quarta-feira, 17 de abril de 2013

As Filosofias Aplicadas emergentes em fins do século XX e início do Século XXI


As Filosofias Aplicadas emergentes em fins do século XX e início do Século XXI


Marta Claus 
Fílosofa  Clínica
Dra. em Filosofia/IP

A Filosofia surgiu nos séculos VII-VIa.C. nas cidades gregas da Ásia Menor. Ela surge desde o momento em que o homem começou a refletir sobre o funcionamento da vida e do universo, buscando uma solução racional para as grandes questões da existência humana. Em sua origem a Filosofia era uma atividade, pois os pensadores inseridos no contexto histórico de sua época, buscavam diversos temas para reflexão. A Grécia Antiga é conhecida como o berço dos pensadores, sendo que os sábios buscaram formular, no século VI a.C., explicações racionais para tudo aquilo que era explicado, até então, pela da mitologia. Hodiernamente, Filosofia é a disciplina, ou a área de estudos, que envolve a investigação, a argumentação, a análise, discussão, formação e reflexão das idéias sobre o mundo, o Homem e o Ser. Originou-se da inquietude gerada pela curiosidade em compreender e questionar os valores e as interpretações aceitas sobre a realidade dadas pelo senso comum e pela tradição. Segundo Monica Aiub[i], em sua obra Para entender filosofia clínica (2004):
“Desde a sua origem, a filosofia dispõe-se a refletir sobre questões cotidianas. Afirmou Platão, no diálogo Teeteto: “ a admiração é a verdadeira característica do filósofo” (155d). Admiração espanto e inquietação diante da realidade são, de fato, características da filosofa.”
Muitos filósofos e muitas filosofias propuseram modos de se lidar com os problemas e com as adversidades do dia a dia. Não obstante também procuravam uma explicação racional para a natureza e o universo, tinham no homem sua principal fonte de observação e inquietação.
O período clássico (séculos V e IV a.C.) na Grécia Antiga foi de grande desenvolvimento cultural e científico. O esplendor de cidades como Atenas, e seu sistema político democrático, proporcionou o terreno propício para o desenvolvimento do pensamento racional. É a época dos sofistas e do grande pensador Sócrates que começa a pensar e refletir sobre o homem, buscando entender o funcionamento do Universo dentro de uma concepção científica. Para ele, a verdade está ligada ao bem moral do ser humano. Sócrates não deixou textos ou outros documentos, desta forma, só podemos conhecer as suas ideias através dos relatos deixados por Platão.  Este discípulo de Sócrates defendia que as ideias formavam o foco do conhecimento intelectual. Os pensadores teriam a função de entender o mundo da realidade, separando-o das aparências. 
Outro grande sábio desta época foi Aristóteles que desenvolveu os estudos iniciados por Platão e Sócrates. Foi ele quem desenvolveu a lógica dedutiva clássica, como forma de chegar ao conhecimento científico. Afirmava que sistematização e os métodos devem ser desenvolvidos para se chegar ao conhecimento pretendido, partindo sempre dos conceitos gerais para os específicos.
O período pós-socrático é a época que vai do final do período clássico (320 a.C.) até o início da Era Cristã, e historicamente representa o final da hegemonia política e militar da Grécia Antiga. Para lidar com as questões existenciais surgidas no pós-guerra, dessa época de conquistas de descobertas, muitas filosofias se preocuparam em dar ao homem opções para uma vida mais amena. Entre essas filosofias podemos citar o Ceticismo; o Epicurismo; o Estoicismo; entre outras. Essas filosofias aplicadas que surgiram na mesma época e diante desse quadro de compreensão da vida e do mundo, podemos afirmar que:
“Seja para compreender ou transformar uma situação, a reflexão filosófica nos oferece métodos para investigar de maneira organizada, profunda, buscando causas, origens, contextualizando, observando a questão situada em seu universo e considerando o todo.
Essa reflexão filosófica é o que nos permite a compreensão de nós mesmos, do outro e do mundo, de maneira a direcionarmos nossas vidas e escolhas conscientemente, buscando aquilo que supomos ser o melhor caminho. (Aiub, 2004, p 12)." 
O pensamento vigente na Idade Média foi muito influenciado pela Igreja Católica. Desta forma, o teocentrismo acabou por definir as formas de sentir, ver e também pensar o mundo durante o longo período medieval. Embora, entre os séculos V e XIII, uma nova linha de pensamento surgisse na Europa, a Escolástica, que era um conjunto de ideias que visava unir a fé com o pensamento racional de Platão e Aristóteles, a reflexão filosófica toma rumo acadêmico e se desvincula da reflexão sobre as questões cotidianas.
Com o Renascimento (cultural e científico), o surgimento da burguesia e o fim da Idade Média, os modos de se pensar o mundo e o Universo ganham novos rumos. A definição de conhecimento deixa de ser religiosa para entrar num âmbito racional e científico. Agora o homem era o centro do Universo. Neste contexto, René Descartes cria o cartesianismo, privilegiando a razão e considerando-a  base de todo conhecimento válido. No século XVII, o pesquisador e sábio inglês Francis Bacon cria um método experimental, conhecido como empirismo. Neste mesmo sentido, desenvolvem seus pensamentos Thomas Hobbes e John Locke.
O iluminismo surge no século XVIII. A experiência, a razão e o método científico passam a ser as únicas formas de obtenção do conhecimento. Considerado como a única forma de tirar o homem das trevas da ignorância em que supostamente foram colocados na Idade Média, também conhecida como Idade das Trevas. Podemos citar, nesta época de busca ao verdadeiro conhecimento científico, os pensadores Immanuel Kant, Friedrich Hegel, Montesquieu, Diderot, D'Alembert e Rosseau. Já o século XIX é marcado pelo positivismo de Auguste Comte. O ideal de uma sociedade que estava baseado na ordem e progresso influencia nas formas do homem de refletir e agir sobre as coisas. O fato histórico deve falar por si próprio e o método científico, controlado e medido, deve ser a única forma de se chegar ao conhecimento. Foi a época em que o filósofo Friedrich Nietzsche faz duras críticas aos valores tradicionais da sociedade, representados pelo cristianismo e pela cultura ocidental. De sua filosofia podemos entender que o pensamento serviria para libertar, deveria ser livre de qualquer forma de controle moral ou cultural.
Na época Contemporânea durante o século XX várias correntes de pensamentos surgiram ao mesmo tempo. As releituras do marxismo e novas propostas surgem a partir de Antonio Gramsci, Henri Lefebvre, Michel Foucault, Louis Althusser e Gyorgy Lukács. A Antropologia (ciência que tem como objeto de estudo o Homem) ganha importância e influencia o pensamento do período, graças aos estudos de Claude Lévi-Strauss. A fenomenologia, descrição das coisas percebidas pela consciência humana, tem seu maior representante em Edmund Husserl. A existência humana ganha importância nas reflexões de  Jean-Paul Sartre, o criador do existencialismo. Nesse contexto, já no final do século XX, surgem novas filosofias que orientam suas reflexões e preocupações para os problemas existenciais e cotidianos dos homens. Ou seja, neste inicio de século XXI estamos vivenciando um tempo em que, nos parece, a Filosofia e os pensadores retomam o sentido primeiro da filosofia, onde a mesma deve servir ao homem como elemento para o cotidiano, sem com isso deixar de co-existir com a filosofia acadêmica, onde esta se apresenta como disciplina a ser pesquisada dentro dos métodos científicos por ela estabelecidos, assim encontrando e criando conceitos e pensamentos que sejam válidos para todos os homens em todos os tempos.
Há mais de três décadas surgiram numerosas tentativas de trazer a filosofia ao grande público, encarando-a não como uma mera transmissão de conhecimentos e de ideias de autores, mas como uma prática de desenvolvimento do pensamento e da capacidade crítica.  Nesta perspectiva, a filosofia é vista como uma atividade com uma dimensão educativa transversal, como um espaço de discussão e de elaboração de um pensamento autônomo, crítico e criativo. Tal abordagem visaria atingir também, um público maior e menos intelectualizado, não se limitando ao setor restrito a quem a filosofia tradicionalmente se destinava.
Logo, trazendo para esta pesquisa, a ideia de que a Filosofia deve ser utilizada para aliviar a aflição, ajudar indivíduos a encontrar um melhor entendimento de si mesmos, de seus mundos e melhorar a vida das pessoas, será feita a seguir uma simples exposição das principais Filosofias emergentes nestes últimos cinquenta anos, quais sejam: Filosofia Prática, de Aconselhamento e Clínica, apresentando de forma geral, as mais conhecidas com os seus pressupostos, objetivos e concepções metodológicas. Tal exposição tem como objetivo situar, ou não, a Filosofia Clínica de Lúcio Packter no contexto das Filosofias Aplicadas emergentes em fins do Séc. XX início do Séc XXI.

A Terminologia

Antes do estudo e da pesquisa de um tema, considero interessante termos em mente o significado daquilo de que estaremos tratando. Portanto, tentei elaborar neste estudo uma breve e sucinta exposição sobre os termos Filosofia, Filosofia de Aconselhamento, Filosofia Prática, Orientação Filosófica, Consultoria Filosófica e Filosofia Clínica ou Terapia Filosófica, no intuito de aclarar os seus significados, sinônimos e sua utilização, dentro do panorama desta pesquisa.
Tanto a palavra Filosofia como a ciência Filosofia tem muitas definições e significações. Etimologicamente, filosofia significa "amor à sabedoria" e isso tem sido traduzido ao longo da história de muitas formas. Cada corrente de pensamento filosófico pressupõe uma definição da própria filosofia, um modo particular de interpretar aquele "amor" e aquela "sabedoria" em permanente confronto ou conflito com outras correntes e com outras áreas do universo cultural (arte, religião, ciência, técnica, política, etc.). Embora mais conhecidamente, Filosofia, se refira ao conjunto de concepções, práticas ou teóricas, acerca do Ser, dos Seres, do Homem e de seu papel no Universo. Pode também ser encontrada a definição da palavra Filosofia como atitude reflexiva, crítica ou especulativa, de elaboração das concepções acerca da natureza e do homem. Outras definições encontradas mostram Filosofia como o conjunto de toda ciência, conhecimento ou saber racional; reflexão crítica sobre os fundamentos do conhecimento (valores cognitivos), da lógica, da ética e da estética (valores normativos); sistema de princípios que explicam ou sintetizam determinada ordem de conhecimentos, como por exemplo, filosofia da história; conjunto de doutrinas de uma escola, época ou país. Todas essas definições e inúmeras outras são válidas e denotam o que vem a ser Filosofia.
