segunda-feira, 4 de março de 2013

NEUROCIÊNCIA E FILOSOFIA CLÍNICA: considerações acerca de uma possível interface


NEUROCIÊNCIA E FILOSOFIA CLÍNICA:
considerações acerca de uma possível interface

Marta Claus

Apresentação
É impressionante verificar que mesmo após vários séculos de
refexões filosóficas, árdua dedicação à pesquisa cerebral e notáveis
avanços no campo das neurociências, o conceito de mente ainda
 permanece obscuro,controverso e impossível de definir
nos limites de nossa linguagem.
Silvia Helena Cardoso [1]


A neurociência é a área do conhecimento que reúne as disciplinas biológicas que estudam o sistema nervoso, especialmente a anatomia e a fisiologia do cérebro humano. É o estudo da realização física do processo de informação no sistema nervoso animal e humano em especial. O estudo da neurociência engloba três áreas principais: a neurofisiologia, a neuroanatomia e neuropsicologia.
A neurofisiologia é o estudo das funções do sistema nervoso. Ela utiliza eletrodos para estimular e gravar a reação das células nervosas ou de áreas maiores do cérebro. Ocasionalmente, se separaram as conexões nervosas para avaliar os resultados. A neuroanatomia é o estudo da estrutura do sistema nervoso, em nível microscópico e macroscópico. Eles dissecam o cérebro, a coluna vertebral e os nervos periféricos fora dessa estrutura para estudos e mapeamento. A neuropsicologia é o estudo da relação entre as funções neurais e psicológicas. A principal questão da neuropsicologia é qual área específica do cérebro controla ou media as funções psicológicas. O principal método de estudo usado pelos neuropsicólogos é o estudo do comportamento humano ou mudanças cognitivas que acompanham lesões em partes específicas do cérebro. Estudos experimentais com indivíduos sadios também são comuns.
Como podemos perceber a neurociência em sua essência é uma prática interdisciplinar, resultado da interação e da convergência das diversas áreas do saber e/ou disciplinas científicas como, por exemplo: a neurobiologia, a neurofisiologia, a neuropsicologia, a neurofarmacologia, alargando sua aplicação às distintas especialidades médicas, como por exemplo: neuropsiquiatria, neuroendocrinologia, entre outras. É a complexidade do objeto de estudo do sistema nervoso e em especial do sistema nervoso central da espécie humana que traz a exigência de tal interface de pesquisas entre as diversas áreas de conhecimento.
Com o avanço das pesquisas no que se refere às funções cerebrais e a sua identificação nas áreas do cérebro em que as mesmas ocorrem, o cérebro e suas competências passaram a ser vistos como o órgão que comanda todas as funções orgânicas e psíquicas do ser humano. Logo, dos últimos cinqüenta anos até os dias de hoje o cérebro tem sido visto não apenas como um órgão, (mais um entre tantos presentes no organismo humano) mas também como o identificador do ser humano tal como ele é. Segundo Ortega e Bezzera:

O espetacular progresso das neurociências, a popularização pela mídia de imagens e informações que associam a atividade cerebral a praticamente todos os aspectos da vida, e certas características estruturais da sociedade atual têm produzido no imaginário social uma crescente percepção do cérebro como detentor das propriedades e autor das ações que definem o que é ser alguém. [2]

