quarta-feira, 11 de setembro de 2013

SIGNIFICANDO O SIGNIFICADO - Aline Silva - IMFIC/ITECNE de BH

SIGNIFICANDO O SIGNIFICADO  
Aline Silva - IMFIC/ITECNE de BH

Há quase três anos atrás, quando estava terminando a graduação em Filosofia, conversava com a professora de antropologia da Unesp/Bauru, Salete, sobre o livro “Simulacros e simulações”, de Jean Baudrillard, que acabara de ler. Expunha a ela como o francês escreve sobre a falta de significado geral da vida na sociedade contemporânea, a vida vazia, simulada, artificial de nossa época, o império do simulacro – o símbolo que remete a uma ausência.
Salete (carinhosamente conhecida como Saletinha) esperou eu terminar de falar, seu rosto transmitindo bastante interesse no que eu estava lhe falando, olhou para mim e perguntou: “Mas o que é esse significado que ele diz que nos falta? O que significa esse significado?”.
Fiquei parada, olhando-a. A boca não se movia, mas o cérebro trabalhava intensamente em busca de uma resposta que não veio. Estava nas últimas semanas do último semestre de Filosofia e, durante todo esse tempo e do tempo antes desse, procurei por algo que, quando questionada, não sabia definir o que é. E, desde então, esse questionamento não saiu da minha cabeça: “Procuramos pelo significado da vida, do trabalho, da existência, mas o que é esse isso? O que significa ter significado?”.
Claro que busquei a resposta no dicionário, que diz que significado é atribuir um signo a algo, dar um sentido, denotar. Mas, sem dúvida, não era esta a resposta que ela queria que eu buscasse, até porque já a sabia. A intenção era me fazer ir além, e a pergunta me foi tão inesperada que fiquei sem saber o que dizer. E senti que nenhuma resposta que desse seria suficiente, pois foi uma provocação para uma reflexão mais detida e ampla. Percebi isso quando, frente à minha mudez, ela disse “pense nisso, pois é preciso”. E foi o que fiz.
Em termos mais existenciais (que são os tratados no livro de Baudrillard), seria atribuir um juízo valorativo a algo. Sua crítica é que perdemos esta capacidade: valorizamos nada, por isso vivemos no simulacro. Seguindo seu raciocínio, a busca pelo significado do trabalho, da vida, da existência, seria na verdade a busca pelo trabalho, a vida e a existência em si mesmos, e não seu sentido. O significado está aí, o atribuímos o tempo todo -  mas à quê? Essa seria, então, a questão central.
Notoriamente, a crítica se dirige à sociedade pós-moderna. Concluímos indiretamente que, ou antes era melhor do que hoje, ou sempre foi ruim, sempre fomos uma sociedade vazia de significados. E caímos então nos postulados de Nietzsche e Marx que buscam o nascimento do verdadeiro homem, ou do além do homem. Podemos também ir até Rousseau nos falando que o bom selvagem foi corrompido pela sociedade. Talvez Hobbes, concluindo que somos ruins mesmo, e alguém nos deve segurar em rédeas curtas.
Parece-me que nessas antropologias filosóficas há uma preocupação em colocar certa característica como a mais relevante no humano, ao invés de se considerar seu todo. Como se fôssemos essencialmente bons ou maus. Aliás, vejo este constante juízo valorativo como um dos grandes problemas nas análises do humano: não se busca analisá-lo da forma mais crua possível, mas considerar quão bom ou ruim é esse objeto de análise.
Nesse sentido, me agrada a ética spinoziana, onde não há bem e mau, mas sim o que potencializa ou despotencializa o indivíduo. Se a afetação me potencializa enquanto ser, é positiva. Caso contrário, é negativa. O significado passa, então, a ser não apenas prático, mas individual – o que me potencializa, pode despotencializar outra pessoa. Consequentemente o sentido passa pelo mesmo processo, e o mais desafiador de tudo: perde o juízo valorativo.
A perda da valoração do sentido e do significado existencial pode acarretar diversas consequêcias, como o fim da culpa e uma busca constante para potencializar o próprio ambiente em que vive e as pessoas ao redor – afinal de contas, pra Spinoza, quanto mais isso acontecer mais o próprio indivíduo pontencializa-se a si mesmo.
Temos em Spinoza um caminho pouco explorado no tratamento do indivíduo, e um vasto campo de estudos para dar e fazer funcionar o significado de significado.