A própria História da Filosofia não apresenta uma definição ou significação que seja única e com único valor de verdade e, deixa em aberto possibilidades de novas definições e conceituações. Se pensarmos em Filosofia como atividade reflexiva, essa gama de definições e significações dela mesma faz sentido, pois pensar e refletir sobre seu próprio significado é, segundo minha percepção, uma atitude filosófica. Poderia então sugerir que não deveríamos dizer o que é filosofia, mas o que ela tem sido ao longo do tempo e da sua própria história, ou seja, uma reflexão crítica sobre as formas do pensar e do agir humano, uma espécie de consciência crítica da experiência humana considerada em sua totalidade; uma explicação do mundo em que vivemos. 
Todos os demais termos que aqui aparecem, Filosofia de Aconselhamento, Filosofia Prática, Orientação Filosófica, Consultoria Filosófica, exceto Filosofia Clínica, vem da expressão alemã ‘Philosophische Praxis und Beratung’, que traduzida para o português quer dizer ‘Prática e Consulta Filosófica’. Quem primeiro utilizou essa nomenclatura foi Gerd Achenbach em 1982 quando da abertura de seu consultório de Orientação Filosófica na Alemanha. Logo, o neologismo foi incorporado e utilizado em clubes, consultórios e cafés filosóficos. A Prática Filosófica é em sua essência o ato de pensar sobre alguma questão ou problema de qualquer natureza que necessite de revisão de conceitos e aprofundamentos ontológicos. Já uma Consultoria Filosófica é praticada por um consultor filosófico. Este é quem ajuda na reflexão sobre o que se passa com quem o procura e utiliza-se de textos, teorias e até doutrinas filosóficas para elaborar o rumo da reflexão. Quem consulta um Filósofo de Aconselhamento, por exemplo, vai a uma consulta filosófica e não à terapia.
Exercer a Prática da Filosofia, entendendo Filosofia como atividade reflexiva e não como disciplina acadêmico-científica, não significa, necessariamente, ser atendido por um Consultor Filosófico, Aconselhador Filosófico ou mesmo um Assessor Filosófico. Esta pode ser exercida e exercitada em cafés, clubes ou grupos de discussões. Entretanto, no que se refere ao atendimento em consultório, o filósofo alemão, criador do neologismo, não se refere à pessoa que procura os seus serviços como, cliente, paciente, aconselhados, mas sim como visitantes. E segundo Jorge Dias, na obra Pensar Bem Viver Melhor, 2006:
“Esse aspecto é essencial. O peso dos conceitos varia em casa caso. O visitante não espera uma resposta definitiva à sua questão, não espera um conselho, ainda que possa ser dado. Ele vai à consulta para dialogar sobre uma série de temas e para clarificar o seu pensamento sobre os mesmos. Assim o tipo de relação estabelecido com o orientador é de uma igualdade total.”
Para a Filosofia de Aconselhamento ou Filosofia Prática quem procura o Aconselhador ou o Prático não se encontra necessariamente doente ou com algum sintoma patológico e, portanto a relação que se estabelece é de duas pessoas aptas à reflexão e discussão. Portanto, podemos compreender que quem procura o conselheiro Filosófico não está à procura de terapia e sim de diálogo reflexivo.
Quanto a Filosofia Clínica, esta foi assim denominada por seu criador    Lúcio Packter . Nos escritos de Packter não se encontra referência específica sobre a significação do termo. O que temos a esse respeito são algumas considerações de alguns filósofos clínicos em livros ou artigos publicados. Sobre a definição dada por Packter nos Cadernos de Filosofia Clínica Clínica, 1997, podemos afirmar que a mesma é:
a)  “O uso do conhecimento filosófico à psicoterapia.
b)  A atividade filosófica aplicada à terapia do indivíduo.
c)   As teorias filosóficas empregadas às possibilidades do ser humano enquanto se realiza por si mesmo.”
Ao considerarmos o significado da palavra Filosofia como atividade reflexiva e não como um saber que busca as causas, os princípios, os primeiros fundamentos e o conhecimento conceitual, poderemos considerar válida a denominação dada por Packter para a sua Filosofia. E concordando com a Filósofa e Filósofa Clínica Monica Aiub:
“Consideramos a filosofia como uma atitude de refletir (de maneira sistemática, fundamentada, contextualizada) sobre as questões que nos surgem no cotidiano. Essa reflexão tem como base o conhecimento produzido pela humanidade e como finalidade encontrar formas para lidar melhor com os problemas. É um pensar e re-pensar sobre questões que vão desde a condição humana, o mundo que nos rodeia, nossas relações, nossa existência, até nossas vivências mais singulares. (Aiub, 2004.)”
A filósofa nos alerta que na Filosofia Clínica a Filosofia empregada deve ser, de maneira sistemática, fundamentada, contextualizada”, o que nos sugere que há na Filosofia Clínica uma metodologia de aplicação que nos orienta a forma de reflexão a ser utilizada em clínica. Isso seria válido? No meu entendimento sim, pois Packter, assim como outros filósofos atribui à sua Filosofia não só um método para a reflexão, mas uma própria definição e conceituação. Mas, e quanto ao termo clínica?
O termo clínica, na atualidade, é definido pelos dicionaristas como um termo médico. Ou seja, é toda atividade médica que envolve o diagnóstico e o tratamento de doenças. O trabalho típico do médico clínico ocorre em ambulatórios, enfermarias, consultórios, hospitais, e por isso os médicos costumam ser diferenciados em clínicos e cirurgiões. O termo também se aplica às atividades de outros profissionais de saúde nos limites de suas competências, como por exemplo, psicólogos, odontólogos, bomédicos entre outros. Porém, direciono esta pesquisa, - a origem do conceito de Clínica, utilizado por Packter para a Filosofia Clínica - para outro mote.
A palavra clínica[ii] etimologicamente vem do grego klino, (substantivo masculino) que significa leito ou repouso, e klinikós, (adjetivo), que significa objetivo, analítico, que envolve ou se baseia na observação direta do paciente. É essa definição de clínica, advinda do adjetivo Klinikós, que acredito ser a mais adequada para a composição Filosofia Clínica. Contido, acredito que ainda surgirão muitas definições e conceituações tanto para a palavra Filosofia, quanto para o conceito Filosofia, portanto a discussão permanece em aberto sem admitir qualquer definição como absoluta ou definitiva.
Ao admitir que Packter utilizou o termo clínica, no sentido de adjetivar a Filosofia criada por ele, poderíamos então entender que a filosofia clínica é uma atividade filosófica que tem como objetivo a observação direta e analitica do partilhante. Entendendo como análise, o processo de decomposição de uma substância ou tópico complexo (incluindo aqui o Ser humano) em seus diversos elementos constituintes, a fim de se obter uma melhor compreensão sua.
Outra referência que podemos utilizar na compreensão do termo clínica  utilizado por Packter vem de Aiub:
“O termo clínica é compreendido no sentido proposto por Foucault (1994,1998), ao relatar o aparecimento da clínica médica como uma mudança de perspectiva: ao invés de enxergar a doença, focalizar a pessoa. A Filosofia Clínica é o espaço de interseção...(...) O foco da atenção não está no problema, no trauma, na doença, mas no individuo, no todo humano que é esse partilhante.(Aiub, 2004)”
Na obra citada por Aiub, Foucault identifica e discorre sobre o nascimento da clínica na França entre os Séculos XVIII e XIX. A mudança de paradigmas que se seguiram aos da revolução francesa, entre outros, como a necessidade de estudo das epidemias, contribuiriam para o estabelecimento da medicina como um campo do saber, criterioso e cada vez mais fundamentado na cientificidade. Foucault identifica o médico pré-revolução francesa, como aquele que possuí o olhar privilegiado. Esse olhar seria dotado da capacidade de discernir o tipo de doença, e conduzir ao possível tratamento. Ao se referir sobre a nova medicina do séc. XIX, o autor, cita a bipolaridade médica do normal e do patológico. Antes o médico concentrava-se na saúde do paciente, no sentir-se bem. Porém, depois da citada revolução, o médico especialista deveria tratar dos pacientes com os conceitos de normalidade e patologia. Assim, o médico adquiriu status de magistrado, vigilante da moral e da saúde pública. É nesse sentido que Aiub nos chama atenção para a “mudança de perspectiva”.    
Packter, assim como fez a medicina do séc. IX muda a perspectiva do olhar e da linguagem frente ao doente e a doença, frente a quem sofre e ao que causa sofrimento. A Filosofia Clínica de Packter resgata o conceito de clínica no sentido de trabalhar a pessoa e não apenas do que a incomoda.  Nunes e Pedrosa[iii] conciliam os conceitos explicitados anteriormente em seu Dicionário de Filosofia Clínica (2006) e, para as filósofas:
“Na acepção dada por Packter, nada tem a ver com a prática médica, nem com a psicologia. Clínica, aqui, tem o sentido de análise (da parte ao todo ou do todo às partes - no caso da Matemática Simbólica); tem o sentido de critica, aproximando ao mencionado por Kant, mas diferente por ser uma pesquisa que a EP do filósofo clínico realiza de si mesma ou de outra pessoa, ainda e talvez o principal sentido, pesquisa dos desdobramentos existenciais da pessoa".
De acordo com as autoras, Packter utiliza o termo clínica no sentido de análise. Dito isto, considero legitimo o uso dos termos Filosofia e Clínica que compõe o neologismo Filosofia Clínica. Porém ainda nos fica a questão de se a Filosofia pode ser clínica, ou seja, há uma ligação entre a Filosofia e a análise do indivíduo? De que forma pode ou não a atividade de reflexão ser terapêutica? No próximo segmento tento esclarecer de forma geral essas duas questões para que assim se possa ter uma compreensão maior da atividade filosófica como forma de elucidação e solução de problemas.
A Filosofia e suas ligações com a Terapia e a Medicina
Ao esclarecer o sentido do termo Filosofia, utilizado nas Filosofias Aplicadas e pela Filosofia Clínica, mostra-se interessante explicitar desde quando surge a ligação da Filosofia com a Terapia e a Medicina.