Segundo Bezerra e Ortega, o cérebro responde cada vez mais por tudo aquilo que anteriormente costumávamos atribuir a pessoa, ao indivíduo, ao sujeito. Inteiro ou em partes, o cérebro surgiu como o único órgão verdadeiramente indispensável para a existência do “eu” e para definir a individualidade. Com isso, o ser humano tornou-se o que alguns cientistas definem como "sujeito cerebral".
Mas o que compõe o sujeito cerebral? Será o cérebro capaz de sentir, sofrer, pensar, agir em função das emoções e sentimentos que afetam os homens?  Esta não é uma questão que tem sua origem nos séculos xx e xxi somente. A discussão mente cérebro é tão antigo quanto possa mos imaginar.
Neste trabalho a tentativa será a de mostrar a evolução da neurociência e o que ela representa nos dias atuais para algumas disciplinas com as quais faz interface, especialmente a Filosofia da Mente e a Filosofia Clínica objetivo específico de nosso trabalho. Serão aqui abordadas de forma introdutória as problemáticas: de que maneira a Filosofia Clínica pode participar das discussões centrais da Neurociência? De que maneira a Neurociência oferecerá elementos para o desenvolvimento da Filosofia Clínica? E finalmente, com as descobertas em torno da geografia (fisiologia, anatomia, funcionamento) do cérebro e das relações com os processos mentais, provavelmente teremos instrumentos para lidar com o que a psiquiatria chama de psicoses, esquizofrenia, loucura, além de mecanismos para lidar com os processos de neurose, angústia, depressão – para utilizar termos médicos. Neste sentido, qual o papel que caberá, se é que haverá um tal espaço, à Filosofia Clínica.

A neurociência como o estudo do cérebro [3]

Atualmente, nós sabemos que em nosso cérebro novos
ramos neuronais crescem em resposta à diversidade cultural, isto é,
ao treino e à experiência do dia-a-dia. Cada neurônio parece
contribuir para muitos comportamentos e atividades mentais.
Técnicas modernas estão agora começando a revelar como
o cérebro tem conseguido a notável proeza da aprendizagem.
Silvia Helena Cardoso


Atualmente, todos os homens que acompanham as descobertas da neurociência sabem, ou pensam saber, ser o cérebro o órgão responsável pelo comportamento humano e pelas nossas faculdades mentais. Estudiosos, pesquisadores e pessoas mais aculturadas também sabem que fenômenos químicos e elétricos estão por trás do funcionamento do sistema nervoso. No entanto, esses conhecimentos são relativamente recentes e durante muitos séculos as crenças sobre a maneira de funcionar do cérebro foram radicalmente diferentes das que professamos hoje.
A Neurociência busca compreender o funcionamento do sistema nervoso, integrando suas diversas funções (movimento, sensação, emoção, pensamento etc). Sabe-se que o sistema nervoso é plástico, ou seja, é capaz de se modificar sob a ação de estímulos ambientais. Esse processo, denominado de plasticidade do sistema nervoso, ocorre graças à formação de novos circuitos neurais, à reconfiguração da árvore dendrítica e à alteração na atividade sináptica de um determinado circuito ou grupo de neurônios. É essa característica de constante transformação do sistema nervoso que nos permite adquirir novas habilidades motoras, cognitivas e emocionais, e aperfeiçoar as já existentes. Segundo Vaz e Raposo:
Plasticidade é a capacidade do sistema nervoso alterar o funcionamento do sistema motor e perceptivo baseado em mudanças no ambiente.
Estudos comprovam a hipótese sobre o desenvolvimento neural e a aprendizagem na qual funções particulares de processamento de informação são controladas por grupos especiais de neurônios, mas quando uma dessas funções fica inutilizada, os neurônios associados a ela passam a controlar outra função. Por exemplo, se os neurônios que normalmente recebiam estímulos do olho esquerdo pararem de receber esse estímulo, eles se tornariam responsáveis pelos estímulos do olho direito. O inverso também é verdadeiro, quando as funções neurais são limitadas, os neurônios podem passar a controlar novas funções. [4]

