segunda-feira, 13 de maio de 2013

Os plebiscitários



Os plebiscitários



Por Luis Fernando Franco-Ferreira
Advogado e Historiador.


 O capitalismo ruíra, enfim, por suas próprias contradições estruturais, consoante previsto por muitos teóricos marxistas. Mas com uma virulência que nem mesmo os mais catastrofistas deles poderiam imaginar, pois em poucos meses foram removidos os últimos escombros da velha sociedade lastreada no capital. Assim, sagrou-se triunfante em todo o planeta, de forma até apoteótica, o comunismo alicerçado na ciência do materialismo histórico legada por Karl Marx e seu fiel amigo Friedrich Engels. Interessante notar que a crise derradeira da organização social burguesa teve como epicentro a cidade de São Paulo, no Brasil, vale dizer, começou na periferia do sistema mundial capitalista, disseminando-se rapidamente em direção a Xangai, na China. Depois, atingiu o centro financeiro de tal sistema, mais conhecido como Wall Street, em Nova York, Estados Unidos da América, quando então a burguesia internacional foi levada definitivamente a cair de joelhos diante de uma classe trabalhadora já armada até os dentes e devidamente preparada para exercer o controle político em escala planetária. 
Destaque-se que a crise letal do capitalismo inaugurou-se não no centro do sistema, como era esperado pelos economistas de formação socialista, mas irrompeu na respectiva periferia, em São Paulo. Era uma manhã de segunda-feira quente e nublada, com esporádicas e instantâneas precipitações de chuvas de verão pela cidade, quando os índices da Bolsa de Valores principiaram uma queda tão vertiginosa que nem mesmo os dispositivos de emergência dessa entidade financeira puderam evitar a bancarrota serial da quase totalidade das empresas com capital nela negociado. 
Em pouco tempo, a praga da quebradeira de firmas atingiu a bolsa de valores de Xangai, completando um ciclo importante, porquanto Brasil e China já compunham, juntos, a base industrial mundial de época: conquanto os Estados Unidos ainda exibissem o domínio internacional no circuito do capital financeiro, além da incontestável hegemonia militar, o fato é que aqueles dois Estados nacionais, o brasileiro e o chinês, respondiam agora pela maior parte da produção material da humanidade, tanto em relação a alimentos quanto a produtos manufaturados, enquanto a economia do gigante norte-americano já se limitava aos serviços e à persistentemente notável produção científica, em especial aquela atinente à tecnologia da informação. 
Mas Wall Street também sucumbiu à inexorável onda lesiva ao capital, e cedo os índices Dow Jones e Nasdaq foram à lona com a mesma impetuosidade observada em São Paulo e Xangai, arrastando consigo os fundamentos financeiros da mais importante economia do planeta.
Com a derrocada de Wall Street, o resto do mundo restou desprovido do vigor que emanava do centro do capitalismo, e também foi mortalmente abalado.
O cenário que se descortinou do desastre do capital mundial oferecia um semblante aterrador, algo como um crash de 1929 elevado à enésima potência, com turbas desoladoramente unidas movendo-se em busca de comida pelas ruas de cidades devastadas como se tivessem sido fulminadas por vândalos drogados e desesperados.
Porém, o derramamento de sangue manifestou-se relativamente parcimonioso, pois uma nova ordem mundial também eclodiu com estarrecedora velocidade: após a quebra da bolsa em São Paulo, logo germinou a partir dessa cidade, principalmente por intermédio das redes sociais na internet, uma liga de comunistas que se expandiu rapidamente rumo a Xangai e Nova York, e que foi denominada a princípio pela sigla “RICO”, de Rede Internacional Comunista, a qual pretendia suplantar de vez o capitalismo e implantar uma sociedade mundial fundada nos princípios marxistas. 