Como já citado, na Época Clássica a Filosofia surge da necessidade do homem em explicar os acontecimentos do mundo, das coisas e de sua própria existência. Com isso podemos entender que, uma reflexão radical da vida humana em toda sua circunstância pode ter caráter profilático, uma vez que ao fazermos essa reflexão sobre a existência, a mesma, muitas vezes, poderá nos servir de acalento, consolo para nossa alma.
Platão, filósofo grego, já atestava a característica terapêutica da Filosofia em sua obra Fedro. Vejamos um trecho do diálogo entre Sócrates e Fedro constante da obra Platônica traduzido por Alex Marins e editado pela Martin Claret, 2007, e que nos aponta tal característica:
Sócrates: - Com a arte retórica se passa mais ou menos a mesma coisa que com a medicina.
Fedro: - como?
Sócrates: - Deves pensar, naturalmente, que as duas artes são bem distintas pela natureza de seu objeto: uma se relaciona ao corpo, a outra com a alma. Tens de levar isso em conta se quiseres, não só pela prática e por regras empíricas, mas de acordo com a arte, uma dar saúde e força, ministrando remédios e alimentos, e outra infundir a convicção que desejas, tornando o homem virtuoso mediante discursos e argumentos legítimos.”
Ainda na mesma obra, Sócrates, através da maiêutica, leva Fedro a perceber que pela razão podemos encontrar os remédios para a alma e que:
“consistem em belos discursos que fazem nascer na alma a sabedoria. Quando a alma possui por uma vez a sabedoria e a conserva, é fácil então dar saúde à cabeça e ao corpo inteiro.”
Já no diálogo Timeu, Platão nos coloca a estreita ligação da Filosofia com a Medicina. Nessa obra o filósofo explicita o funcionamento de vários órgãos como, por exemplo, o coração, o fígado, o baço e os intestinos atrelando o funcionamento desses órgãos à alma. Segundo o artigo de Siqueira-Batista e   Schramm, Platão e a Medicina, 2004:
“Com base nestes aspectos anatomo-fisiológicos, Platão constrói sua fisiopatologia, distinguindo as doenças do corpo e da alma. As enfermidades somáticas podem ocorrer por desequilíbrio (1) dos seus elementos constitutivos - fogo, terra, ar e água; (2) por corrupção dos tecidos do corpo - a carne, os nervos, o sangue, os ossos e a medula; e (3) pelo ar e por humores - bile e flegma. (...) No tratado Da natureza do homem são descritos quatro humores constitutivos de todos os indivíduos - sangue, flegma, bile amarela e bile negra -, que, mantidos em equilíbrio, preservam o estado de saúde. Para o filósofo tais humores surgem a partir da decomposição dos tecidos, o que os torna nocivos, implicando, portanto a necessidade de que sejam eliminados para a perpetuação da sanidade.
Para Platão, as doenças da alma podem ser apreendidas como doenças morais, sendo genericamente chamadas de demência. Isto se dá devido a situações nas quais há um bloqueio na ação da alma racional que não consegue mais exercer domínio sobre a alma mortal. Ainda sobre o mesmo diálogo platônico, Timeu, um estudioso da obra platônica, Jacques Derrida [iv], na obra A Farmácia de Platão, 2005, nos adverte:
“No Timeu, a doença natural é comparada, como o logos no Fedro, a um organismo vivo que é preciso deixar se desenvolver segundo suas normas e suas formas próprias, seus ritmos e articulações específicas. Desviando o curso normal da doença o phármakon é, portanto, o inimigo do vivo em geral, seja ele são ou doente.”
O filósofo ateniense manifestou grande interesse por diferentes aspectos da Medicina e aprofundou suas investigações. Suas concepções médicas se articulam intimamente em todo corpo teórico de sua obra, e apresentam preocupações com as relações entre o cosmo e o homem, entre este a e polis, o corpo e a alma e, de certo modo, com o próprio binômio vida e morte. Derrida, mais uma vez, nos elucida na mesma obra, não só o significado das palavras, phármakon, paharmakeús e pharmakós, utilizadas por Platão, mas chama a atenção para possíveis traduções, que muitas vezes dispensam o sentido de remédio, mágico ou feiticeiro e, purificação respectivamente e que estão diretamente associados às práticas terapêuticas. Derrida nos afirma que esses significados são válidos e mostram como a filosofia estava ligada com a “cura” do corpo e da alma. Também podemos perceber como no artigo de Siqueira-Batista e Schramm, 2004 que:
“Há uma fecunda confluência de teorias médicas e filosóficas nos diálogos platônicos, como na idéia de saúde relacionada ao equilíbrio entre parte e todo e entre corpo e alma, cabendo ao tratamento um papel relevante no sentido de restabelecer a “crase” perdida, tal como se pode perceber nos fragmentos filosóficos (como em Alcméon) e nos tratados hipocráticos.”
Outra grande fonte de Filosofias profiláticas pode ser encontrada no período helenístico época em que a Grécia passa para o domínio da Macedônia com Filipe e Alexandre e, em seguida para o domínio de Roma. Com a invasão e imposição de uma nova forma de viver e pensar os helenistas fundaram o que chamamos mais comumente de filosofia dos Pórticos. Essas Filosofias tinham por objetivo ajudar o homem a viver melhor dentro de seu novo contexto e dentro dos limites das cidades Estados. Segundo a obra Filósofos e Terapeutas em torno da questão da cura, de Daniel Omar Perez, 2007, podemos perceber que:
“A prática da filosofia, antes de ser o exercício do comentador de livros, era a criação de um modo de ser. (...) Como uma medicina contra o mal-estar de uma existência desagradável, buscavam praticar uma série de exercícios físicos e espirituais que os levassem a recriar sua vida cotidiana...”
Ou seja, algumas das doutrinas filosóficas da época eram terapêuticas. Dentre as mais conhecidas podemos citar o Epicurismo, o Estoicismo, e o Ceticismo.
O Epicurismo é o sistema filosófico ensinado por Epicuro de Samos, filósofo ateniense do século IV a.C., e seguido depois por outros filósofos, chamados epicuristas. O filósofo propôs uma vida de contínuo prazer como chave para a felicidade, esse era o objetivo de seus ensinamentos morais. Para Epicuro, a presença do prazer era sinônimo de ausência de dor, ou de qualquer tipo de aflição: a fome, a abstenção sexual, o aborrecimento, etc.
Em linhas gerais a finalidade da filosofia de Epicuro não era teórica, mas sim bastante prática, ou seja, de caráter profilática. Nela se buscava, sobretudo, encontrar o sossego necessário para uma vida feliz e aprazível, na qual os temores perante o destino, os deuses ou a morte estavam definitivamente eliminados. Para isso fundamentava-se em uma teoria do conhecimento empirista, em uma física atomista e em uma ética hedonista. Os pontos fundamentais do Epicurismo eram que para ser feliz o homem necessitava de três coisas: Liberdade, Amizade e Tempo para meditar.
O Estoicismo foi fundado no século III a.C. por Zenão de Cítio e é uma doutrina filosófica que considera que todo o universo é corpóreo e governado por um Logos divino. A alma está identificada com este princípio divino, como parte de um todo ao qual pertence. É este lógos, ou razão universal que ordena todas as coisas: tudo surge a partir dele e de acordo com ele, graças a ele o mundo é um kosmos ("harmonia"). A partir disso surge uma postura ética: deve-se viver conforme a natureza - sendo a natureza essencialmente o logos, é uma prescrição para se viver de acordo com a razão. E a razão é o meio pelo qual o homem torna-se livre e feliz, o homem que sabe viver não apreende o seu verdadeiro bem nos objetos externos, mas usando estes objetos com sabedoria pela qual não se deixa escravizar pelas paixões e pelas coisas externas. Estóico é aquele que revela fortaleza de ânimo e austeridade. Impassível; imperturbável; insensível, aquele que chega a ataraxia. Ou seja, podemos também ressaltar o caráter prático do Estoicismo e sua profilaxia.
A palavra Ceticismo deriva do verbo sképtomai, que significa observar atentamente, examinar, refletir. Esta é a atitude própria do filósofo cético, que se abstém de formular juízos acerca da realidade, mantendo-se em permanente estado de indagação, ao invés de prontamente pronunciar-se ou decidir sobre algo. Mais que uma “escola” cética de caráter unitário, o ceticismo surge na história da filosofia como uma tendência ou orientação de pensamento.
O fundador do Ceticismo foi o grego Pirro (final do IV séc. a.C.). Mas o ceticismo grego é conhecido, principalmente, pelo testemunho dado por Sexto Empírico. Que afirma ser o Ceticismo uma filosofia de critério baseado na vida, na experiência e no fenômeno. Como diz o próprio Sexto Empírico na obra   Hypotyposes Pirrônicas, III, 179: “o fogo, que por essência queima, causa a cada um a representação de ser quente”. Ou seja, o Ceticismo também se propunha a ser uma filosofia de caráter prático. A filosofia Cética ou Ceticismo tem seu princípio na esperança de se alcançar a serenidade (ataraxia). Manifesta-se, basicamente, como uma atitude determinada frente ao problema do conhecimento. Mas, para o Cético, a realidade é, por sua natureza instável e cambiante, incognoscível, não sendo possível encontrar um critério de verdade ou manifestar certezas a seu respeito.
O cético não dogmatiza no sentido em que alguns definem o dogma como a aprovação comum de uma coisa. O cético não rejeita as impressões impostas pelas sensações. Quando, por exemplo, sente frio ou calor, não exprime uma dúvida sobre o que está sentindo. Porém, não dogmatiza no sentido em que se define o dogma como a concordância com alguma coisa sujeita ainda à investigação da ciência. Os céticos são aqueles que diante dos fatos tornam-se zetéticos (investigadores) e aporéticos (perplexos) e permanecem constantemente em exame, nem afirmam nem negam qualquer fato. O problema fundamental e que norteia a Filosofia Cética é a questão da felicidade. Como pode o homem ser feliz? A sua busca é direcionada a uma autarquia, uma autonomia em relação à felicidade de sua vida, de sua existência. Propõe, então, uma filosofia terapêutica, de tratamento, de cuidado com a alma (psique). A atitude cética diante dos fatos da vida é a única que pode levar o homem à tranquilidade (eudaimonia). Outras filosofias, além das citadas, também surgiram e tiveram como fio condutor uma ‘receita’ de como viver melhor. Propondo para o homem da época um modo de ser que o conduzisse à felicidade.