O sistema nervoso é responsável por regular os mecanismos que garantem nossa sobrevivência (respiração, digestão, liberação de hormônios, regulação da pressão arterial, etc), nossa movimentação voluntária, nossas sensações e nossos comportamentos (pensamento, imaginação, emoção, etc). Assim, não é de se esperar que o estudo da Neurociência seja algo simples, não somente pela complexidade de cada uma dessas funções, mas principalmente pelo fato delas ocorrerem na maior parte das vezes simultaneamente. Para facilitar o estudo do sistema nervoso, o mesmo é dividido em:
- sistema nervoso central: estruturas localizadas dentro da caixa craniana e da coluna vertebral;
-encéfalo: cérebro, cerebelo e tronco encefálico;
         - medula espinhal;
Existem pelo menos cinco modos de estudar a relação entre sistema nervoso e comportamento e/ou sua fisiologia, são eles:
1. O espectro animal – diversidade de modelos que a natureza oferece e os padrões reconhecíveis de comportamento e de estrutura anatômica e bioquímica.
2. As diversas patologias e lesões anatômicas e suas conseqüências funcionais. Para Deficiência Mental, por exemplo, já se conhece pelo menos 200 causas.
3. Os estágios do desenvolvimento humano/animal e envelhecimento. Existem estágios previsíveis de modificação anatômico-funcional e comportamental nas diversas fases do desenvolvimento humano.
4. Efeito de drogas em diferentes sítios anatômicos. Existe certo consenso quanto às três formas básicas de efeito farmacológico de drogas no sistema nervoso. As substâncias psicoativas podem ser classificadas como Lépticas (estimulantes); Analépticas (depressoras) e Dislépcticas (modificadoras). É nesse último grupo que se enquadram as substâncias conhecidas como alucinógenos ou enteógenos.
5. Estudo da mente (psiquê) e/ou comportamento. Para um grande conjunto de alterações comportamentais estudadas pela psicopatologia e criminologia ainda não existe consenso sobre suas causas biológicas e psicossociais. O mesmo pode ser dito para alterações psiconeuroen-dócrinofsiologicas da experiência religiosa ou êxtase religioso e estados alterados de consciência induzidos por técnicas como meditação, yoga, hipnose entre outros.
Múltiplas inter-relações entre esses diversos métodos e possibilidades de estudos são possíveis, contudo ainda não existe grandes teorias que façam da neurociência uma única teoria ou método científico com suas múltiplas aplicações práticas na área médica ou paramédica. Não fica esquecida aqui a interface que faz a neurociência com a filosofia e mais especificamente com a filosofia da mente, pois cabe a filosofia e a filosofia da mente os questionamentos sobre a natureza da mente, a natureza da consciência, e suas relações com o cérebro.


Neurociência e Filosofia

Mente é uma definição que tenta resgatar a essência do homem.
A essência de uma pessoa emerge da existência de funções mentais
que permitem a ela pensar e perceber, amar e odiar, aprender e lembrar,
resolver problemas, comunicar-se através da fala e da escrita,
criar e destruir civilizações. Estas expressões estão estreitamente
relacionadas ao funcionamento cerebral. Assim, sem o cérebro,
a mente não pode existir, sem a manifestção comportamental,
a mente não pode ser expressada.
Silvia Helena Cardoso

A área da filosofia que faz a interface com a neurociência é a filosofia da mente. Esta pode ser entendida como o estudo filosófico dos fenômenos psicológicos, incluindo investigações sobre a natureza da mente e dos estados mentais em geral. A filosofia da mente envolve estudos metafísicos sobre o modo de ser da mente, sobre a natureza dos estados mentais e sobre a consciência. Envolve estudos epistemológicos sobre o modo como a mente conhece a si mesma e sobre a relação entre os estados mentais e os estados de coisa que os mesmos representam (intencionalidade), incluindo estudos sobre a percepção e outros modos de aquisição de informação, como a memória, a verbalização (fundamental para a aquisição da linguagem) e a introspecção. Envolve ainda a investigação de questões éticas como a questão da liberdade, normalmente considerada impossível caso a mente siga, como tudo o mais, leis naturais.
A investigação filosófica sobre a mente não implica nem pressupõe que exista alguma entidade - uma alma ou espírito - separada ou distinta do corpo ou do cérebro, e está relacionada a vários estudos da ciência cognitiva, da neurociência, da lingüística e da inteligência artificial.
Logo, percebemos que a filosofia não é uma simples comentarista das atividades de outras disciplinas, mas ajuda a definir problemas, criticar modelos e sugerir o caminho dos questionamentos.
 Desde sempre podemos perceber que as reflexões filosóficas estavam ligadas aos avanços científicos da época de cada concepção. Os filósofos antigos não deixavam de lado a ciência a seu alcance para fazer as suas observações sobre elas. Da mesma forma que os filósofos modernos podem tirar proveito das modernas descobertas para fazer as suas conjecturas filosóficas com bases científicas sólidas.
Não só filósofos da mente poderiam se interessar por neurociência, mas existencialistas poderiam obter subsídios para as suas categorias existenciais baseados nos estudos do “eu“. [5]  Até mesmo setores filosóficos que pouco se modificaram com o passar dos anos podem se beneficiar deste intercâmbio como é o caso dos estudiosos da Filosofia Platônica. Platão em sua obra República, por exemplo, vislumbra uma etapa do aprendizado vinculado a mimese, o qual seria o primeiro estágio de aprendizado, onde o sujeito repetiria uma ação ou conhecimento obtido de terceiros. 