A RICO radicava em bases sociais integradas por trabalhadores assalariados tanto do campo quanto das cidades. Sua destacada legião de hackers logo invadiu os sistemas de informática do Pentágono, nos EUA, passando a controlar por completo o maior arsenal bélico do planeta. Vale acrescentar que importante parcela dos outrora alienados e embrutecidos soldados norte-americanos vieram a compor as hostes da liga comunista, de tal sorte que a questão militar da revolução mundial restou resolvida sem que a ameaça nuclear pudesse concretizar-se.
Equacionada a questão militar, sobreveio imediatamente a renúncia do chefe das forças armadas dos EUA, o presidente do país, e então as hostes da RICO puderam marchar tranquilamente sobre Washington, tomando de assalto a Casa Branca e formando um comitê provisório para governar por ora a nação que antes conduzira o apogeu do capitalismo internacional. 
Em Xangai os acontecimentos tomaram rumo ainda mais calmo, pois o Partido Comunista Chinês aderiu de pronto à RICO, passando a constituir a seção chinesa da liga internacional que revolucionava o mundo ao por o capitalismo a pique. 
Mas foi em São Paulo que se constituiu o centro decisório comunista em escala planetária, lá onde surgira a própria RICO e que exibia um histórico de grande concentração industrial acrescida de importantíssima experiência de organização político-partidária da classe trabalhadora. Outrossim, as antigas agremiações partidárias brasileiras de esquerda aderiram de plano à RICO, com injetar-lhe conhecimento teórico e prático, acumulado durante décadas, e fornecendo-lhe destacadas lideranças experientes e lapidadas na dura batalha diuturna contra um capitalismo selvagemente excludente que fincava raízes no passado escravista do país. 
De São Paulo emanavam as diretrizes políticas da RICO para todo o mundo, as quais encerravam como objetivo a abolição completa da propriedade privada dos meios de produção; a constituição de um Estado proletário único em escala mundial, com a supressão de todas as barreiras entre os países, principalmente as alfandegárias; a organização da planificação econômica para todo o planeta, com fundamento nas necessidades e possibilidades individuais dos trabalhadores; a mais cabal superação da democracia representativa pela democracia direta, com voto digital pelas redes sociais em todas as eleições e com ampla transparência estatal e política; e ainda a integração de comitês centrais e locais de gestores-representantes com mandatos curtos e alta rotatividade entre os mesmos. 
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Assim delineados os seus alicerces, o comunismo mundial desenvolveu-se, não sem contratempos, por óbvio, mas de forma regular por alguns séculos até alcançar certa estabilidade que ao menos parecia duradoura.
A planificação econômica, em particular, beneficiara-se sobremodo da rápida e vigorosa desinibição da tecnologia da informação, com o advento de uma rede mundial de computadores que convergia e era centralizada por uma forma de inteligência artificial responsável por dirigir a economia do planeta: ela recebia pela rede mundial os dados de cada indivíduo trabalhador com seu núcleo familiar, para então planejar a produção e reprodução da vida material da nova sociedade comunista.   
Portanto, cada núcleo familiar alimentava o sistema de inteligência artificial com dados sobre suas necessidades atuais e futuras, para então receber de tal sistema tanto a determinação de quantidade de horas diárias a serem trabalhadas por cada indivíduo do núcleo em seu respectivo ramo econômico, quanto os bens materiais e imateriais de que necessitava para desfrutar de uma vida digna e mesmo próspera, em consonância com as possibilidades da economia mundial e seu grau de desenvolvimento. 
Nesse aspecto, impõe-se salientar que a própria velocidade do crescimento econômico era decidida democraticamente com fundamento em estudos científicos disponibilizados a todos pelo sistema e submetidos a eleições diretas. Tais estudos relacionavam impacto ecológico com crescimento populacional, sendo certo também que o decrescimento da economia, nos moldes previstos pelo estudioso romeno-americano Nicholas Georgescu-Roegen no século XX, sempre aparecia como opção a ser votada pela sociedade. 