Entretanto, na Grécia Antiga, a partir das práticas religiosas do culto de Asclépios, é que surge, com Hipócrates a primeira observação objetiva dos fenômenos patológicos. Historicamente o filósofo Hipócrates (Cós, 460 – Tessália, 377 a.C.) é considerado como o pai de Medicina. Este, era um asclepíade, isto é, membro de uma família que durante várias gerações praticara os cuidados em saúde.
“Hipocrates, o pai de medicina, declarava que existiam dois tipo de tratamento. Um para os escravos e outro para os homens livres. A medicina dos escravos era reparatória, curava aquilo que era indispensável para que o homem voltasse ao trabalho. A medicina dos homens livres era preventiva e se exercia como modo de vida. (Perez, 2007)“
Segundo os fundamentos Hipocráticos, só é possível de se ministrar um regime médico conhecendo a fundo a natureza humana. Porém Hipócrates afirmava que não era somente a Filosofia que forneceria esse conhecimento, mas também a Medicina. O médico deveria estudar o homem e seus relacionamento com os alimentos, bebidas e hábitos, pois acreditava ele, que cada natureza funcionava de forma específica. Porém, seus discípulos  não separavam a Filosofia da Medicina, pois a primeira se encontra imbricada com a segunda e vice –versa.
Na obra Paidéia – a educação do homem grego, escrita pelo educador e filósofo Werner Jaeger, 2001, também encontramos referências seguras sobre a relação da Filosofia com a Medicina. Paidéia é uma palavra grega cujo significado refere-se à prática educativa e à formação cultural do cidadão da polis grega. Remete à ideia de educação ligada aos conteúdos da cultura, das práticas corporais e artísticas, entre outros aspectos que configuram a formação contemporânea dos professores de Artes e Educação Física. Embora o foco de Jaeger seja a educação, e sua obra seja de caráter pedagógico, nela podemos encontrar apontamentos importantes sobre o tema aqui abordado. Vejamos um pequeno trecho:
“A medicina jamais teria conseguido chegar a ciência, sem as investigações dos primeiros filósofos jônicos da natureza, que procuravam uma explicação natural para todos os fenômenos... (...) mas forma os médicos gregos, disciplinados pelo conceito de lei dos filósofos seus precursores, os primeiros a serem capazes de criar um sistema teórico que pudesse servir de base de sustentação a um movimento cientifico. (Jaeger, 2001).”
Ou seja, para Jaeger, a medicina se desenvolve a partir dos pensamentos e teorias filosóficas a acerca do homem e suas enfermidades. A visão da enfermidade na Grécia Antiga estava ligada diretamente ao homem. É o homem quem adoece e a doença é parte dele. Portanto, Jaeger destaca o pensamento de Hipócrates apontado na obra “Da Medicina Antiga”:
“As doenças não são consideradas isoladamente e como um problema especial, mas é o homem vitima da enfermidade, com toda a natureza que o rodeia, com todas as leis universais que a regem e com a qualidade individual dele, que o autor se fixa com segura visão. (Jaeger, 2001, p. 161)”
A obra, Da Medicina Antiga, é considerada por muitos pensadores como o primeiro livro da coleção hipocrática, além de tido por tantos outros como a mais importante. Nela, Hipócrates critica o racionalismo a priori e propõe seu método traçando a origem e evolução da medicina. Segundo Sebastião Silva Gusmão, em seu artigo História  da  Medicina: Evolução e Importância, 2009.
 “A crítica é dirigida contra aqueles que, partindo inicialmente de uma hipótese, derivam dela uma causa única para todas as doenças. Da mesma forma como os filósofos pré-socráticos partiam de um pequeno número de elementos fundamentais para explicar a diversidade do mundo, muitos médicos do século V a.C. pretendiam fundar a arte da medicina sobre um ou dois princípios que sistematizam toda a patologia. Assim, Hipócrates critica a medicina “filosófica” e afirma a autonomia da arte médica em relação à filosofia.”
Apesar da critica hipocrática à Medicina Filosófica a ligação entre a Filosofia e a Medicina é irrefutável. E de acordo com Jaeger:
“Segundo Platão, o médico é o homem que, baseado no que sabe sobre a natureza do homem são, conhece também o contrário deste, ou seja, o homem enfermo, e portanto sabe encontrar os meios e os caminhos para restituí-lo ao estado normal.(Jaeger, 2001)”
Podemos considerar que na  Grécia Antiga, a visão onde corpo e alma, natureza e sociedade, eram um todo inseparável e, para se ser considerado um médico era necessário também ser um filósofo, um profundo conhecedor da natureza humana. 
Dessa forma, retomando a íntima relação da Filosofia com a Terapia e com a Medicina e também recorrendo à uma das funções primeiras da Filosofia – encontrar o equilíbrio tanto do corpo quanto da mente – é que, consideramos não só como válidas, as filosofias aplicadas emergentes nas últimas décadas, como também necessária a atitude filosófica (reflexiva) nos dias atuais.
 A Filosofia Prática de Gerd Achenbach
Historicamente se diz que a Filosofia Prática começou em 1981 quando o Dr. Gerd Achenbach abriu o primeiro consultório filosófico perto de Cologne, na Alemanha. Porém, segundo o Conselheiro Filosófico Português Jorge Dias:
“Apesar deste dado oficial, existem informações de que em 1967, John Van abriu uma consulta com metodologias, competências e conteúdos claramente filosóficos. Louis Marinoff refere que Paul Sharkey, em 1974, trabalhava como Conselheiro Filosófico, e que, em 1979 lhe foi concedida a categoria de ‘Filósofo residente’ no Forrest Country General Hospital. contudo, não sabemos bem se Paul Sharkey utilizava o Aconselhamento Filosófico tal como o entendemos hoje ou se enriquecia a sua Medicina Clínica com as Abordagens do Aconselhamento Filosófico. (Jorge Dias, 2006)”
De qualquer forma a história elegeu Gerd Achenbach como o fundador do     Aconselhamento Filosófico. No Brasil ainda temos pouca informação sobre seu trabalho e o que conhecemos desse filósofo prático é através de comentadores. Sua principal obra Philosophisce Praxis, 1984, ainda não tem tradução para o português. Os trabalhos do filósofo são vários, mas por não terem características acadêmicas, ainda não foram todos publicados. Gerd B. Achenbach nasceu em 11 de fevereiro de 1947 em Helms na Alemanha. Doutorou-se em Filosofia em 1981 na Universidade de Giessen defendendo a tese “O prazer e a necessidade”. Segundo Marc Sautet, em sua obra Um café para Sócrates,1999:
“Doutor em filosofia, mas convencido de que tinha coisa melhor a fazer do que perpetuar a tradição da filosofia universitária e seus eternos “seminários” para conhecedores instalou sua praxis (esse é o termo alemão) perto de Colônia, em Bergisch-Gladbach. Surpreso por ver os filósofos profissionais passarem sistematicamente ao largo daquilo que concerne à maioria dos seres humanos, ele apostou em restituir ao exercício da filosofia um impacto pelo menos igual ao das ciências humanas, em particular a psicologia. Retomando a seu modo a figura de Édipo como aquele que quer chegar à verdade a qualquer preço, Achenbach propôs um método de entrevistas particulares ao longo das quais a filosofia recuperou seu direito de cidadania.“
Hoje, juntamente com o filósofo e professor de História Cultural, Thomas Macho, Achenbach dirige a Akademie Philosophische Praxis und Wirtschaft, em Bergisch-Gladbach na Alemanha. Lá ministra aulas no curso de formação de conselheiros filosóficos.  A forma como o curso é conduzido e o modo de avaliação para a certificação dos conselheiros é sem exame. E de acordo com Dias:
“O processo formativo dos Conselheiros não supõe a memorização das fases de um sistema particular, mas a maturação de um conhecimento filosófico. Não interessa a Achenbach formar historiadores da Filosofia, pois não se pretende que memorizem teorias sem relação com suas existências particulares. Pretende-se que os Conselheiros aprendam a pensar e a ajudar os outros a fazê-lo também, e da melhor forma possível. Assim, através do pensamento conseguirão ajudar os seus clientes, assim como atravésdo diálogo e da clarificação.”
(...) O Instituto dirigido por Gerd Achenbach e Thomas Macho é mais uam espécie de discipulado do que umplano curricular estruturado. A formação só termina quando existir um no especialista uma determinada maturidade e sabedoria prárica.(Jorge Dias, 2006)”
Por não ter uma metodologia, fundamentada nos moldes acadêmicos, tanto na formação de conselheiros como para o atendimento em consultório, Achenbach foi muito criticado e, muitas vezes teve sua Filosofia Prática comparada com a Logoterapia e com a Homeopatia. A Logoterapia é considerada e elaborada como uma terapia centrada no sentido. Vê o homem como um ser orientado para o sentido. Já a Homeopatia percebe o homem a partir da perspectiva holística. Para muitos o pensamento de Achenbach é próximo das linhas dessas duas áreas. No entanto, o filósofo foi o primeiro a questionar a psiquiatria e a psicologia por ambas utilizarem filosofia em seus métodos e a própria filosofia não. 
“Condição sine qua non: não sobrecarregar o discurso de conceitos inacessíveis aos comuns mortais e não desprezar o bom senso; deixar surgir a experiência pessoal, até favorecendo sua evocação, e incentivar o 'cliente’ a se aventurar por terras desconhecidas, utilizando ao máximo a linguagem que lhe é familiar.  que equivale a dizer que, nessas entrevistas, o filósofo escuta mais do que fala e só introduz referências para fazer seu interlocutor progredir em seu próprio ritmo.(Sautet, 1999)”
O filósofo Achenbach fez inúmeras críticas a muitos psicoterapeutas, e também a alguns filósofos, por imaginarem realidades secundárias, ilusórias ou paralelas ao interpretarem as queixas ou os problemas, trazidos pelo cliente, exclusivamente por uma teoria específica, como por exemplo, “a interpretação dinâmica sexual da alma a partir de Freud, ou uma abordagem  Heidegariana, Sartreana, Platônica ou de outras abordagens. (Sautet, 1999)” Logo, podemos entender que se o filósofo fosse existencialista, direcionava a consulta por esse mote. Se o analista fosse mais voltado para as questões gestálticas, a abordagem de aconselhamento era inteiramente outra. Para muitos filósofos cristãos, o direcionamento era todo voltado para o mote religioso e assim por diante.