Não estaria Platão fascinado se descobrisse que a nova “moda” das pesquisas em neurociência trata dos “neurônios espelho” os quais se ativariam ao contacto com a ação alheia, sendo considerado o alicerce de nossa cultura como a vemos hoje? [6]


Ora, já sabemos que as áreas do cérebro são formadas por neurônios que transferem informações entre si, tais áreas, no seu conjunto, também se destacam por se especializarem, e algumas delas especializaram-se no tratamento das imagens, outras da audição, outras da ação das vísceras e assim por diante. Tais explicações sobre cada área já é amplamente investigada e há várias informações técnicas sobre o assunto. Abaixo temos um exemplo de imagem (entre muitos) [7] com as divisões cerebrais e a especialização de cada hemisfério do cérebro.







Fig. 1 - Especialização dos hemisférios.



Porém, o que deve ficar explicitado é que a pesquisa da neurociência especializa-se, cada vez mais, na tentativa de detectar minúcias funcionais das atividades cerebrais, das atividades da consciência ou, do problema mente/ corpo que seria apenas algo a ser resolvido no âmbito da correlação dos estados fisiológicos dos neurônios, ou do conjunto deles, com o comportamento manifesto do indivíduo.  
Podemos inferir que os conhecimentos adquiridos, (como o do surgimento da célula até o neurônio - unidade fundamental na transmissão de informação) que os aspectos teóricos de base são imprescindíveis para a chegada de respostas às indagações filosóficas como: o que é a mente, a dualidade corpo-mente, a explicação do comportamento. Ou seja, não basta apenas o conhecimento fisiológico e de funcionamento orgânico do cérebro, mas também o conhecimento do funcionamento psicológico do individuo e as possíveis associações que teriam entre o psíquico e o cerebral. Em relação a isso podemos citar aqui John Searle um dos primeiros filósofos oriundo da filosofia da linguagem, que abarcou os conhecimentos propiciados pela neurociência, tentando formular hipóteses e questões de ordem filosóficas, coerentes com a realidade científica. Por isso é necessária a contribuição dos filósofos para as perguntas suscitadas pela neurociência e filosofia da mente. Logo, além de possível é necessário que a filosofia da mente e suas indagações façam interface com a neurociência, assim como com as outras áreas do conhecimento.
Eis então, colocadas abaixo possíveis interfaces entre filosofia da mente e neurociência segundo Bartoszeck e Bartoszeck: [8]

