terça-feira, 20 de agosto de 2013

HANNAH ARENDTH na Comissão da Verdade - por Kélsen André






por Kélsen André

Filósofo Clínico em Formação/Belo Horizonte





Semana retrasada fui com Primavera ver “Hannah Arendth”. Apaixonei-me ainda mais por ela, fiquei ainda mais maravilhado por ela e fiquei pensando uma série de coisas nas quais enumero as principais:

1-      Todo brasileiro, de esquerda ou de direita, que seja favorável ou contrário a ditadura militar tem o dever moral de ir assistir o filme. Digo mais, deveria ser prática obrigatória para quem fosse depor- assista ao filme antes.
  2-            Não se deveria pensar mais a construção do conhecimento sem termos nitidamente a importância de cada interlocutor oculto que auxilia a compor o contexto de uma época, de uma mentalidade, de um imaginário.
 3-            A discussão entorno do OUTRO e da alteridade tende a se constituir, se é que já não se constitui a parte mais importante da filosofia atual e da sociedade de modo geral.
I

Para muitos o filme é cansativo, exaustivo e até a diretora brinca com isso ao falar da inviabilidade de se fazer um filme sobre um filósofo. No filme não há carros em fuga, tiros a esmos e mudanças de cenas rápidas e velozes. O ritmo é outro, respeita-se o tempo interno, subjetivo das reflexões.

E o ponto alto da reflexão do filme se dá sobre a “banalidade do mal”, mais precisamente, sobre o julgamento de Eichmann em Jerusalém. Não é preciso dizer que qualquer nazista depois do fim da 2ª guerra já estava condenado, aliás permanecem condenados até hoje. O que fizeram foi inominável. Foi a mais brutal forma de violência que presenciamos, devido a sistematização racional orquestrada, inclusive por Eichmann e outros. Essas violências são sistemáticas e repetitivas na história da humanidade: romanos lançaram cristãos aos leões; depois cristãos lançaram hereges na fogueira. Como isso era pouco cristãos e mulçumanos fizeram guerra santa, não obstante, em nome da fé e na crença que uma raça é superior a outra mataram índios e escravizaram negros.

Historicamente, após a abolição da escravatura, homens de bem, racionais, acreditaram que algo tão nefasto não mais se repetiria, mas o preconceito permaneceu e permanece ainda. No entanto, sem perder as esperanças, acreditamos que entraríamos em uma era de respeito, qual não é a nossa surpresa ao depararmos com os nazistas que assassinaram 6 milhões de judeus, milhares de ciganos. Ainda acreditando, um pouco mais estarrecidos, quase sem forças, pensamos que o último suspiro do mal foi em 1945. Qual não é a nossa surpresa ao vermos as mesmas brutalidades sendo realizadas nas ditaduras militares latinas, africanas e asiáticas.

Em todos os casos, desde antes de cristãos serem lançados aos leões até hoje quando se assassina homossexual, negros e outros, o que esta em evidência é o desrespeito ao outro. Matou-se pelo outro ser o que ele era. Mata-se por não aceitar que o outro seja aquele que ele é. Eis a banalidade do mal na sua forma mais torpe, mais vil, mais banal. Mata-se, porque não se suporta conviver com o diferente, com as diferenças.

Mas, a discussão que Hannah deseja não é essa. A discussão que ela suscita só se faz mais clara se formos à França visitarmos Sartre. Após analisar o nazismo todos querem entender.... por quê? Mais chocante do que buscar o motivo é constatar que depois de 6 milhões de morte de um povo, sem contar a dos ciganos, a dos homossexuais, a dos deficientes, não havia um único culpado. 7 milhões de mortos e ninguém se responsabilizava. Ninguém era responsável. Como isso é possível?

Se por um lado temos a infantilidade, a irresponsabilidade do outro temos o endemoniamento do mundo, a atribuição de que o que aconteceu se deveu a monstros, a seres fora da história. Nos dois casos temos a banalidade do mal, justamente, por retirar a condição humana dos sujeitos.

Retomando Sartre, justamente por pensar esse mal, que colocando palavras na boca dele, chamarei de absurdo, é que ele desenvolve e amplia a sua discussão sobre liberdade. Liberdade não pode mais ser encarada como uma expressão liberal, de dimensão individual, sem relação e comprometimento com o outro, com a vida, apenas consigo mesmo. Essa percepção egóica, demasiadamente individualista precisa ser revista e revisitada. E nesse novo viés, Liberdade é escolha e comprometimento. Liberdade não é um atributo abstrato, uma condição ideal. Liberdade é uma atitude imanente, situada, por vezes determinada. A liberdade não é um ente solto e vazio, pelo contrário, ela só existe no ser que escolhe, de forma que se há possibilidade de escolha, estamos falando de liberdade.