Em linhas gerais a Filosofia Prática, consistia no seguinte: quando a pessoa procura o filósofo prático, por causa de momentos de decepções, experiências inesperadas, relacionamentos conflituosos com outros seres humanos, ou porque não quer passar pela vida sem descobrir seu sentido maior, a livre discussão filosófica, baseada na empatia, é uma maneira de se alcançar novos discernimentos, seja de si mesmo, seja da vida com um todo. De acordo com a Filósofa Prática Israelense, Dra. Shlomit C. Schuster, em seu artigo As Palavras de Sartre - como um paradigma para a autodescrição em Filosofia de Aconselhamento (1997):
“Na prática e aconselhamento filosóficos, a hermenêutica ou interpretação não é a revelação de verdades científicas como base da comunicação (Unterlegen). Pelo contrário, existe um processo dialético no qual o filósofo toma o problema em mãos, não através da aplicação de uma determinada filosofia ao problema, mas ao dar ao cliente um fresco  impulso auto-explanatório (Auslegen). Aí acontece a hermenêutica.“
Porém, segundo o filósofo Jorge Dias (2006) a postura de Achenbach, no que se refere Psicologia, é de que: “o problema da Psicologia foi ter atribuído soluções universais para problemas particulares.”  Por isso sua Filosofia Prática não parte de um conceito predeterminado, ou com uma proposta de procedimentos pronta a se seguida. Sua prática filosófica esta pautada em sete pontos fundamentais, a saber: 1) o conselheiro filosófico não aborda os visitantes todos da mesma forma, ou seja, não utiliza teorias ou doutrinas filosóficas predeterminadas e sim, desenvolve a que melhor se encaixar ao visitante. 2) Trabalha no sentido de ajudar ao visitante em sua melhor compreensão e naquilo que deseja compreender. 3) O conselheiro deve ter uma compreensão profunda do problema levado pelo visitante. 4) O conselheiro não deve mudar o visitante e deve evitar todas as finalidades pré-estabelecidas. 5) O conselheiro deve ampliar a visão de mundo do visitante para que o mesmo possa escolher o seu caminho. O filósofo deve inserir a questão trazida pelo visitante num plano de compreensão geral. 6) O conselheiro pode ajudar o visitante sugerindo sinais para que este possa se orientar e não dizer o que ele deve fazer. 7) “O aconselhamento filosófico é comparado a uma elipse constituída pela união de duas circunferências, a do cliente e a do conselheiro.”  No espaço de união dessas duas circunferências é que se dá a consulta filosófica.   
A prática de Achenbach também sugere que, se necessário o conselheiro encaminhe o visitante ao psiquiatra para que possa lhe ser receitado algum medicamento. Porém objetivo final da Filosofia Prática é que o visitante desenvolva pensamentos críticos e assim se tornar capaz de refletir sobre seus próprios problemas e estabelecer ele mesmo, suas metas e métodos.
O trabalho de Achenbach baseia-se na ideia de que não existe uma teoria que seja capaz de explicar todos os tipos de comportamento. Aliás cada cliente é um mundo que exigiria um tratamento diferenciado e diferencial. “
Essa ideia do filósofo alemão se assenta no fato de que as Terapias Psicológicas, desde a segunda metade do Séc. XX se multiplicaram gerando múltiplas escolas com técnicas e teorias diferentes, inúmeras vezes não se adequando a todos os casos o que as tornaria ineficiente. Outro fator levado em conta foram os resultados práticos que não apresentavam diferenças significativas. Além das questões sócio-políticas e seu entorno.
A Prática Filosófica de Achenbach não estava inteiramente sistematizada o que a deixava no âmbito da dúvida sem resposta e isso representou para Packter, segundo o Filósofo Clínico Marcio de Faria, em palestra proferida em 2004: “...uma torre de babel, e como afirma Packter, não havia um método firme. O movimento, então, começou a naufragar.” Entretanto, a filosofia proposta por Achenbach, no inicio dos anos oitenta, de certa forma, resgata a atividade filosófica. Ou seja, apresenta-se como uma possível reflexão a cerca do mundo, das coisas e das pessoas em todo o seu universo de circunstâncias e situações cotidianas colocando novamente a Filosofia no âmbito da utilidade prática.
A Filosofia de Aconselhamento de Lou Marinoff
Na atualidade o Aconselhamento Filosófico ou a Filosofia Prática que é referência nos Estados Unidos é a de Lou Marinoff.  Sua Filosofia conta com inúmeros adeptos, não só nos EUA, mas no mundo todo, e consultórios de aconselhamento filosóficos já são muito procurados nos países europeus. Segundo Aiub, 2004:
“Considerando, é claro, toda uma construção histórica do conhecimento filosófico, que é a base dessa reflexão, contamos com as contribuições de pensadores de todos os tempos, aplicando seus conhecimentos às situações pertinentes e, quando necessário, construindo um novo conhecimento a partir do já pensado.”
Canadense, nascido em 1952, Lou Marinoff é doutor em Filosofia da Ciência, pela Universidade de Londres, professor de Filosofia no City College em Nova York, é o criador do movimento de Aconselhamento Filosófico sistematizado, prática que desenvolve desde 1994. Fixou-se nos Estados Unidos onde fundou em 1999 a da APPA - American Philosophical Practitioners Association  que já reúne mais de 500 filósofos no mundo.[v] Autor do livro Mais Platão, Menos Prozac (1999), grande sucesso no mundo literário filosófico, e dos livros Pergunte a Platão(2003), O caminho do meio – como encontrar a felicidade (2007) e As grandes questões da vida (2005).
 Suas obras de filosofia prática, abordam questões do cotidiano e explicitam sua metodologia de trabalho com exemplos e estudos de casos. As obras do filósofo destinam-se às pessoas que sentem algum mal estar, algum tipo de sofrimento, tão comum na maioria das pessoas, mas que não são necessariamente aquelas em que se é imperativo a procura de um analista.  Para muitos a sua obra é considerada de cabeceira, ou seja, obra para ser consultada no dia a dia. Lendo-as, poderemos reconhecer pontos comuns entre as grandes correntes filosóficas, e de pensamento. Segundo Marinoff, em entrevista concedida a Tânia Nogueira (Revista Época, no. 366) , quando de sua passagem pelo Brasil em 2005:
“A idéia principal é fazermos um diálogo, como Sócrates ensinava. Algumas vezes, os clientes querem ler a respeito de um filósofo, e nós indicamos. É realmente um centro de educação. Não é médico nem psicológico. A pessoa aprende a descobrir que tipo de filósofo ela é e que tipo de filosofia pode ajudá-la a melhorar sua vida.”
Ao estudar um pouco mais de sua obra referência, Mais Platão, menos Prozac, entendi que para o Dr. Marinoff, pensador da Filosofia de Aconselhamento, todas as pessoas tem uma filosofia de vida, mesmo que não sejam cientes de que se seja uma filosofia. Ele parte do principio que é necessário que raciocinemos sobre as complexidades de nossas vidas e que devemos pensar criticamente para viver melhor. Pois, segundo ele: “compreender a nossa filosofia pessoal pode ajudar a evitar, resolver ou administrar muitos problemas (Marinoff, 2004)”. O filósofo utiliza como “ferramenta” de trabalho textos filosóficos de inúmeros autores clássicos, modernos e contemporâneos e também textos de doutrinas religiosas e até mesmo políticas. Com isso, em minha compreensão, Marinoff acaba por encaixar uma teoria, uma doutrina religiosa ou uma corrente de pensamento, ao problema levado pelo cliente. O método de aconselhamento filosófico individual, utilizado pelo Dr. Lou Marinoff é o método PEACE. A tradução da palavra peace do inglês para o português significa paz, sossego, tranqüilidade. O método PEACE constitui-se de cinco passos, são eles: P = PROBLEMAconsiste em saber o que está incomodando, atrapalhando a tranqüilidade ou a paz da pessoa. Isso ela mesma deve dizer ao conselheiro.  E = EMOÇÕES - diz respeito ao que a pessoa está sentindo em relação ao que está lhe incomodando. São as sensações e sentimentos que ela tem em relação ao problema que a aflige. Neste passo a pessoa deve, auxiliada pelo conselheiro, canalizar suas emoções de dor, raiva, medo, angústia, de maneira construtiva embora o autor afirme que você “terá um bocado de trabalho até que chegue a uma conclusão”,  porém ele não exemplifica como isso é possível. A = ANÁLISE - consiste no paciente listar e avaliar as soluções para resolução da problemática. Marinoff reitera que ao tomar a decisão com bases na análise, a pessoa estará resolvendo não só as questões externas do problema, mas também as internas, ou seja, as emoções que sente em relação ao caso. C = CONTEMPLAÇÃO - é a integração dos passos anteriores. Cada um deles foi feito em separado e agora nesta fase terão de ser integrados. A partir da contemplação a pessoa se encontra apta a considerar sistemas e métodos dos filósofos para lidar com sua questão e não só de forma fragmentada, mas de forma unificada. E = EQUILÍBRIO - é alcançado quando a pessoa identifica a ação a ser tomada, tendo como fundamento para ela os sistemas e doutrinas estudadas e discutidas durante o passo quatro do processo.
A metodologia da Filosofia de Aconselhamento de Marinoff, segundo minha percepção, não obstante parecer ser eficiente é excludente. Pessoas com pouca cultura filosófica, dificuldade de leitura como fatores visuais, por exemplo, além de crianças, não são indicadas para esse tipo de terapia, pois as filosofias, doutrinas religiosas ou políticas são, muitas vezes, densas e complexas. Pessoas com questões existenciais, como por exemplo, desconfortos vivenciados durante a infância, também podem não encontrar apoio no aconselhamento de Marinoff, visto que ele acredita que os fatos do passado não podem ser mudados. Essa afirmação deixa uma brecha para se cogitar que este tipo de incomodo, se abordado pelo cliente, não será levado em conta pelo conselheiro filosófico. Conclui-se que é um aconselhamento para questões imediatas e para quem se dispõe a ler, discutir, refletir e seguir uma filosofia, ou doutrina específica.
