quinta-feira, 11 de abril de 2013

Artigo da profa. Monica Aiub

Para Ler o Artigo na Fanpage do Instituto Interseção clique no link abaixo. 



Harmonia entre os tempos objetivo e subjetivo traz bem-estar por Monica Aiub


Quantos anos você tem? Às vezes parece que tem treze anos, às vezes parece que tem mais de cem? Você percebe a passagem do tempo? Ela é rápida ou lenta? Já teve a sensação da semana ter passado num instante, ao mesmo tempo em que a passagem de ontem para hoje pareceu ter durado uma eternidade? Como você vive o tempo? Já sentiu saudade do passado que não viveu? Expectativa de um futuro que está por vir? Seu presente é uma consequência de seu passado, ao mesmo tempo em que determina seu futuro? Ou é a espera de um futuro para se viver?
Uma queixa constante no consultório de filosofia clínica diz respeito ao tempo. Muitas pessoas sentem-se sufocadas pelas cobranças estipuladas por prazos estabelecidos, o que gera mal-estar no trabalho, em casa, nas relações pessoais. Casais que questionam: "Ele (a) não tem tempo para mim, pode uma relação ser dessa maneira? ou "Talvez eu devesse viver só, não tenho tempo para me dedicar a um relacionamento". Diante de problemas com a saúde, algumas pessoas dizem: "Sei que deveria cuidar de minha alimentação, que deveria buscar atividades que me trouxessem bem-estar, mas não tenho tempo".
O que é esse tempo?
Se ninguém me pergunta, eu sei; porém, se quero explicá-lo a quem me pergunta, então não sei. No entanto, posso dizer com segurança que não existiria um tempo passado, se nada passasse; e não existiria um tempo futuro, se nada devesse vir; e não haveria o tempo presente se nada existisse. (Santo Agostinho, Confissões)
Há um tempo da natureza, que pode ser observado na gestação, no amanhecer, nas estações do ano, no envelhecer, em muitos movimentos da vida. A natureza se movimenta e nós, seres humanos, criamos formas de mensurar, medir esse movimento da vida. Se o movimento é da natureza e a mensuração é humana, por que às vezes nos sentimos escravizados diante de nossa própria criação?
Aristóteles afirmava que o "tempo é o número do movimento, conforme o antes e o depois", seguindo a trilha dos pitagóricos e sendo seguido pelos estóicos e epicureus, via o tempo como mensuração do movimento, movimento cíclico do mundo e da vida. Mas esse tempo não era, necessariamente, aquele que é marcado por nossos relógios, aquele que define nossos dez minutos de antecipação ou nossas horas de atraso, o que delimita nossos prazos, nossas intermináveis angústias de horas perdidas em vão, seja com uma atividade entediante, ou com uma insônia inaproveitada. Sucessão de eventos, tempo cósmico, que não permite o totalmente subjetivo, mas não esquece que a medida não é exata. Ou seria o universo uma medida exata? A medida, para Aristóteles, é a medida da "alma". Qual é a nossa medida?
"Há um tempo objetivo, que nos permite situar um evento, marcar um horário para a consulta, agendar um encontro. Mas há um tempo subjetivo que nos permite conhecer, vivenciar esse evento, amadurecer as relações entre os fenômenos e nossos estados subjetivos" Há um tempo subjetivo: tempo de amadurecimento, tempo para compreender, para assimilar, para aprender, para conformar, para organizar... Mensurar a subjetividade não é algo que se faça da mesma maneira como mensuramos movimento da natureza, mas é o que tentamos fazer quando nos perguntamos: Quanto tempo uma criança leva para se tornar adulta? Com quantos anos um adulto já deve estar "amadurecido"? Quanto tempo eu vou levar para aprender a tocar violão? Quantas consultas serão necessárias para que eu possa acabar com meu sofrimento? Quanto tempo é necessário para que eu possa aprender a lidar com meus sentimentos? Será possível responder a essas questões? Será possível medir esse tempo como medimos o tempo cronológico?
