sexta-feira, 29 de março de 2013

A IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA DA MEDICINA PARA A FILOSOFIA CLÍNICA


ASSOCIAÇÃO DE FILOSOFIA CLÍNICA DE MINAS GERAIS – AFIC-MG

INSTITUTO DE FILOSOFIA CLÍNICA DE UBERLÂNDIA E REGIÃO - MG

MONOGRAFIA DE CONCLUSÃO DE CURSO

PÓS-GRADUAÇÃO LATU SENSO EM FILOSOFIA CLÍNICA




Henriette Elena Fortes Silva





A IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA DA MEDICINA PARA A FILOSOFIA CLÍNICA











UBERLÂNDIA
2013



Henriette Elena Fortes Silva



A IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA DA MEDICINA PARA A FILOSOFIA CLÍNICA




Trabalho (monografia) apresentado como requisito para obtenção do título de “Especialista em Filosofia Clínica” (Certificado B) do Curso de Pós Graduação em Filosofia Clínica do Centro de Filosofia Clínica de Uberlândia – MG.


Professora Orientadora: Marta Claus Magalhães









UBERLÂNDIA
2013
























“O estudo da História é uma lição de humildade.”
(Domingo Pérez González)























Dedico este trabalho aos menininhos do meu coração, Dink e Roy, meus eternos filhinhos... e à memória de Cleusa Aparecida Dias, pelo exemplo de tolerância e simplicidade.

AGRADECIMENTOS









A Deus, nosso criador, pai amoroso que nos orienta e nos encaminha para o que há de melhor.

Ao Professor Lúcio Packter... por ter sistematizado a Filosofia Clínica tal qual a conhecemos no Brasil.

Ao meu queridíssimo sobrinho... Adriano... por ser a luz da minha existência.

Ao meu esposo Valdo... pelo amor incondicional...

Aos meus pais, pela vida...

À sempre bem disposta Marta Claus Magalhães (Filósofa Clínica – Profa. Adjunta e Coordenadora do Curso), que incentivou e orientou o presente trabalho.

À Filósofa Clínica Flávia (Uberlândia) e a todos os demais colegas do curso, amigos, colaboradores e familiares que – de uma forma ou de outra – me auxiliaram nesta caminhada.


RESUMO








Os estudos relacionados à Medicina estão fortemente conectados à explicação do que é o ser humano, desde o ponto de vista biológico, quanto psicológico e social (GONZÁLEZ, 2007). A Medicina é vista como algo que traz esperança à luta contra as enfermidades, contra a dor às vezes inevitável e como uma ferramenta que frequentemente retarda a morte. Antigas práticas de cura estavam baseadas na magia, nas religiões e no conhecimento empírico (no uso principalmente de plantas medicinais). Atualmente, as Ciências Médicas estão em constante evolução e renovação de seus saberes tradicionais, inovações essas que nascem de experimentações em laboratórios e de outras vivências cientificamente comprovadas da prática médica. Em fins dos anos 1980, no sul do Brasil, nasceu a Filosofia Clínica, que é a utilização da Filosofia acadêmica na atividade clínica, a qual foi sistematizada pelo filósofo e psicanalista gaúcho Lúcio Packter. Tal modalidade faz uso de mais de dois mil anos de tradição filosófica no intuito de auxiliar o Homem em suas variadas questões existenciais. Assim, é compreensível a importância do conhecimento da História da Medicina, pois tanto a Filosofia Clínica quanto a própria Medicina são instrumentos de auxílio no entendimento do que aflige o ser humano. E, no intuito de compreender e aliviar o sofrimento existencial, imprescindível é conhecer o passado, visto que: “aqueles que não aprendem com as lições da História estão condenados a repetir seus erros” (GONZÁLEZ, 2007).
















SUMÁRIO



EPÍGRAFE................................................................................................................................03
DEDICATÓRIA.......................................................................................................................04
AGRADECIMENTOS..............................................................................................................05
RESUMO..................................................................................................................................06
1 INTRODUÇÃO.....................................................................................................................08
2 O INÍCIO – A PRÉ-HISTÓRIA............................................................................................12
3 O TRAJETO – A HISTÓRIA................................................................................................16
3.1 – Medicina na Antiga Mesopotâmia...................................................................................17
3.2 – Medicina Chinesa.............................................................................................................19
3.3 – Medicina Indiano-Tibetana..............................................................................................21
3.4 – Medicina Egípcia.............................................................................................................23
3.5 – Medicina Grega................................................................................................................26
3.6 – Medicina Romana............................................................................................................28
3.7 – Medicina Árabe................................................................................................................31
3.8 – Medicina da Idade Média – Europa.................................................................................35
3.9 – Medicina do Século XV – Renascimento em diante........................................................37
3.10 – Medicina Americana......................................................................................................46
3.11 – Medicina Africana..........................................................................................................50
4 BREVE HISTÓRIA DA NEUROCIÊNCIA.........................................................................53
5 BREVE HISTÓRIA DA FILOSOFIA CLÍNICA.................................................................58
6 CONCLUSÃO.......................................................................................................................59
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................................60
8 REFERÊNCIAS.....................................................................................................................61