Cuidava-se, pois, de um sistema de inteligência artificial retroalimentado, que recolhia e distribuía dados consoante as diretrizes prévia e periodicamente decididas pela própria sociedade comunista mundial, a qual, por seu turno, recebia de tal sistema dados e estudos científicos para novos sufrágios sobre a desinibição econômica.  
Fisicamente, o computador central de inteligência artificial, denominado PLANO-RICO 1, permanecia na cidade de São Paulo e era administrado pelo comitê gestor composto por representantes periódica e democraticamente eleitos pela população mundial.   
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Nesse ínterim, a produção científica da humanidade evoluía a passos largos, tampouco sem contratempos, o mais das vezes de caráter ético, mas sempre norteada por um objetivo rigorosamente observado pelos cientistas, a saber, a redução tendencial da duração do trabalho obrigatório e heterônomo, de sorte a permitir a ampliação do labor autônomo, vale dizer, aquele decidido pelo próprio indivíduo trabalhador e não por PLANO-RICO 1. 
Nesse sentido, o segmento científico da robótica tinha obtido grandes contribuições para a população do planeta, criando aparelhos que aliviavam sobremaneira o trabalho heterônomo, mas deparara-se com limites quase intransponíveis, porquanto os robôs, por mais similares que fossem aos humanos, não exibiam a mesma flexibilidade e maleabilidade de corpos orgânicos. Por outro lado, sua inteligência apresentava sérias limitações quanto à simulação perfeita das funções cerebrais de seus criadores, apesar das conquistas surpreendentes de PLANO-RICO 1. 
Mas outro segmento da ciência de ponta apresentava-se deveras alvissareiro: a engenharia genética alcançara notáveis conquistas no campo da eugenia dos vegetais e na clonagem de animais, inclusive quanto ao gado leiteiro e de corte. Todavia, problemas conceituais extremamente intrincados postergavam indefinidamente o próximo passo que a biotecnologia estava prestes a dar: a clonagem de seres humanos. 
Com efeito, as limitações da robótica acima referidas indicavam obviamente que, sem rodeios, era interessante para a população comunista a obtenção de clones humanos para servirem de escravos nos trabalhos heterônomos mais básicos, isto é, que não exigissem atividade cerebral mais sofisticada, pois a esta deveria ser conferido status de exclusividade dos trabalhadores não-clonados. 
Ora, o ressurgimento da escravidão, ainda que de seres humanos clonados, representava questão evidentemente tormentosa para uma sociedade comunista, porquanto encerrava sério potencial para trazer de volta, por assim dizer, “toda a velha merda”, como diriam Marx e Engels, pois os clones escravos poderiam simplesmente rejeitar sua condição servil e insurgir-se contra os humanos “naturais”, ou ainda poderia tornar-se conceitualmente difícil distinguir o indivíduo natural do artificial, o clonado do não-clonado, entre outros pontos controvertidos. 
Mesmo assim, diante das discussões que já começavam a sobrecarregar a rede mundial de computadores, PLANO-RICO 1 propôs à humanidade o seguinte plebiscito: proibir ou autorizar a clonagem de humanos. Neste último caso, ofereciam-se diversas opções quantos às condições em que tal experiência seria levada a cabo. 
Por fim, o resultado do plebiscito autorizou a clonagem de humanos, sob a condição de que as experiências respectivas ficariam confinadas, quanto ao lugar, ao ainda desabitado continente antártico, o qual passaria a ter como atividade exclusiva as investigações nesse segmento da biotecnologia. Ficou decidido ainda que qualquer resultado material de tais experimentos, ao menos por enquanto, restaria restrito à Antártida, sob pena de morte, inclusive com a implantação imediata de rigorosíssimas medidas de segurança de caráter militar para evitar a qualquer custo a saída de clones do continente austral gelado. 
Outra condição resultante do plebiscito referia-se à necessidade de condicionar geneticamente os clones humanos ao trabalho e à obediência incontestável diante dos “naturais”, algo assim como a obtenção de abelhas ou formigas operárias em forma de seres humanos, incapazes de sublevação contra seus senhores. 
