano. Mostrar o grande diferencial da Filosofia Clínica ao tirar o foco dos sintomas e partir sua ação da pessoa, de sua história, única. Cada ser é único, irrepetível, assim como seus pensamentos, palavras, atos e omissões. [1]“Os olhos de quem vê são os olhos de quem sente”, não é possível, portanto, segundo a Filosofia Clínica, analisar alguém por suas atitudes, o que está de fora não tem poder sobre o que está por dentro, o olhar corruptível não alcança a alma incorruptível. A cada dia percebemos a descaracterização do ser humano enquanto Pessoa. Tem-se ainda o objetivo de mostrar que a Filosofia Clínica de Packter não concebe a visão pragmática que o mundo moderno lança sobre o homem. Não é possível, por comodidade, descuido, agilidade, transformar o ser humano em ser de série. Para a Filosofia clínica uma pessoa não cabe e nunca caberá na fôrma de outra. Karol Wojtyla, na sua filosofia personalista afirma que o ser humano tem sua grande preciosidade no ser pessoa, o que vem ao encontro da Filosofia Clínica, que fundamenta sua ação na história de cada um. Algumas definições do homem na contemporaneidade e também ensaios de filósofos da antiguidade nos acompanharão neste trabalho.

A filosofia
            A etimologia da palavra filosofia é: Philos (amizade, amor); Sophia (sabedoria); amor à sabedoria. Essa palavra foi talhada nesse sentido por Tales de Mileto (595 a.C) e teve especial sentido com Pitágoras (463 a.C), mas já bem antes o homem buscava avançar no conhecimento de si mesmo e do mundo, buscava conhecer a origem de todas as coisas. A necessidade de explicar as coisas pela razão e não mais pela mitologia ou religião, acaba por dar origem à Filosofia enquanto ciência no século VI a.C, na Grécia Antiga. Não há por parte da filosofia o desejo de mostrar uma verdade absoluta, apesar de se dedicar ao estudo dos problemas da existência humana. A Filosofia é o estudo das inquietações e problemas da existência humana, dos valores morais, estéticos, do conhecimento em suas diversas manifestações e conceitos, visando à verdade; porém, sem se considerar como verdade absoluta, nem tentando achar essa máxima como verdade absoluta.
O homem na contemporaneidade
O homem, de modo especial em nosso tempo, ocupa o centro de muitas declarações, programas e manifestações. Numerosas ciências e filosofias também se preocupam com o ser humano. Nosso conhecimento do homem certamente progrediu em muitos aspectos: o conhecimento do corpo humano, o metabolismo, o sistema nervoso, processos psíquicos e até o inconsciente. Mas nem a ciência e nem a filosofia tem a audácia de tomar o espírito humano como objeto de sua investigação e de falar, portanto, da alma, como faziam os pensadores de outrora. A filosofia da consciência, sobretudo na sua versão fenomenológica, enriqueceu nosso conhecimento dos fenômenos empíricos da espiritualidade humana, mas não ousaram dar aquele passo metafísico que deveria partir dos sintomas e ir ao fundamento. O pensamento contemporâneo se mostra, com efeito, mais propenso a ampliar o campo da intuição direta, que tirar conclusões metafísicas, o que não ajuda a ver a riqueza do espírito humano. A experiência entendida como conjunto do concretamente vivido pelo homem nos transporta imediatamente à subjetividade do homem. E o concretamente vivido só pode ser avaliado levando-se em conta que cada pessoa viverá de modo singular.
Singularidade
            O fato de eu ser assim e fulano assado e cicrano totalmente diferente dos outros dois e assim por diante, é que a Filosofia Clínica parte sua ação da historicidade. Para a FC não está em jogo a experiência já vivida por outro para ajudar a você a responder suas questões. Cada pessoa é única, irrepetível e não cabe na forma de outra, ou melhor, ninguém cabe em sua própria forma de ontem. Heráclito de Éfeso vai afirmar que o ser humano não pode entrar no rio duas vezes, afinal a água já mudou e a pessoa também. Todos nós estamos num constante vir a ser. Estamos sempre em transformação e esse conjunto de mudanças compõe nossa singularidade, somos únicos. Os valores que recebi de meus pais, a forma como fui educado, a escola onde estudei, os professores que tive, as experiências de infância, adolescência, juventude, os lugares onde trabalhei, as emoções positivas e negativas vividas, tudo isso influencia na minha personalidade, minha singularidade e determinam minha estrutura de pensamento. Por que acredito nisso e não naquilo, por que como verdura, por que gosto ou não de carne? Tudo o que está dentro de mim determina meu jeito de ver o mundo. São Paulo vai dizer: “o que é bom e o que é ruim brotam do coração do ser humano”.
A Filosofia Clínica fundamenta-se na singularidade. Acredito que Packter, ao pensar a estrutura da FC tenha se detido exaustivamente na questão da singularidade. É exatamente aí, que a FC se difere das outras psicoterapias.
 [2]”O que difere a Filosofia Clínica é a abordagem com ênfase na escuta, a maneira como se faz o histórico de vida da pessoa. Por exemplo: usamos um mínimo de agendamentos; a pessoa conta a própria história por ela mesma (não direcionamos o que ela deve falar), aqui usamos um método chamado de Fenomenologia , que é um método própro da Filosofia. Depois, vamos mais além, trabalhamos as lacunas que ficam, pois é normal, quando as pessoas falam de si e principalmente do passado, criarem lapsos de tempo, deixando a história um pouco desorganizada. Assim, vamos remontando dando ordem cronológica ao passado dessa pessoa (Marta Claus)”
A essência da FC se embasa na unicidade do ser, que também se encontra em constante movimento. A pessoa é o brilho da FC, a razão de ser de nossos estudos é o ser humano, com todas as suas características, medos, sonhos, ilusões, decepções, alegrias, tristezas, e muitas outras questões ligadas às dimensões física, emocional e espiritual.