Sabemos que o tempo cronológico é uma criação nossa, com base em nossa observação dos movimentos da natureza. Por esse motivo, talvez não devêssemos nos escravizar a ele. Por outro lado, também criamos um modo de ser na sociedade e, principalmente, no mundo do trabalho, a partir do qual se torna impossível ignorá-lo. Horários fixos, rígidos, pontualidade, medida do trabalho dada pelo número de horas que uma pessoa fica em seu local de trabalho, medida de produção pela quantidade de resultados obtidos durante um determinado tempo. Essas são algumas das formas que constituímos e que nos escravizam. Podemos viver sem elas? Necessitamos delas?
Em algumas instâncias, essas formas são imprescindíveis à sobrevivência. Se nos atrasarmos diariamente para o trabalho, perderemos o trabalho. Se demorarmos a apresentar os resultados de nosso trabalho, corremos o risco de não termos mais trabalho e o trabalho é uma das formas que construímos para nossa sobrevivência. Se construímos, poderíamos construir de outra maneira, por que não o fazemos? Por outro lado, às vezes levamos as mesmas exigências do mundo do trabalho para outras instâncias da vida e vivemos como se perseguíssemos o tempo, como se corrêssemos atrás de nós mesmos. Encontramos bem-estar desta maneira?
Atendi alguns partilhantes (pacientes) cuja questão era organizar-se para evitar atrasos. Em alguns desses casos, pude observar que o problema consistia na dificuldade em conciliar o tempo cronológico e o tempo subjetivo. Ocorria como se a pessoa vivesse em dois mundos diferentes simultaneamente. Num deles, o ponteiro do relógio andava rápido. No outro, seus pensamentos, sentimentos, comportamentos precisavam de mais tempo. Então, a simples preparação matinal para o dia de trabalho tornava-se uma tarefa extremamente estressante.
Você já experimentou dançar com alguém que dança em um ritmo completamente diferente do seu? Já experimentou correr com alguém que corre muito mais rápida ou lentamente que você? Imagine esse descompasso gerado no interior de uma mesma pessoa. "Não tenho tempo e fico muito tempo sem fazer nada" podem ser afirmações de uma mesma pessoa, sobre um mesmo momento, nas mesmas condições? Na clínica observamos que sim.
Quando dizemos que não temos tempo para nós, o que isso significa? Para uma pessoa, pode significar estar se dedicando ao que não gosta; para outra, pode ser um ritmo violentamente rápido, que a desestrutura; para uma terceira, pode ser o fato de não estar se dedicando às relações que lhe são importantes. O que significa para você?
Discutir a objetividade ou a subjetividade do tempo não responde essas questões. Há um tempo objetivo, que nos permite situar um evento, marcar um horário para a consulta, agendar um encontro. Mas há um tempo subjetivo que nos permite conhecer, vivenciar esse evento, amadurecer as relações entre os fenômenos e nossos estados subjetivos. O tempo não é em si mesmo, nem é uma determinação inerente às coisas. Nossas representações sucedem-se umas às outras e essa relação de sucessão, que é interna, é o que nos permite uma concepção de tempo. Assim, além do tempo objetivo (cronos) e do tempo subjetivo (kairos), podemos conceber o tempo como movimento interno.
Em filosofia clínica o histórico de um partilhante é um contínuo de vivências que pode dar-se por sucessão de eventos, por justaposição, correlação, ou outros modos. O filósofo clínico observa a forma como o partilhante constrói e é construído, como vivencia e é vivenciado. Como um filme de sua própria vida, o partilhante apresenta sua história em diferentes velocidades, em distintas ordenações e, assim, partilha seu modo de ser, no tempo da hora marcada da clínica e no contínuo da vida.
A clínica não é constituída pelos cinquenta minutos agendados, mas por um tempo contínuo, por uma totalidade onde não há ontem, hoje ou amanhã, apenas um constante fluir. Não há um tempo determinado para o trabalho clínico - meses, semanas - há, apenas, o tempo da partilha, tempo de acompanhar e permitir os movimentos internos e da vida.