terça-feira, 13 de agosto de 2013

HANNAH ARENDT, O FILME - Por José Maurício de Carvalho




HANNAH ARENDT, O FILME

Chega aos cinemas nacionais filme sobre a vida da filósofa judia Hannah Arendt (1906-1975). A película não faz o relato biográfico de toda a vida, mas do momento no qual ela se defronta com o julgamento do oficial nazista Eichemann. E a história começa a ser narrada por ocasião da captura do criminoso pelo serviço secreto israelense. Vamos encontrar a filósofa como professora universitária, que se divide entre os escritos e os compromissos didáticos. Já famosa desde a publicação de As origens do totalitarismo (1951), ela se oferece a um periódico americano, para  acompanhar, em Israel, e como correspondente, o julgamento do nazista. 

Enquanto se prepara para a viagem entre encontros com amigos judeus emigrados e as aulas da universidade, Hannah mergulha nas lembranças da juventude quando foi feita prisioneira na França. Suas recordações vão mais atrás quando fora, ainda na Alemanha, aluna de um dos maiores filósofos do século passado: Martin Heidegger. As lembranças de Heidegger adensam essa viagem a um passado perturbador, pois o professor não só mexera com seu modo de entender as coisas, mas fora um amor da juventude. Um romance que não resistiu à aproximação de Heidegger com o nazismo e as concessões que ele fez à Hitler para permanecer Reitor. Trata-se de triste episódio da vida de Heidegger, que, mais tarde, rompeu com o nazismo. A decepção de Hannah com o fato não foi superada, nem após a guerra, quando o filósofo tentou explicar suas razões. 

Retornando ao eixo central da narrativa encontramos a filósofa viajando para Jerusalém e ali acompanhando o julgamento de Eichemann. E, naquele momento, ela se perturba com as posições do oficial nazista. Ela se acostumara a pensar o mal como fruto de paixões, de tal modo que o mal abominável, ou um crime enorme como o extermínio de milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial, devia se inspirar no gosto de fazer o mal. No entanto, não foi esse tipo de homem que ela encontrou no banco dos réus. Eichemann era um burocrata, cumpridor dos deveres e do juramento de lealdade a seus superiores, um sujeito assustadoramente normal. Nesse problema ela concentra a atenção. No retorno a Nova York, continua a acompanhar o julgamento por documentos remetidos de Jerusalém. A filósofa avalia que estava diante de um novo tipo de mal, nunca antes encontrado na história da humanidade. Um mal terrível que destrói a vida pessoal, a capacidade de pensar e avaliar as coisas. Ela se indaga se a incapacidade de pensar é o que mantém o indivíduo nesta condição e se é isso que o torna cúmplice de atrocidades sem se sentir culpado, sem se preocupar com o resultado de suas ações. Os artigos publicados foram reunidos no livro Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal. Ali ela lembra que Eichmann disse à corte que se guiou pelo imperativo categórico de Kant. No entanto, o oficial nazista não olhava  todos os homens como pertencentes à mesma humanidade, naquilo que 
Kant denominou na Crítica do Juízo de mentalidade alargada. Ele não obedecia apenas as ordens, mas a própria lei moral do modo como a entendia com suas limitações. Sem reconhecer a humanidade comum dos homens não entendeu Kant. A filósofa denomina banalidade do mal o resultado da obediência irrefletida a uma ordem, aspecto que em si é extrínseco ao processo a que estava sendo submetido o oficial, pois a questão ia além das doutrinas jurídicas mobilizadas pela defesa e acusação no que abrange a licitude do próprio julgamento e a responsabilidade do acusado pelos crimes que lhe eram imputados. É por isso que ela relaciona a banalidade do mal à incapacidade de pensar. 

No entanto, Hannah também se impressionou com o fato de que lideranças judias cooperaram com os nazistas na localização e identificação dos judeus capturados. E foi isso que levou ao extermínio de milhões. Hannah menciona o fato de passagem. No entanto, o episódio magoou os judeus na América e as autoridades do Estado de Israel. E ela foi considerada uma judia ruim e sem amor por seu povo. Tanto porque sua análise filosófica  aparentemente diminuía a culpa pessoal do nazista, quanto porque tornava os judeus corresponsáveis pelo triste episódio. Foram muitas as cartas que recebeu e as ameaças que sofreu por conta disso. 

Independente da polêmica que se torna o assunto central do final do filme, vemos a filósofa explicar seus pontos de vista e comprometer-se com a verdade. Em nome dela enfrenta e perde os amigos de toda a vida. Sua existência, a partir de então, destina-se a entender essa nova face do mal. O mal produzido pelo totalitarismo. Um mal que Karl Jaspers, um dos  maiores representantes do existencialismo alemão, soube trazer da experiência totalitária para a vida pós-guerra: colocando-o na irreflexão. Trata-se de se perder na rotina e compromissos diários de uma vida sem sentido. No caso de Jaspers a irreflexão tinha significado ético, porque o sentido é não só projeto intelectual, uma forma de pensar, mas é um portar-se guiado pelas exigências éticas tomadas como exigência absoluta, uma ampliação do imperativo categórico de Kant. 

Prof. Dr. José Mauricio de Carvalho 
Departamento de Filosofia da UFSJ 
Contato: mauricio@ufsj.edu.br