Filosofia (Anteriormente)
Neurociência
Mimese Platônica, Aprendizado por imitação de alguém fazendo algo. O primeiro estágio de aprendizado mostrado por Platão em sua obra a República.
Neurônios espelho, novas descobertas demonstram a especialização de neurônios em reconhecer e simular a ação alheia acredita-se que seja a base para a nossa cultura.
O Ser no Existencialismo, segundo o qual o homem primeiro “existe” para “ser”. O desenvolvimento moldaria o seu “ser”e seu “agir”, sendo o “agir” o modo do “ser”.
O sentido de “self” explicado pela neurociência poderia ser a base para explicações sobre o sentimento de existência individual.
Filosofia (Atualmente)
 Neurociência
Neurofilosofia, ramo que dentre outros assuntos aborda a base neural da moralidade.
Avanços de neuroimagem (fMRI) possibilitam determinar que áreas do cérebro estão ativas, mesmo quando indivíduos tomam decisões morais.
Searle e sua teoria da Intencionalidade, mostra o cérebro como centro produtor da mente, e por conseguinte comportamentos, que poderiam ser categorizados, se for utilizada metodologia especifica.
O percurso da neurociência demonstra a partir de estudos de danos no cérebro e sua correlação com o comportamento, o quanto o cérebro é necessário para a explicação do que é a mente.

Muitas outras interfaces serão possíveis na medida em que os avanços nas pesquisas da neurociência, da filosofia, da psicologia e da filosofia da mente forem trazendo novas teorias e novas descobertas sobre o cérebro, a mente e o comportamento.

Neurociência e Filosofia Clínica

Finalmente, nós percebemos não somente o brilho e a fascinação
exercida pelas funções mentais humanas, as quais são responsáveis
pela criação e evolução de nossa sociedade, mas também a escuridão e
o desespero das disfunções mentais, as quais afetam e destroem
o ambiente interno e externo do ser humano.
Silvia Helena Cardoso


A filosofia clínica trabalha no âmbito da singularidade do indivíduo. Para a filosofia clínica a pessoa é aquilo que ela diz ser. Trabalha com a pessoa em sua totalidade, sua unicidade, sem dividi-la em sujeito fisiológico ou sujeito psicológico. Não trabalha com conceitos de normalidade ou patologia. No entanto, não deixa para traz, no cuidado à pessoa humana, as doenças de ordem física. A pessoa que a filosofia clínica trata não é de um esquizofrênico, um portador de transtorno bipolar, um maníaco depressivo, ou um psicótico, entre tantas outras definições que se poderia dar àqueles que têm algum comportamento “nominável”. Para a filosofia clínica não existe a patologia mental em si, embora esta trate de pessoas com angustia, tristeza, abalos emocionais, medos, entre outros, trata do ser humano manifesto na presença do clínico.  Também trata daqueles acometidos por um AVC, portadores do Mal de Alzheimer, dos que sentem dores de cabeça, enfim dos que têm doenças de ordem fisiológica, mas que precisam, além do acompanhamento médico, de acompanhamento existencial para amenizarem suas dores.
Nesse sentido há uma interface possível entre a filosofia clínica e a neurociência, pois com o avanço das descobertas sobre o funcionamento do cérebro, por meio de imagem funcional computadorizada e que está aberta à investigação científica. Assim poderemos, quem sabe num futuro não muito distante, reconhecer qual a área do cérebro que é responsável pelos sentimentos e pensamentos (ainda não passíveis de identificação por imagens) que afligem a pessoa e como tratá-los.
Portanto, as discussões centrais da neurociência são também questões de ordem existencial, pois não basta termos largo conhecimento anatômico, fisiológico do cérebro, se este é parte integrante do individuo. Logo a filosofia clínica tem muito a contribuir com a neurociência, pois trata do individuo que sofre, que sente, que pensa e que necessita não apenas de remédios, mas também de atenção, de ser ouvido, de ser tratado como único em sua dor, em seu sofrimento em seu trauma, e não somente como um individuo portador de um cérebro com algum tipo de disfunção ou “defeito”. O cérebro pode ser tratado como máquina, mas a pessoa em sua integridade não.
Participando das questões centrais da neurociência, sejam estas - a natureza da mente, onde ela se situa, e quais suas relações com o cérebro e o comportamento - a filosofia clínica contribui evidenciando que a individualidade, a identidade da pessoa não depende só do correto funcionamento do cérebro, mas também de fatores externos, como por exemplo, a cultura, as circunstâncias, enfim de toda a historicidade da pessoa. O que faz com que a pessoa seja o que ela é, ou seja, a sua identidade pessoal não está impressa no cérebro, mas na sua verbalização do que pensa e vê de si próprio. A identidade de cada um está no sujeito manifesto como um todo e não em suas partes.
Com as futuras descobertas em torno da geografia (fisiologia, anatomia, funcionamento) do cérebro e das relações com os processos mentais, teremos instrumentos para lidar com o que a psiquiatria chama de psicoses, esquizofrenia, loucura, além de mecanismos para lidar com os processos de neurose, angústia, depressão – para utilizar termos médicos. Segundo Peres:
Estudos recentes revelam que a natureza subjetiva e a volição dos processos mentais, como pensamentos e crenças auto-orientadas, influenciam significativamente a plasticidade neural em vários níveis. [9]