Além disso, o plebiscito dispusera que os clones somente poderiam sair da Antártida para trabalhar para os humanos quando se demonstrasse em índole definitiva, pelos meios científicos adequados, a segurança de sua utilização como escravos absolutamente subservientes, na medida em que a possibilidade de desobediência fosse rigorosamente igual a zero. 
 Restaria definir por posterior regulamentação do plebiscito, na oportunidade da autorização do trabalho escravo dos clones fora da Antártida, em que atividades eles poderiam laborar e qual o nível de inteligência que lhes seria permitido e adequado a tais atividades.      
Algum tempo depois, nascia na Antártida o primeiro indivíduo humanoide clonado, por sinal com traços orientais, a quem se atribuiu a alcunha de CIRO 1, uma pequena inversão das letras de RICO. 
Doravante, os humanoides nascidos da clonagem seriam denominados “plebiscitários”, em alusão à consulta mundial que autorizara as experiências de tal espécie no continente antártico.                    
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Tempos depois, a população residente na Antártida já perfazia o montante de aproximadamente 44.000 habitantes, assim distribuídos: 30.000 militares do exército, marinha e aeronáutica, não considerados os robôs androides que lhes serviam de apoio logístico; 4.000 civis, ligados à área científica; e, finalmente, 10.000 plebiscitários, tanto descendentes diretos de CIRO 1, quanto derivados de outras linhagens menos antigas. 
Ora, evidentemente, a proporção de 3 militares para 1 plebiscitário apresentava razões de segurança deliberada e previamente definidas por PLANO-RICO 1. 
Com efeito, as experiências com clonagem humana na Antártida lograram êxitos retumbantes, motivo de muito orgulho para os cientistas que laboravam em tal projeto. Os plebiscitários em pouco tempo apresentavam características invejáveis aos humanos, tais como vigor físico e longevidade acentuados, inclusive com adaptação perfeita ao rigoroso clima do continente austral, tanto que lhes era desnecessário o uso de vestuário apropriado para frio intenso; fertilidade para reprodução sexual autônoma, independente dos humanos, mas sob rígido controle militar destes; inteligência média um pouco superior à da humanidade em geral; e, finalmente, fácil adaptabilidade aos trabalhos pesados, sobretudo em razão do pronunciado vigor físico. 
Todavia, o motivo da distribuição populacional acima destacada, com larga vantagem numérica para os militares, radicava no fato de que uma das condições para a permissão de residência e trabalho escravo de plebiscitários, fora da Antártida, ainda não havia sido implementada, qual seja, a subserviência total aos humanos e a decorrente impossibilidade de desobediência diante de suas ordens. Vale ressaltar que, ao contrário, os saudáveis, inteligentes e longevos plebiscitários antárticos ostentavam boa dose de hostilidade perante os humanos e até mesmo certa arrogância diante destes.                        
Os plebiscitários habitavam uma pequena cidade por eles mesmos construída e mantida, situada no centro geográfico do continente antártico, muito parecida com uma miniatura da capital da Islândia, Reykjavik, mas do começo do século XXI, com seus prédios baixos e casas de telhados coloridos. Tal cidade, no entanto, era inteiramente circundada por uma altíssima muralha em cuja extremidade foram instaladas cercas elétricas de voltagem altamente letal. Do lado externo de tal muralha ficavam de prontidão patrulhas militares armadas com os dispositivos bélicos mais eficientes e destrutivos, inclusive com carga nuclear, para o caso de necessidade de aniquilação completa da cidade plebiscitária. 