O foco do aconselhamento filosófico é o agora – e planejar o futuro -, e não o passado, como em grande parte da psicoterapia tradicional. Outra diferença é que o aconselhamento filosófico tende a ser breve. (...) É o diálogo, a troca de ideias, que é terapêutico. (p. 24)”
Podemos de maneira geral concordar com Marinoff quando este nos diz que o diálogo é terapêutico. Porém, devemos nos lembrar que dialogar, para muitos, é um exercício difícil de ser colocado em prática já que compreende a troca de ideias e, muitas vezes a pessoa que procura o conselheiro, com algum mal estar existencial, não tem a menor ideia daquilo que está vivenciando, ou mesmo sabe por que procurou um atendimento filosófico. Porém, poderão se beneficiar do Aconselhamento Filosófico todas as pessoas que, sendo capazes de pensar racionalmente, desejam recorrer a esse modo de pensamento para ampliarem a sua compreensão de um problema ou da questão que as afetam, ou que, simplesmente, desejam se conhecer melhor.
Para quem tem dúvidas acerca desta prática, é importante esclarecer que o aconselhamento filosófico não é classificado como uma técnica terapêutica, mas um processo complementar, uma tentativa de ajudar “pessoas normais a resolver problemas normais”, ou seja, é uma forma de criar um espaço livre onde as pessoas usam a filosofia para desenvolver os seus próprios pensamentos em temas do seu interesse, ou seja, é segundo o próprio Marinoff, (1999) uma terapia para pessoas saudáveis.
A Filosofia Prática de Tim Lebon
Psicoterapeuta, instrutor, conselheiro filosófico, escritor e tutor estabelecido no centro de Londres, sua especialidade é o atendimento a pessoas com falta de objetivo na vida, indecisões, questões emocionais de estresse e relacionamentos. Estudou filosofia nas universidades de Oxford e Londres. É professor de psicologia, psicoterapia e consultoria. É o autor do livro Wise Terapia: Filosofia de Conselheiros (A escola de Psicoterapia e Aconselhamento), 2001, sem tradução para o português e, escreveu vários artigos sobre desenvolvimento pessoal (incluindo A vida de trabalho em equilíbrio, A tomada de decisão e Encontrar maior significado na vida). A obra de LeBon de maior destaque é sem dúvida Wise Teraphy, pois nela LeBon trabalha a Filosofia para Conselheiros (subtítulo da obra), onde intenta abarcar todos os profissionais de Aconselhamento das diversas áreas de atuação, já que acreditava que qualquer decisão que se deva tomar na vida passa pela física, lógica e ética.
Mas talvez seja essa característica que levará o método de Tim LeBon a ser mais eficaz, quer na prática, quer na credibilidade da disciplina perante o grande público, quer ainda no processo de formação do Conselheiro Filosófico.“    (Dias, 2006 p.190) 
Além disso, Dias destaca que na obra Wise Teraphy, LeBon apresenta os fundamentos do Aconselhamento Filosófico e, nos mostra os quais servem de “ferramentas” para a elaboração de uma caixa de instrumentos (toolbox) para serem utilizadas pelo conselheiro. No livro do filósofo inglês também estão explicitadas as bases de sua metodologia que não abrange somente os saberes filosóficos, mas também saberes de outras áreas de aconselhamento.
O pouco que podemos conhecer de Tim LeBon é através de poucos comentadores ou de seu sitio na internet, além de suas obras em língua inglesa. Para Dias (2006) o Aconselhamento Filosófico de LeBon é:
“Um processo interactivo que leva o cliente a reflectir sobre uma das seguintes questões: o seu comportamento; os seus conceitos; os seus valores; as suas crenças e emoções. Nesse âmbito, o Conselheiro pretende ‘sugerir uma determinada reflexão’ no cliente, e o apoio é dado no sentido de o tornar autônomo, responsável, consciente, e mais livre.” 
Segundo o que nos diz Dias, para LeBon, pensar no problema por vários ângulos e conjeturar sobre o mesmo em várias situações e circunstâncias é pensar de forma filosófica. Esse modo de perceber os problemas e as questões trazidas pelo cliente é tido muitas vezes como uma técnica terapêutica. LeBon acredita que a filosofia, ao refletir sobre os problemas e ampliar os horizontes tornando-os mais compreensíveis e conscientes podem melhorar a vida e o comportamento das pessoas. Contudo, não se caracteriza como uma técnica terapêutica, pois não tem como objetivo resolver problemas como ansiedade, depressão, stress, traumas ou transtornos afetivos de qualquer natureza.
De acordo com Dias (2006) os pressupostos filosóficos, aqui apenas enumerados, encontrados em LeBon são aos seguintes: 1) pensamento crítico; 2) Análise conceitual; 3) Experiências de pensamento; 4) pensamento criativo.  No âmbito da Ética considera que existem duas maneiras de se tomarem decisões, sejam elas, emotivistas (que dependem de sentimentos e paixões) e relativistas (que dependem de argumentos válidos). Então quais seriam para ele os critérios a serem seguidos numa tomada de decisão? Destacamos com Dias (2006) que para se alcançar a objetividade nos valores nas tomadas de decisão é preciso racionalidade e informação. Logo seus critérios são: “autenticidade (...) aceitabilidade (...) relevância (...) força. (Dias 2006 p 1945).“
Ainda na mesma obra LeBon apresenta três técnicas desenvolvidas e utilizadas em sua prática de aconselhamento, o método Charles Darwin, que ajuda na tomada de decisões por avaliação de prós e contras. O Procedimento de Valores Subjetivos Refinados (RSPV) é o que permite gerar uma listagem de valores de vida e eleger o mais adequado para nortear nossas ações. O método de preferências informadas é aquele que propicia tomar a decisão mais adequada tendo em vista o amplo conhecimento da questão e a racionalidade aplicada a ele. Já o Progress que é o mais utilizado pelo próprio LeBon merece destaque. Desenvolvido também por David Arnoud e Antonia Marcato, filósofos ainda pouco conhecidos, mas companheiros de jornada filosófica de LeBon, o método denominado Progress, é um procedimento para ajudar aqueles que desejam tomar um decisão sensata. O sucesso da aplicação do método reside em duas fontes, a primeira é que o conselheiro não pule nenhuma das etapas e que o aconselhado consiga fazer de forma satisfatória os exercícios que são de fundamental importância durante o decorrer do processo. De forma sucinta os passos do Progress são, a) primeira etapa - Compreender a situação e o problema - cabe ao aconselhado anotar primeiramente os mais importantes aspectos da situação que está enfrentando agora e como a vê; em segundo lugar anotar com a maior clareza possível o que é o problema e por que é um problema. Em terceiro anotar as idéias iniciais sobre as opções para lidar com a questão, ou seja, relacionar prós e contras. b) segunda etapa - Determinar o que tem importância - O exercício consiste na reposta de uma série de questões destinadas a permitir o aconselhado a analisar quais os valores tem importância a ele e se os mesmos podem representar uma solução sensata. Use these questions as a way of generating possible ideas.c) terceira etapa – Gerar e avaliar as opções. Nesta etapa o aconselhado deverá criar novos valores e possibilidades de avaliação nos valores já citados. d) quarta etapa – Desenvolver a melhor alternativa. Aqui, baseado nas informações colhidas anteriormente, o aconselhado, decide qual a melhor alternativa a ser seguida, ou seja, trabalhar de forma a efetivar e acompanhar sua decisão. Finally you need to commit yourself to carrying it out.
A metodologia proposta por Tim LeBon, em minha percepção, não se mostra plástica e sim fechada dentro de um esquema que deve ser seguido a risca. Apesar de nada ter sido colocado sobre o assunto, parece ser longa e de grande impacto psicológico, pois necessita grande dedicação do aconselhado em seus exercícios. No entanto, assim como ocorre com as outras Filosofia Práticas, ainda jovens e de formação não concluída, ganha adeptos por toda a Europa.
A Filosofia de Aconselhamento na Espanha
Seguindo linha a do Aconselhamento Filosófico de Lou Marinoff, temos como referência na Espanha o sevilliano José Barrientos Rastrojo. Filósofo e humanista, Rastrojo domina cinco idiomas conhece outros dois. É autor de dezenas de artigos em revistas especializadas de filosofia, entre as que destacam as de Orientação Filosófica e Artes. É membro do conselho editorial da revista ETOR e membro de uma associação de mesmo nome que:
“Desde el primer momento no se dudó de la Asociación no debía ser un círculo cerrado, sino que debía estar abierta a todas aquellas personas interesadas en ahondar en el estudio, investigación y análisis de la aplicación de la Filosofía, de la razón, a la resolución de los conflictos que la existencia, en toda su amplitud, plantea. (…) Dentro de la Asociación surgieron diversos grupos de trabajo para abordar tal finalidad desde perspectivas diferentes. Uno de estos grupos es ETOR (Educación Tratamiento y Orientación Racional) que aborda el estudio de la aplicación de la Filosofía a la vida desde la vertiente del sujeto y sus problemas.
        La tarea de ETOR se expresa del siguiente modo: Es un método de orientación filosófica, esencialmente fenomenológico y hermeneútico, que trata de resignificar y resituar la vida en conflicto, haciéndose cargo de sí, desde una perspectiva racional en el plano consciente, y de un modo conceptual no simbólico.(Barrientos, 2009)”      
Rastrojo também participou da organização do I Congreso Iberoamericano para o Aconselhamento e a orientação filosófica (primeiro em Espanhol). Foi o diretor do I International Sophia Retreat of Philosphy Contemplative (2005), diretor do 8th International Conference on Philosophical Practice (2006) e coordenador de FIACOF (Único Foro Internacional de Orientação Filosófica e Filosofia Prática em Espanhol). Portanto podemos deduzir que a principal colaboração de José Barrientos Rastrojo para a filosofia de Aconselhamento é a implantação da mesma em língua espanhola, o que conseqüentemente abriu as portas dessa prática filosófica em países de línguas anglo-saxônicas.