Desta feita será possível através de imagens e mapeamento cerebral obtermos informações sobre áreas do cérebro que necessitam de cuidados. Com a evolução da geografia e mapeamento cerebral e suas funções, haverá a possibilidade de que tratemos as chamadas “doenças mentais” com remédios. Isso melhoraria sobremaneira a qualidade de vida de pessoas portadoras dessas doenças, tanto quanto às pessoas que passam por processo de depressão, angústia, medos. Porém, embora as novas descobertas da neurociência antecipem que o futuro do cérebro poderá ser manipulável em sua totalidade, ainda hoje não se tem o mapeamento dos sentimentos de amor, piedade, raiva, tristeza entre outros, com isso não se pode dispensar os benefícios das psicoterapias e das terapias em geral. Segundo Denise Guedes:

...Pesquisas com neuroimagem funcional, método que fotografa o fluxo sanguíneo no cérebro, estão provando que a terapia baseada na fala causa, sim, efeitos permanentes no nosso sistema de aprendizagem, na memória e no processamento de emoções. [10]

Desta feita a filosofia clínica e a neurociência são ciências afins e fazem interface entre si. A terapia serve a neurociência afirmando por neuroimagens os benefícios que causa às pessoas, assim como as neuroimagens atestam às terapias que sua especialidade é válida cientificamente e com resultados comprovados.  Vejamos:

...o cérebro de quem fez terapia mudou. Houve mais atividade em regiões do córtex pré-frontal, área relacionada a cálculos, pensamentos práticos e ações que tomamos conscientemente. Na prática, o tratamento deu alívio a sintomas que têm tudo a ver com traumas, como hipervigilância (estado de alerta permanente) e recordações aflitivas, que se manifestaram em pesadelos e pensamentos recorrentes. [11]

Outra postura em relação ao tema e que também pode ser considerada é a de Peres:

A psicoterapia, em suas diversas abordagens, se ocupa justamente da subjetividade – ou das representações internas – e articula percepções memórias e sistemas de crenças dos indivíduos em processo terapêutico. Estudos neurofuncionais mostram que os processos psicológicos do aprendizado também podem ocasionar mudanças biológicas nos arranjos simpáticos e a organização neurofisiológica. [12]

Logo podemos concluir que, se a psicoterapia em sua varias formas de abordagem pode modificar as conexões neurais, é possível, que sempre haja espaço para ela na vida das pessoas. Mesmo porque ainda não há remédio (químico ou natural) que substitua a presença e o calor humano de quem escuta, se compadece, partilha e ajuda na auto-regulação existencial do individuo.