E se liberdade é escolha, sou livre quando opto, quando elejo, quando escolho. A liberdade esta naquele que escolhe, esta com quem escolhe escolher e até mesmo no que renuncia a escolha. Em todas as situações se é responsável por isso. Ninguém esta isento de culpa seja por ter atirado em um judeu, seja por apenas tê-los colocado dentro de um vagão de trem.

É esse cenário que Hannah nos desenha e que o filme nos coloca que tenta analisar a situação, ou seja, longe de ver Eichmann como um monstro, um ser sem alma, Hannah nos convida a vê-lo como humano, demasiadamente humano. Esse senhor era uma pessoa comum, um sujeito comum, ou como diagnosticou Wilhem Reich- Zé Ninguém. E o mundo estava e esta cheio deles. Pessoas que cumprem ordens sem lidar com a responsabilidade de seus atos. Pessoas que escondem o mal ao não optarem pelo bem. Pessoas que estão prontas a praticar o mal, porque não pensam o seu fazer no mundo, o seu ser na existência. E é diante disso que trago a comissão da verdade.
É dever histórico relembrar, recontar, não deixar esquecer. É dever histórico apontar lados, práticas, métodos. É dever histórico salientar que a história não é neutra, não é dada, mas é uma construção coletiva dos atores sociais envolvidos e inseridos naquele momento. A comissão da verdade busca mostrar que houve torturas, que teve sevicias, que tiveram práticas perversas, maldosas no olhar de qualquer tempo, de qualquer época. E aos que não sabem é preciso que fiquem sabendo, que se recordem, que se lembrem para nunca mais voltar a acontecer. Não se pode dar nome de praças e ruas a torturadores. E a sociedade brasileira tem que discutir isso. Um país não pode fechar os olhos para o que aconteceu. Temos milhares de pessoas desaparecidas. E alguém é responsável por isso, independente de terem agido certo ou errado; não é esse o julgamento. O julgamento é: houve violação do direito das pessoas e o mínimo que o Estado pode fazer já que não vai prender ninguém, condenar ninguém é apontar os responsáveis. E como parte deles acham que agiram certo e que fariam tudo de novo não há motivo para que se escondam, que não queiram lidar com o que fizeram.

II

De certo modo, eu já caminhei para dois ao falar de Sartre, Nietzsche, Reich. No entanto, não posso perder de vista, Heidegger e Levinas.

Thomas Kuhn pensa a ciência como um quebra-cabeça, deixando claro que não temos todas as peças. Com isso, ele quer salientar que o conhecimento científico é uma construção, não nasce pronto. Essa percepção que já era cara as ciências humanas adentrou o universo das ciências duras, hoje não se discute ciência sem pensar nas várias interlocuções. Um cientista, ainda que gênio desenvolveu e estabeleceu diálogo com o seu entorno. E esses diálogos são essenciais para a compreensão de qualquer conhecimento.

Vendo o filme é formidável as rodas de conversa, as tensões estabelecidas entre os envolvidos. Quando adentramos historicamente podemos ver como que a partir de um professor em comum- Heidegger- Levinas e Hannah discutem sua obra. Obras que somos convidados a ler como sendo autorais, biográficas, particulares, mas que durante o filme me veio a intuição de que o pensamento de cada um deles, acompanhado de outros tantos conhecimentos compõem uma obra única. Sendo mais claro, a obra de Hannah adentra na de Levinas, que adentra na de Simone de Beauvoir, que se estende na de Sartre, que desemboca em Reich e não se esgota e se renova em Hannah, reiniciando um novo ciclo que nos permite vê-los como discutindo a mesma coisa, cada um com um ângulo específico, mas que são peças do mesmo quebra-cabeça.
Espero que consigamos formar esse espectro de uma época o mais rápido possível, libertando o conhecimento de suas amarras individuais de forma idêntica cada um desses pensadores libertou o conceito de liberdade da sua dimensão individualista.

III

De certo modo a história da filosofia tem sido a filosofia histórica do eu, do masculino, da identidade, da igualdade. Essa história não vai mudar, talvez não deva. O importante é saber que correlata a ela tem uma filosofia histórica e uma história da filosofia que trata do outro, do feminino, da alteridade, da diferença. Essa filosofia precisa de lugar não na academia, mas dentro de nós. Essa Filosofia que tem no respeito a sua grande marca, que tem na tentativa de compreensão do mundo, o outro como ponto de reflexão. Essa face, esse rosto que Levinas nos informa. Precisamos disso cada vez mais, especialmente no nosso país que murmura saudades da ditadura, acirra-se o patrulhamento aos homossexuais, amplificam-se nos parlamentos os discursos fundamentalistas religiosos e matam-se jovens negros por serem pretos demais para existirem.


Ver Hannah, ler sua obra, discutir suas idéias podem ser de muita ajuda e valia.