A Filosofia de Aconselhamento em Portugal
 Em Portugal podemos destacar o Filósofo Jorge Humberto Dias. Pertencente a nova geração de filósofos portugueses Dias é daqueles acreditam que a Filosofia deve estar presente em todas as dimensões da vida do homem, já que tem contribuído substancialmente desde a Idade Clássica, na real resolução de questões de ordem social, moral, pessoal, enfim as que dizem respeito a todo Ser Humano. Professor de Filosofia, formador e Consultor para a área Ética, o filósofo realiza sessões de Aconselhamento Filosófico Individual e foi especializado pela Society for Philosophy in Pratice – em Londres. Jorge Humberto Dias é autor do Manual de Formação de Consultores Filosóficos, Filosofia aplicada à vida - Pensar bem, viver melhor (2006), editou as Atas de IV Congressos da APAEF – Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico e escreveu vários artigos sobre o tema, como por exemplo, La Felicidad como Objetivo de la Filosofia Aplicada a la Vida (Grupo de Investigação da Universidade de Sevilha) e Os Alunos como Professores (Peer Instruction) na disciplina de Filosofia – O Ensino Prático da Autonomia (EPA). Fundador da APAEF em 2004, Jorge Dias é Formador de Professores e Consultor Filosófico em Portugal. Sobre seu trabalho ele mesmo afirma em entrevista concedida a Rolando Almeida (2008):
“PROJECT© é o nome do Gabinete de Consultoria Filosófica que criei há pouco tempo. A sua grande aposta é no serviço on-line, mas também na consulta personalizada, face-to-face, no meu Gabinete, em Quarteira. Fornecemos também Consultoria a Instituições, Acções de Formação para Professores, Supervisão de Consultores Filosóficos, Workshops Práticos intensivos sobre temas/problemas do mundo contemporâneo, etc. O nome do Gabinete não é original, foi inspirado no método PROJECT©, que criei e com o qual tenho ajudado algumas pessoas, adultos e jovens adolescentes. Trata-se de uma forma geral de trabalhar com o consultante, tendo como fundamento epistémico-ontológico (desculpem-me o peso da expressão, mas é a forma que considero mais eficaz para que os “filósofos”, sem formação especializada em Consultoria, me possam rapidamente compreender) a consideração do homem como «projecto fundamental» (Martin Heidegger, por exemplo). Por vezes as pessoas ficam a pensar que o método se baseia na seguinte ideia: ter uma pessoa com um projecto à sua frente. E a consultoria filosófica iria ajudar essa pessoa a construir o seu projecto. Meu comentário: também pode ser isso, mas a ideia é fazer perceber às pessoas que são elas o próprio projecto fundamental. E só depois de perceberem isso é que podem começar a trabalhar os seus outros projectos.”
O método elaborado por Dias tem cinco passos, a saber: 1) identificar projetos na vida do cliente; 2) analisar a estrutura de um projeto; 3) relacionar o projeto com a vida do cliente (valores e sentido); 4) agrupar projetos e definir aplicações; 5) reforçar a filosofia de vida do cliente. Dias entende como projeto a felicidade, “no sentido em que o próprio conceito de felicidade inclui, com condição sine qua non, o conceito de projecto. A felicidade é projecto. (Dias, 2006 p. 202)” O filósofo sistematizador do Project@, não percebe o homem senão como alguém lançado no mundo e que se projeta na sua especificidade e nas suas possibilidades. Dias capta uma das noções do Existencialismo [vi] onde o homem está sempre em devir, ou seja, é projeto.
 A Filosofia Clínica de Lúcio Packter
Lúcio Packter, de formação média e psiquiátrica é o sistematizador da Filosofia Clínica. É gaúcho natural de Porto Alegre, de tradicional família de médicos e cirurgiões, iniciou seus estudos no colégio marista em Criciúma –SC, posteriormente estudou em escolas do Rio de Janeiro e de Porto Alegre. Por ser ainda uma área do conhecimento ainda muito recente e em construção, na literatura da Filosofia Clínica não encontramos ainda, de modo sistemático, a trajetória de Packter. Os dados que se têm em relação à trajetória de construção da Filosofia Clínica derivam das experiências do próprio Packter relatadas em suas palestras, workshops, mini cursos, nos cadernos de Filosofia Clínica, livros (de sua autoria e de outros filósofos clínicos), com os quais tenho tido contato desde 2000.
Packter trabalhava em consultório quando percebeu que não se sentia satisfeito com a psicoterapia tradicional, pois a mesma ao direcionada pelo clínico não deixava que a pessoa se expressasse por ela mesma. Não encontrando respostas satisfatórias se afasta da clínica e parte em busca de pesquisas que pudessem fundamentar seus pensamentos e apaziguar suas dúvidas. Segundo Faria (2004):
“Uma colega, do hospital de Hedinburgo, sabendo de sua história, falou de experiências inovadoras em clínica que estavam ocorrendo em Hoterdam. Assim, Packter partiu para a Europa. Lá encontrou algo que iria mudar sua vida para sempre. Filósofos da academia, pessoas, professores, que usavam uma forma de análise que se chamava filosofia prática.”
Ao entrar em contato com a Filosofia Prática, Packter percebe que na Filosofia poderiam ser encontradas as respostas para as sua inquietações, no entanto, a Filosofia Prática, por não possuir um método claro e seguro, não é aproveitada por Packter, pois para ele a filosofia poderia ir mais além dos simples conselhos. E de acordo com Faria (2004) Porque tão pouco, se a filosofia é tão mais rica, questionava. Lúcio começa, então, a buscar na filosofia resposta para sua apreensão.”
De volta ao Brasil Lúcio inicia sua pesquisa ciente de que a Filosofia poderia sustentar uma nova forma de terapia, sistematizada e que fosse de fundamentada na pessoa.  A Filosofia Clínica se desenha, na década de 80 e na década de 90, seu sistematizador funda em Porto Alegre, o Instituto Packter (nome dado em homenagem ao avô paterno) e segundo Mariluze Ferreira[vii] (2004):
 “...desde essa época, após várias pesquisas concluídas e em andamento sobre Filosofia Clínica, passou a dar atendimento à comunidade, fazendo palestras, ministrando cursos, apresentando workshops e formando novos filósofos clínicos, a partir de cursos de especialização em Filosofia Clínica, já em expansão em todo o País.”
A Filosofia Clínica de Packter caracteriza-se por não utilizar conceitos a priori, não trabalhar com conceitos de normal ou patológico, trabalha cada pessoa como única em sua existência. Para Packter quem procura os serviços do filosofo clínico é denominado de partilhante e não de cliente ou paciente. A metodologia utilizada na filosofia Clínica possui três momentos distintos, a saber: 1) Colheita Categorial (que inclui a historicidade do partilhante e os Exames Categoriais); 2) Montagem da Estrutura de pensamento (que inclui a Autogenia e a analise da estrutura); 3) Identificação e aplicação de Submodos. Por ser a Filosofia Clínica o foco principal desta pesquisa a metodologia será explicitada em capítulos posteriores e em maiores detalhes. Porém, de forma geral e de acordo com Faria (2004):
“O funcionamento da filosofia clínica se dá através da história de vida da pessoa, o filósofo clínico recompõe existencialmente a pessoa colhendo todas as informações da sua vida, começando pelas recordações mais remotas que ela tem até as informações das suas vivências atuais. Esse material colhido constitui a base para o desenvolvimento do processo terapêutico. E, também, a Filosofia Clínica pressupõe a existência de uma Estrutura de Pensamento, singular e única para cada pessoa, que determina o modo como a pessoa está existencialmente no ambiente em que vive. Essa nova prática terapêutica identifica vários choques - conflitos, angústias, medos, culpas, depressões etc. – e esses choques se instalam na Estrutura de Pensamento com valores e determinações próprias e específicas, inerentes à pessoa humana. Acredita-se que algumas pessoas conseguem viver com problemas ou choques. Mas outras, os problemas causam profundas perturbações que podem até inviabilizá-las subjetivamente.”
Podemos concluir dizer que a Filosofia Clínica é um exercício filosófico nas questões existenciais do ser humano, é considerada, por muitos estudiosos, como uma ação fenomenológica e humanista, um procedimento clínico, uma atitude filosófica clínica realizada por pessoas especializadas em Filosofia Clínica. Nesse sentido podemos situar a Filosofia Clínica no contexto das Filosofias Aplicadas emergentes em finais do Séc. XX e início do Séc. XXI, tais como as Filosofias Práticas e de Aconselhamento, embora essas últimas não estejam situadas no âmbito terapêutico. Logo a Filosofia Clínica, em meu entendimento é mais que uma Filosofia Aplicada, é uma Filosofia Aplicada à terapia do individuo. Assim sendo, no próximo capítulo farei uma exposição da Filosofia Clínica elucidando sua definição, indicações e seus objetivos.

Filosofia Clínica: aspectos gerais da definição, indicações e           objetivos.
A Filosofia Clínica pode ser entendida como o uso do conhecimento filosófico voltado à terapia; é a atividade filosófica aplicada à terapia do indivíduo; “São atividades filosóficas aplicadas às possibilidades do ser humano enquanto se realiza por si mesmo”(Packter, 1997); é uma atividade terapêutica com a metodologia fundamentada nas teorias filosóficas desde os filósofos clássicos mais antigos até os contemporâneos. O objetivo da Filosofia Clínica, segundo Nichele Paulo, pode assim ser definido:
“Captar o que há de mais específico no indivíduo, conforme o que ele narra de si mesmo durante o processo de terapia; promover o cuidado do indivíduo consigo mesmo na consecução daqueles fins que terapeuticamente são compreendidos como mais satisfatórios a uma vida em transição; compreender como o indivíduo se estrutura e o que nesta estrutura é o seu mal-estar, o seu sofrimento.” (Paulo, 1999)
A Filosofia Clínica percebe o homem em sua singularidade. Acredita que cada pessoa é única em sua forma de ser e existir. Existência esta que se apresenta com inúmeras faces. Cada pessoa se organiza internamente de uma maneira, exterioriza suas emoções e conceitos de forma também única. Nas várias formas de expressividade das singularidades podemos encontrar infinitas estéticas, lógicas, éticas, entre tantas outras combinações que podem dar origem à formatação do Ser circunstanciado. Logo, segundo Packter:
“A Filosofia Clínica apresenta sentido somente quando relacionada à pessoa dentro de um exercício de psicoterapia.[viii] A explanação dos valores, a construção e a modificação das arquiteturas do saber, resultado de uma tarefa causal, tudo aqui está a um serviço.