Considerações acerca de um modelo de mente sugerido pela filosofia clínica

 O que são modelos? Segundo a definição dicionarista modelo é aquilo que pode ser reproduzido por molde, por imitação ou representação. Algo delineado, traçado previamente. É também aquilo que serve como exemplo para estudo prático. As Neurociências, que incluem aqui, a Neuropsicologia, a Neurofisiologia, as Filosofias da Mente e a Neurofilosofia tem cada uma delas seu modelo de mente. Entretanto, em todas elas há um ponto em comum que é a busca por um modelo universal que de conta de explicar os fenômenos singulares como, por exemplo: pensar, aprender, amar, odiar, ter fé, entre outros, que são fenômenos de ordem singular e que só podem ser ditos em primeira pessoa segundo a teoria dos “Qualia” proposta pelo dualista Thomas Nagel. Em síntese a teoria dos “Qualia” defende que, por mais tenhamos conhecimento do sistema nervoso de um organismo o que viria a ser esse organismo pelo ponto vista dele mesmo? O ponto de vista da primeira pessoa revela um conteúdo irredutivelmente subjetivo, ou seja, uma espécie de resíduo derivado da experiência somente acessível por aquele organismo específico. A teoria de Nagel é contestada pelos materialistas pela sua incompletude funcional, pois os fenômenos subjetivos não podem ser considerados apenas como um somatório de impulsos sensoriais, mas também como uma forma de subjetiva de construção da realidade. 
Nesse sentido, poderíamos considerar que a teoria dos “Qualia” proposta por Thomas Nagel daria suporte ao que a Filosofia Clínica nos propõe como modelo de mente, que nos apresenta uma mente de âmbito singular, com experiências únicas e singulares que são exprimíveis apenas em primeira pessoa. O acesso a elas só nos é possível pela própria pessoa e o que apreendemos dela é apenas por aproximação e nunca por exatidão.
O cérebro, de maneira geral, é composto pelo crânio, pelo córtex cerebral, pela massa encefálica, e sua arquitetura é composta de células neuronais, vias neuronais e sinapses que funcionam por substâncias químicas e eletricidade que conduzem enzimas e hormônios por todo o corpo humano. Logo é um órgão que pode ser tocado, manipulado. Porém a complexidade do sistema nervoso central é inigualável a qualquer outro sistema do corpo humano e, em apenas 1mm cúbico de córtex de um mamífero encontramos aproximadamente 800 milhões de sinapses, 4 km de axônios e 550 mt de dendritos. Isso coloca talvez, uma questão ainda não definida da Neurociência que é a de identificar, a partir de uma rede altamente complexa, onde surge a consciência.
Contudo a mente, que pode então, ser entendida como uma entidade que reside no interior do crânio, não pode ser localizada, tocada e muito menos manipulada. Pelo menos não ainda. O que sabemos dela é que é sua expansão não é linear, porém pode ser cumulativa. Segundo a teoria materialista com a evolução exponencial dos métodos computacionais fica cada vez mais claro para as Neurociências que todo comportamento humano é fruto da atividade e funcionamento do cérebro. A partir da estimulação de determinadas áreas corticais e subcorticais (experiência feita em animais), passamos a controlar o comportamento de roedores. Apesar de tanto avanço nas pesquisas e tecnologia o mistério da consciência ainda permanece.  Mas com o avanço da tecnologia, especificamente na área médica, não nos parece por mais absurda à hipótese de que algum dia seja possível a visualização do funcionamento da mente, como já se faz do cérebro. Desta feita surgiria a possibilidade de cristalização das experiências subjetivas e com ela uma questão ética. Ao cristalizamos as experiências subjetivas o que fazemos com elas? A partir daí seria possível a manipulação das percepções sensoriais dessas experiências coletadas? E a transferência de dados, seria possível? Coletar os dados das experiências subjetivas de uma pessoa, colocá-las em um “pen drive”, como back up, ou fazer a transferência para outra mente seria viável? Assim os fenômenos singulares poderiam se tronar universais através da neuroplasticidade? Bem, questões como essas ainda são apenas suposições para experiências futuras.  Mas se partirmos do pressuposto da Filosofia Clínica, onde não há um modelo de mente predeterminado e que sirva para exemplos universais, podemos afirmar que a mente humana é única em seu modelo. Cada pessoa desenvolve a forma com que recebe e expõe suas experiências e assim sendo, talvez, nem a transferência de dados de uma mente a outra, via linguagem ou mesmo via “pen drive”, nos daria uma resposta exata das vivências de outra mente, pois cada subjetividade recebe essas vivências de maneira também singular, ou seja, mais emocional ou racional, por exemplo, e certamente isso interferiria na recepção e transposição de dados.