Quando o Filósofo Clínico recebe seu partilhante, trazendo o assunto imediato, ele deve atentar-se à essência e não à forma. Não é só o que é apresentado. É claro que parte-se do assunto imediato, mas ao resgatar a historicidade, ao buscar a estrutura de pensamento do partilhante, o filósofo se encontrará com uma pessoa única.
[3]“Esse procedimento se chama a Enraizamento . Então, após colhermos todos esses dados históricos, passamos para outros procedimentos que são os Exames Categoriais e a montagem do estruturamento de pensamento da pessoa para sabermos como ela funciona internamente, como ela está existencialmente no ambiente. Para isso, usamos os chamados submodos, que são os Procedimentos Clínicos. Este é o momento que o filósofo vai refletir junto com a pessoa sobre as questões que apareceram nessa historicidade e que foram diagnosticadas por meio da montagem da Estrutura de Pensamento.”
A Filosofia Personalista de Karol Wojtyla
            Muitos filósofos já se detiveram a olhar o ser humano enquanto pessoa. Um dos maiores, segundo opinião deste aluno, foi Karol Wojtyla (João Paulo II). Karl Josef Wojtyla nasceu em 18 de maio de 1920, apenas um ano e mrio depois da independência polonesa, em Wadowice, pequena cidade a 50km de Cracóvia. Wojtyla cresce nessa Polônia renascida, em uma época cheia de sonhos de futuro, com muita coisa por fazer a frente. O jovem Karol se encontra em meio a um mundo de jovens aguerridos, dispostos a se doar pela reconstrução de sua pátria. São anos de inquietude e projetos culturais, sociais e políticos. Era o segundo dos filhos de Karol e Emilia. Sua mãe faleceu em 1929, seu irmão mais velho, médico, morreu em 1932 e seu pai, oficial do exército, morreu em 1941. No entanto, esse mundo de dignidade recuperada pela independência sofreria duas grandes provas: primeiramente a ocupação alemã e depois a segunda guerra mundial. Para o jovem Karol são anos cruciais, nos quais vê crescer uma certeza: é necessário construir uma sociedade justa, livre e próspera, onde todos e cada um possam gozar dos benefícios do progresso. A experiência de ver de perto os campos de extermínio nazistas, muitos deles estabelecidos na Polônia, ao invés de abater, leva Karol Wojtyla a se dedicar cada vez mais ao serviço do outro, enxergando Cada ser humano com olhos de misericórdia e reafirmando em cada gesto, em cada ação, o valor incalculável da pessoa humana.
Em 27 de Outubro de 1986, já eleito Papa, Karol Wojtyla coroa toda a sua luta pela pessoa ao reunir em Assis, Itália, líderes religiosos do mundo inteiro, para que juntos promovam o “Encontro pela Paz”. Certamente esse encontro só foi possível por acreditar que a pessoa é maior que suas convicções religiosas, ou de qualquer outra ordem.
O valor da pessoa
A pessoa, dada a sua natureza, não se presta à instrumentalização. O ser humano enquanto pessoa não pode ser reduzida a meio de toda e ou qualquer ação, exatamente por sua intrínseca dignidade e por ser fim em si mesma. O ser humano não pode ser reduzido a um “indivíduo de sua espécie”, ele possui uma perfeição ontológica que é expressa pela denominação pessoa, intrinsecamente ligada a sua singularidade. O ser humano singular é senhor de si mesmo, inalienável e capaz de autodeterminação. O ato de vontade de cada pessoa é insubstituível por qualquer outro ato que não seja o dela, é ao mesmo tempo sujeito e objeto de sua ação. O valor da pessoa humana não pode ser calculado, não se mede, não se quantifica, exatamente por não haver parâmetros suficientes de comparação, mesmo entre duas pessoas, dois seres humanos, da mesma espécie, por sua singularidade.
A alteridade e a singularidade
A pessoa humana, como não poderia ser diferente, é alvo de reflexão de inúmeros filósofos. Cada um enfoca um aspecto, percebe de uma maneira, desenvolve teorias e tratados sobre o ser humano enquanto pessoa. Grandes filósofos colocam a alteridade como essencial na relação humana.
“A noção de pessoa, em Max Scheler, por exemplo, tem um profundo caráter de interação entre o eu e o outro. Chega mesmo a dizer que não há o eu sem o outro, no mesmo sentido em que nega o puro cogito cartesiano em nome do caráter de realidade presente na autopercepção do sujeito. Nisso, a teoria da intencionalidade assume um papel determinante” (Matheus, 2002)
            Karol Wojtyla afirma na sua filosofia personalista que o ser pessoal na convivência com os outros seres humanos se submete à ética, é o que ele chama de participação.
            A Filosofia Clínica não nega a importância da participação do outro na existência humana, até porque o ser humano é um ser de relações, mas ao mesmo tempo não afirma que essa participação seja conditio sine qua non, vai depender de cada um, o que me faz ainda mais acreditar na singularidade como quesito norteador da FC.
A Praxis da Filosofia Clínica
A filosofia Clínica (FC) nasce como um resgate da tradição filosófica, que sempre buscou compreender o ser humano, sua origem e destino, sempre promovendo um diálogo fecundo e rico, visto que cada ser humano traz essa riqueza em si. É exatamente em função dessa riqueza que a FC tira o foco dos possíveis “problemas” e volta seu olhar para o partilhante. Não há formulas prontas e acabadas. Ao receber o partilhante no consultório, o filósofo clínico buscará contextualiza-lo no seu momento histórico, bem como seu assunto imediato, que é o motivo pelo qual a pessoa busca a clínica. A partir daí o filósofo colherá dados acerca da historicidade do partilhante e passará posteriormente à aplicação dos Exames Categoriais e monta a Estrutura de Pensamento do Partilhante. Aqui o filósofo descobre como o partilhante pensa e por conseguinte descobre se o Assunto Último, que é o conflito vivido pelo partilhante, corresponde ao Assunto Imediato, apresentado no início. Não raras vezes o Assunto Imediato não é na essência o que incomoda a pessoa.