           O saber, como aquisição da produção humana ou em sua origem divina, é projetado no objetivo: a pesquisa como influxo terapêutico.”(Packter, 1997,Caderno A p.3)
O que Packter quer nos dizer é que a Filosofia Clínica, embora possa ser estudada e pesquisada como disciplina acadêmica, o seu sentido primeiro é de ser uma Filosofia aplicada e, portanto toda e qualquer pesquisa e estudo, deve estar conectado, vinculado com a prática terapêutica. Isso se deve ao fato de que a mola mestra do exercício da Filosofia Clínica como atividade terapêutica é a historicidade do partilhante. Sem ela não há a possibilidade da clínica. Além disso, ainda segundo Packter (1997):
“A psicoterapia tem uma concepção anômala na versão filosófico clínica: a vivência da circunstância relacional objetivando remeter às pessoas envolvidas diferentes opções às questões por elas propostas; isso, com base nos procedimentos filosóficos clínicos.”
Ou seja, a Filosofia Clínica ao não se conformar com os modelos e técnicas das psicoterapias tradicionais, - as psicologias, a psicanálise, a hipnoterapia, a psicossomática, entre outras – cria seu próprio modelo em que o objetivo geral da terapia é dado pelo partilhante. As questões a serem trabalhadas na clínica filosófica são as trazidas pela pessoa e não as pré-estabelecidas na técnica ou no método de abordagem, como por exemplo, os das terapias tradicionais. Os procedimentos clínicos a serem tomados não se situam no parecer do terapeuta e sim nas questões identificadas que foram se desvelando durante o processo terapêutico e colhidos, retirados literalmente na historicidade da pessoa. Continua Packter:
“Especificamente, o filósofo situa-se entre as amizades de quem partilha uma trajetória de vida tendo-se nisso a busca de opções às problemáticas: nesse contexto, a psicoterapia praticada pela filosofia despreocupa-se primordialmente, como opção, com as curas médicas do estudo e da terapêutica das doenças mentais, embora possa existir coincidência.
A ideia de partilha é o que nomeia a pessoa que procura o Filósofo Clínico de partilhante. Por que partilhante? Porque ambos partilham a trajetória de vida buscando algo que aos dois seja comum: a busca da pessoa. A Filosofia Clínica não trabalha com tipologias com conceitos de cura médica, ou estereótipos de doenças mentais. Não há normal versus patológico, doente versus cura. A Filosofia Clínica trabalha para que a pessoa aprenda a lidar com ela mesma com seus problemas, situações e circunstâncias. Logo, estamos de acordo com Packter, (1997) quando ele diz que a clínica filosófica “localiza-se mais no âmbito da área educacional, enquanto filosofia.”
Assim sendo, a filosofia clínica é indicada em quais situações? Quem pode se beneficiar com a terapia filosófica? Segundo o sistematizador dessa abordagem terapêutica:
“A Filosofia Clínica é indicada a partir das psicologias, designada a lidar com questões metapsicológicas. Uma ilustração estaria em Sócrates, um dos pais da Filosofia Clínica, ao administrar a maiêutica como recurso de conhecimento interno.”
O que Packter que nos dizer com questões metapsicologias? Segundo o psicólogo, psicanalista, tradutor e dicionarista, Álvaro Cabral  (1979), a metapsicologia:
“Em acepção genérica, é a investigação sistemática de todos os fenômenos que se situam para além dos fatos empíricos, e leis da Psicologia (relações entre o corpo e a mente, o lugar desta e o comportamento no cosmos etc.), assim como a tradução desses fatos e leis de acordo com a linguagem da Fisiologia.”
A partir da definição de Cabral podemos compreender que Packter acredita que a Filosofia Clínica pode ser indicada em questões que vão além das compreendidas pelas relações mente-corpo e pelas questões comportamentais. Ele quer nos dizer que em Filosofia Clínica pode-se lidar com questões relacionadas à dinâmica resultante dos processos psíquicos gerados a partir das experiências vivenciadas pela pessoa, ou seja, existenciais. 
“Ocorre também a indicação deste trabalho simultaneamente a tratamentos médicos mentais por acompanhar os desdobramentos existenciais da pessoa: as psicoses, por exemplo, podem ser incluídas em seu campo de atividades.” (Packter, caderno A p. 3)
  Ou seja, a clínica filosófica também pode ser uma complementação a tratamentos médicos psiquiátricos, e de acordo com Adalberto Tripicchio e Ana Cecília Tripicchio  (2000):
“Em que pese a sua especificidade, a Filosofia Clínica, não exclui a possibilidade de trabalhar conjuntamente com outros profissionais de saúde, em suas especificidades médicas - particularmente a Psiquiatria – desde que necessário para o cuidado global do partilhante.”
Na atualidade, muitos são os profissionais e de diversas áreas, que se utilizam, mesmo que informalmente, dos procedimentos da Filosofia Clínica em seus atendimentos. Sejam eles, odontologistas, gerontologistas, clínicos gerais, psicólogos, terapeutas Reikinanios, cognitivo-comportamentais, aconselhadores filosóficos, pastorais entre outros. Mas ainda segundo Packter (1997):
“...insistentemente, seu foco tende a iluminar as questões fundamentais que há muito seguem o indivíduo: éticas, axiológicas, antropológicas, científicas, artísticas e, no somatório, essencialmente filosóficas."
Toda e qualquer pessoa que deseje se conhecer melhor, refletir sobre as questões fundamentais de sua vida de forma organizada, aquelas que desejam aprender a pensar de forma lógica e sistemática, aquelas que necessitam de serem ouvidas ou desabafarem seus problemas, entre outras tantas possibilidades podem se valer do atendimento de um filósofo clínico. Todas essas e outras questões se situam no âmbito existencial e podem ser trabalhadas pela clínica filosófica. Contudo, Aiub (2004) traz outras possibilidades de atuação:
“A terapia em grupo também é possível, sendo anteriormente, feito um estudo sobre o grupo. (...)
Terapia familiar é outra possibilidade. Pose-se trabalhar com cada membro da família individualmente, e depois marcar consultas com todos os envolvidos. (...)
Atendimento em hospitais, com suporte a pacientes terminais e seus familiares (...).”
Além da terapia em grupo, familiar ou de apoio hospitalar, todas na área de saúde, Aiub (2004) nos apresenta a possibilidade de aplicação na área educacional e de consultoria.
“O instrumental da Filosofia Clínica pode ser utilizado pelo professor, em sala de aula, para auxiliar seu trabalho. (...)
Numa consultoria pode-se fazer a leitura de uma instituição educacional, considerando o todo e os subgrupos, as interseções inter e intra grupos, os objetivos a serem atingidos e o publico ao qual tais objetivos se destinam (...)
A mesma consultoria prestada às instituições educacionais, com as devidas adaptações poderá ser aplicada a empresas.”
Como podemos perceber a área de atuação da Filosofia Clínica é ampla e promissora, contudo a postura ética e metodológica, com respeito a singularidade, é um pré-requisito que consta claramente no ESTATUTO DO FILÓSOFO CLÍNICO E DO ESPECIALISTA EM FILOSOFIA CLÍNICA   no item I – Do Exercício profissional, Art. 11 (2006): “O filósofo clínico e o especialista em Filosofia Clínica, em sua profissão, procurarão o respeito à singularidade da pessoa conforme as normas deste Estatuto do Filósofo Clínico e do Especialista em Filosofia Clínica.”
Apesar de citarmos as indicações e os campos de utilização para a Filosofia Clínica, o objetivo deste trabalho é a clínica individual. Portanto, para maior aprofundamento nas questões de como se utilizar a Filosofia Clínica com grupos em instituições, uma das leituras que sugiro é a da obra Filosofia Clínica e Educação escrita pela filósofa clínica Monica Aiub.
Retornando ao nosso foco principal, ao falarmos em Filosofia Clínica, como atividade terapêutica individual, estamos necessariamente colocando de um lado o partilhante e de outro o filósofo clínico. Quer dizer, um está em busca de atendimento, partilha e orientação, e o outro está para atender, orientar, partilhar. O humano que ao filósofo clínico, na prática terapêutica, se desvela, ou se vela, pode estar em busca de apoio, escuta, carinho, compreensão, atenção, socorro; e assim inúmeras possibilidades podem se abrir no percorrer do processo terapêutico. Mas quem é o filosofo clínico e quem é o partilhante? Como é que eles se compreendem se caracterizam? Como o clínico constrói seu ser terapeuta? 
Definições sobre quem é o filósofo clínico e, quem é o partilhante, na clínica filosófica são de consenso entre vários autores. Uma delas, que não é apenas consenso, mas sim uma regra, é a de que o filósofo clínico é o filósofo graduado por uma instituição reconhecida pelo Ministério da Educação e Cultura – MEC, com especialização em Filosofia Clínica oferecida pelo Instituto Packter ou centros devidamente autorizados, e que tenha sido aprovado no pré-estágio (ou clínica didática) e estágio supervisionado (Estatuto do Filósofo Clínico e do Especialista em Filosofia Clínica, 2006). Desta forma recebe o certificado A - emitido pelo Instituto Packter e apenas por este Instituto – que o habilita à pesquisa e à atividade clínica. Já o partilhante é quem vai em busca do filósofo clínico para que este o ajude em suas questões existenciais.

Considerações finais

Neste pequeno estudo, foi apresentado ao leitor uma visão geral das filosofias aplicadas existentes em nosso tempo.
Considero que todas têm sua utilidade, e validade conforme sua técnica de aplicabilidade e contexto de utilização. No entanto, sua literatura ainda deixa a desejar, especialmente em relação às filosofias de Tim Lebon e Achenbach. Considero que esse seja um dos fatores determinantes para à sua rejeição pela academia e pelos adeptos das filosofias especulativas. É necessário que os praticantes e estudiosos de todas as vertentes das filosofias aplicadas façam um esforço no sentido de registrar sua fundamentação e variações, para que, através do diálogo científico, possam se tornar ciência. Já no âmbito da prática dessas filosofias todas se encontram consolidadas, especialmente a de Lúcio Packter no Brasil. Para que a filosofia clínica amplie suas fronteiras como profissão para os graduados em filosofia e outras áreas afim, é mister que se tenha uma associação nacional que congregue não só os filósofos atuantes, mas também  organize sua prática e se ofereça a sociedade como órgão regulador da profissão. Além disso considero que todas elas somam às práticas terapêuticas já existentes, já que se mostram como uma opção a mais para quem necessita de atendimento terapêutico especializado e sistematizado.


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