Referências bibliográficas

AIUB, Monica. Filosofia da Mente e psicoterapias. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2009.

BITTENCOURT, Jackson Cioni . ELIAS, Carol Fuzeti. Métodos em Neurociência. São Paulo: Roca, 2007.  


BNNETT, M.R. HACKER, P.M.S. Fundamentos Filosóficos da Neurociência. (tradução: Rui Alberto Pacheco). Lisboa: Instituto Piaget, 2005.

DAMÁSIO, A. O mistério da Consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de si. São Paulo: Companhia das Letras. 2000.

LENT, Roberto. Cem bilhões de neurônios: conceitos fundamentais. Atheneu: São Paulo, 2002.

ORTEGA, Francisco. BEZERRA JR, Benilton. O SUJEITO CEREBRAL: De órgão a ator social, o cérebro humano é cada vez mais percebido como aquilo que nos define. In:Viver Mente & Cérebro. Edição 162, julho de 2006. 

PERES, Julio. Novas fronteiras da psicoterapia. in: Mente & Cérebro. 191. São Paulo: Duetto Editorial, dezembro de 2008.

RAMACHANDRAN, V.S., Mirror Neurons and imitation learning as the driving force behind "the great leap forward" in human evolution, Edge, 69, 2000. Disponível em: www.edge.org/q2006/q06-index.html.  


Links consultados

http://www.nce.ufrj.br/ginape/publicacoes/trabalhos/renatomaterial/index.htm

http://www.cerebromente.org.br/home.htm .

http://www.jcienciascognitivas.home.sapo.pt/

Notas:

[1]Silvia helena Cardoso é Editora-chefe e Fundadora da revista Cérebro & Mente.  http://www.cerebroemente.org.br  
[2] ORTEGA, Francisco. BEZERRA JR, Benilton. O SUJEITO CEREBRAL: De órgão a ator social, o cérebro humano é cada vez mais percebido como aquilo que nos define. In:Viver Mente & Cérebro. Edição 162, julho de 2006. 
[3] Fontes de pesquisa:
http://www.nce.ufrj.br/ginape/publicacoes/trabalhos/renatomaterial/index.htm,  http://www.cerebromente.org.br/home.htm .
BNNETT, M.R. HACKER, P.M.S. Fundamentos Filosóficos da Neurociência. (tradução: Rui Alberto Pacheco). Lisboa: Instituto Piaget, 2005.
BITTENCOURT, Jackson Cioni . ELIAS, Carol Fuzeti. Métodos em Neurociência. São Paulo: Roca, 2007.  
[4] Disponível em:
 http://www.nce.ufrj.br/ginape/publicacoes/trabalhos/renatomaterial/index.htm.
[5] Leitura sugerida: DAMÁSIO, A. O mistério da Consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de si. São Paulo: Companhia das Letras. 2000.
[6] RAMACHANDRAN, V.S., Mirror Neurons and imitation learning as the driving force behind "the great leap forward" in human evolution, Edge, 69, 2000. Encontrado em:  www.edge.org/q2006/q06-index.html.   
[7] Fig 1 - LENT, Roberto. Cem bilhões de neurônios: conceitos fundamentais. Atheneu: São Paulo, 2002.
[8] Disponível em: http://www.jcienciascognitivas.home.sapo.pt/
[9] PERES, Julio. Novas fronteiras da psicoterapia. in: Mente & Cérebro. 191. São Paulo: Duetto Editorial, dezembro de 2008.
[10] GUEDES, Sonia. Terapia Funciona? in: Superinteressante, 254. São Paulo: Abril Editora,  julho de 2008. 
[11] Opus cit.
[12] PERES, Julio. Novas fronteiras da psicoterapia. in: Mente & Cérebro. 191. São Paulo: Duetto Editorial, dezembro de 2008.