Conclusão
            Descortinar mais um pedacinho da filosofia e deixar entrar pela fresta da janela a luz da filosofia clínica, entendendo o ser humano, ou melhor, não querendo entender o ser humano, mas aceitando cada pessoa como única, é um prazer quase indescritível. Trazer o foco para o homem na contemporaneidade, olhar os fenômenos que o cercam com mais cuidado e com mais atenção, estabelecer uma partilha desvestida, quase sempre, de preconceitos, pré-juízos e convicções pessoais é um desafio e ao mesmo tempo uma dádiva. Perceber que a singularidade está na essência da Filosofia Clínica de Packter foi pra mim um divisor de águas nesse curso e certamente na minha vida. Não há meios de determinar algo para alguém, a partir da experiência de outro. São Paulo diz na carta aos Coríntios que tudo deve ser feito pelo Amor e nada sem ele. Esse Amor só se mostra entre pessoas, que podem se ver, se tocar, antes de se mostrar ao próprio Deus, e só é possível quando vejo o outro como pessoa. A pessoa é dotada de todos os meios de construir e reconstruir sua história. No livro da vida sempre haverá uma página em branco. Que a Filosofia Clínica consiga ser o lápis, na mão de cada partilhante. E que cada filósofo clínico seja apenas aquele que vai contemplar a nova história a ser escrita.


Bibliografia

AIUB, Monica. Como ler a filosofia clínica? Prática da autonomia de pensamento. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 2010.
A Origem da Filosofia: http://origem-da-filosofia.info/ acesso em 19/02/2013
MATHEUS, Carlos. Max Scheler e a gênese axiológica do conhecimento Revista Margem, SÃO PAULO, No 16, P. 13-27, DEZ. 2002
JOÃO PAULO II. Cruzando o limiar da esperança (Crossing the Thershold of Hope). Tradução de Antônio Angonese e Ephraim  Ferreira Alves, 1ª Edição, Rio de Janeiro Ed. Francisco Alves, 1994.




[1] Profa Dra. Marta Claus em aula sobre a partilha no nível da historicidade.