Dentro da cidade, à qual fora conferido o nome de “Gênesis”, também havia uma patrulha composta pelos mais treinados e capazes agentes de polícia militar de que se tinha notícia no planeta, que os habitantes plebiscitários haviam denominado de “paulistas”, em referência à capital mundial do comunismo. Eles eram facilmente identificáveis pelo armamento que portavam e pelos seus trajes, compostos por indumentária à prova de bala e com aquecedores embutidos, mais parecida com vestes espaciais da antiga NASA. Já os moradores clonados distinguiam-se pela forma absolutamente irreverente com que se vestiam, como se estivessem em uma localidade litorânea tropical ou mesmo equatorial, pois usavam negligentemente trajes de banho ou esportivos absolutamente inapropriados, em termos humanos, ao clima intensamente frio do lugar. Por isso os paulistas chamavam os plebiscitários de “cariocas”. 
Conquanto diuturnamente policiados pelos paulistas e desautorizados de sair de Gênesis, os plebiscitários desfrutavam de relativamente alto padrão de vida material e cultural em Gênesis. Era-lhes permitido inclusive o acesso à internet, embora completamente monitorado, mas não dispunham de direitos políticos fora da cidade, a qual era praticamente autogerida por eles mesmos. A relação com o computador central PLANO-RICO 1 era nula e definitivamente proibida. Somente o sistema local de inteligência artificial de Gênesis, designado PLANO-RICO 2, podia comunicar-se com o central PLANO-RICO 1, porquanto, por óbvio, a cidade plebiscitária não era economicamente autossuficiente, dependendo em boa medida de suprimentos vindos de fora das muralhas. 
Interessante notar que, no plano cultural, Gênesis definia-se por um passadismo e uma nostalgia bastante inusitados e insuspeitos para seus criadores humanos: na música, por exemplo, fazia grande sucesso entre os plebiscitários adolescentes, naquela época, a antiga banda de rock inglesa Radiohead, e os grupos musicais formados pela “molecada” clonada tocavam insistentemente seus hits como “Idioteque”, “High and dry” e “Motion Picture Soundtrack”. Na dança, gostavam muito das velhas coreografias de Pina Bausch e do grupo belga Peeping Tom, enquanto nas telas da cidade exibiam-se antigos diretores como David Lynch, Peter Greenaway, David Cronenberg, Stanley Kubrick e, sobretudo, Ingmar Bergman e Hitchcock. Nas artes plásticas, Alberto Giacometti, Van Gogh, Vik Muniz, Calder, Rothko, Louise Bourgeois e Picasso tinham a predileção dos plebiscitários, ao passo que na literatura os nomes mais citados eram Kafka, Joyce, Fernando Pessoa, Leminski, Yoshiyasse, Mishima, Kawabata, Saramago, Jorge Luis Borges, Stanislaw Lem, Philip K. Dick, Arthur Charles Clarke e Thomas Pynchon. Evidentemente, muitos outros nomes do campo artístico eram lembrados, mas a atração pelos séculos XX e XXI restava patente, e artistas do Extremo Oriente eram particularmente admirados, talvez em razão da grande proporção de orientais entre os habitantes de Gênesis.   
Na verdade, contudo, o fato é que a humanidade comunista não sabia o que fazer exatamente com aquela comunidade de plebiscitários encravada no meio da Antártida que, a rigor, não tinha qualquer serventia para os seus criadores, porquanto malograram todas as tentativas de conceber clones geneticamente obedientes dirigidos ao trabalho escravo para os humanos. A rigor, a manutenção de Gênesis configurava um estorvo para a humanidade, seja pelos custos que exigia, seja pelo constante perigo que representava. Ora, manter uma população de clones que, além de potencialmente perigosa, gerava custos econômicos sem retribuir com rigorosamente nada para a humanidade parecia ser, com efeito, um despautério, o qual já engendrava indignações públicas na internet e demais canais de comunicação.
A indignação intensificou-se depois que um policial militar de Gênesis apareceu misteriosamente morto, possivelmente assassinado por garrote, e despojado de seu armamento e de suas roupas. A ulterior busca por tais pertences e por indícios conducentes aos criminosos culminou em absolutamente nada. 
A revolta da humanidade contra esse acontecimento em Gênesis foi de magnitude tal que teve de ser organizado por PLANO-RICO 1 um novo plebiscito, agora sobre a continuidade ou não do projeto de clonagem humana mantido na Antártida, o qual resultou, como já era amplamente esperado, na decisão de terminar imediatamente com tal projeto. Todavia, no que se refere à forma de sua supressão, ficou decidido que Gênesis não seria aniquilada por meios nucleares, mas sim deixada à míngua, sem suprimentos, até a morte de todos os plebiscitários, o que, à toda evidência, demonstrava uma boa dose de crueldade fundada provavelmente no rancor da humanidade contra o assassinato do “paulista” na cidade dos clones antárticos. 
Assim decidido, começou a retirada completa de humanos da Antártida, até que Gênesis restou solitária como única manifestação da civilização no continente gelado. Além dos mantimentos, as comunicações dos plebiscitários com o restante do planeta foram completamente removidas, mas os clones souberam com antecedência de sua condenação à morte por inanição.                                 
Com o moral plebiscitário profundamente abalado, uma melancolia contagiante tomou conta de toda a população de Gênesis, que resolveu então, em plebiscito local, por uma medida trágica: o suicídio coletivo. Mas decidiu-se também que iriam, por assim dizer, “pregar uma peça” contra os humanos, em contrapartida pela sua crueldade contra seres vivos por eles mesmo criados. 
Assim sendo, foi elegida uma comissão de cem plebiscitários dispensados do suicídio coletivo, com a incumbência de levar a bom termo a vingança contra a humanidade. 
Logo, com as armas do paulista recentemente morto, as quais haviam sido escondidas com êxito dos militares humanos sediados na Antártida, os plebiscitários abriram uma enorme cratera na muralha com cerca elétrica que os confinava, e por tal cratera passou um grande barco que haviam construído em pouco tempo, o qual seria conduzido pela comissão dos cem clones até o litoral antártico para, daí, alcançarem a costa austral da Argentina.
Nessa comissão estava um garoto plebiscitário de quatorze anos, com traços orientais e de nome CIRO 2, o qual exibia a característica de ser um gênio intelectual, portador de uma inteligência de magnitude e alcance raramente observados na história do planeta Terra. A missão dos cem plebiscitários dispensados do suicídio coletivo consistia em infiltrar CIRO 2 entre os humanos e deixar que ele se encarregasse da “peça” contra a humanidade. 
A comissão dos cem plebiscitários logrou êxito. 
Aos trinta e sete anos de idade, CIRO 2 já constava entre os cientistas chefes do Laboratório de Inteligência Artificial da Universidade de São Paulo, responsável pela manutenção e constante aperfeiçoamento de PLANO-RICO 1. Ele residia na cidade de São Bernardo do Campo, nas adjacências da capital mundial, onde mantinha, no porão de sua casa, um laboratório clandestino de cuja existência somente ele tinha conhecimento, onde realizava os experimentos que culminariam na revanche de seu povo contra os humanos. 
Tais investigações pretendiam a criação de um cérebro sintético que reproduziria com perfeição os neurônios e as sinapses de CIRO 2, transportando toda a identidade individual, vale dizer, a personalidade e a inteligência do gênio plebiscitário para um pequeno chip.
Obtido tal dispositivo com sua identidade, CIRO 2, que tinha acesso praticamente irrestrito ao computador PLANO-RICO 1, substituiu, por assim dizer, o cérebro de tal computador pelo seu chip genial. Empreendeu os testes devidos para comprovar que PLANO-RICO 1 agora tinha uma mente com a personalidade, vale dizer, a própria identidade de CIRO 2, voltou para casa e praticou o haraquiri ao som de “No surprises”, do Radiohead, é claro.  
Não tardou muito tempo para a superveniência de uma catástrofe nuclear mundial que extinguiu a humanidade. 

(Este opúsculo é dedicado a Ciro Seiji Yoshiyasse, meu camarada, e a Valdecir Franco de Souza e Silva, meu tio, falecido no dia 31 de dezembro de 2012)