1  INTRODUÇÃO

A Medicina tem sua imutável base definidora no cuidado, na atenção e na preocupação com os que sofrem. Tais atividades ocorrem através do auxílio dos que sustentaram seu progresso e evolução. O conhecimento das ações do passado guia os objetivos da Medicina no serviço à humanidade (GONZÁLEZ, 2007).
Heródoto foi o primeiro a usar a palavra História (do grego, historie: inquirição) no sentido de pesquisa e relatório ou exposição dessa pesquisa.
Um dos métodos pioneiros de tratamento – empregados pelo Homem na Medicina – foi a utilização das plantas, já que a compreensão humana de que os vegetais possuem propriedades curativas teve seu início na pré-história. O termo Fitoterapia diz respeito ao uso de plantas medicinais. A História da Medicina e a da Fitoterapia estão entrelaçadas, visto que as plantas foram utilizadas como principal alternativa medicamentosa na antiga Mesopotâmia; nos antigos: Egito, Israel (essênios), Índia, Pérsia, Tibet, China, Japão, Grécia e Roma; na época bizantina; na Medicina Árabe antiga; e, mais tarde, na Idade Média e na Renascença (Formenti, 2000). Assim, até meados do século XIX, os medicamentos eram quase que exclusivamente formulados à base de vegetais.
Possivelmente, o Homem pré-histórico iniciou o hábito de procurar na natureza o alívio para suas aflições ao observar alguns animais que, quando doentes, buscavam nas ervas a cura para suas afecções. Logo, no princípio, o instinto parece ter guiado o Homem de encontro ao alívio de suas aflições, tal como acontece com os animais. Entretanto, no decorrer da História, surgiram outras interpretações que contribuíram para a utilização das plantas medicinais, como a da Bíblia Católica: “O Senhor criou medicamentos da terra, o Homem sensato não os despreza”. Há a versão de Maomé que – em seus ditos – mencionou: “Deus não fez subir sobre a terra doenças sem ter, ao mesmo tempo, feito subir os remédios” (Formenti, 2000).
Quase que a totalidade dos povos antigos foi totalmente fascinada pelas ações terapêuticas dos vegetais que, por séculos, tiveram suas propriedades atribuídas à magia e aos deuses (Pezzella, 1980). Para os gregos, foi o deus Esculápio que descobriu as plantas medicinais. Já entre os Romanos, Plínio – o velho deixou escrito: “É muito evidente que a descoberta das plantas medicinais é obra dos deuses ou que, pelo menos, uma inspiração divina tenha guiado os mortais a tal descoberta” (Formenti, 2000).
A moderna farmacologia tem suas raízes na Herbosteria e muitos princípios ativos tradicionais têm origem vegetal, sendo atualmente produzidos também em laboratório (Bellavite et al, 2000).
Voltando à História da Medicina propriamente dita, em 1862, Edwin Smith encontrou no Egito um papiro que datava de 2500 a.C. Esse papiro, de autoria desconhecida, continha a primeira referência à denominação “cérebro”, além de possuir riqueza de detalhes anatômicos, fisiológicos e neuropatológicos para a época. Vale ressaltar que o povo do Egito antigo fez enormes avanços na Medicina graças ao seu sofisticado processo de mumificação de corpos, pois, ao abrirem os cadáveres, conseguiam muitas informações sobre a Anatomia Humana. Em 2000 a.C. são registradas arqueologicamente as primeiras evidências de uma espécie de cirurgia neurofisiológica chamada Trepanação.
Sabe-se que os gregos dos primeiros tempos foram os pioneiros no estudo dos sintomas das doenças. Eles responsabilizavam os deuses pelas enfermidades. Assim, as doenças contagiosas eram vistas como “castigos divinos”. Por outro lado, os deuses também poderiam curar as pessoas, bastando que lhes fosse feito o sacrifício apropriado (GAARDER, 1991). Vale ressaltar que essa ideia de castigo ou de causa sobrenatural para as doenças não era privilégio dos gregos antigos.
Enquanto os filósofos gregos enveredavam por um caminho de reflexão novo, por volta do ano 460 a.C.,  nascia na ilha de Cós o médico Hipócrates considerado o “Pai da Medicina” , que buscou explicações naturais para a saúde e a doença (GAARDER, 1991).
Em 450 a.C., seriam descritos os primeiros estudos da anatomia do cérebro, que foram feitos em animais pelo médico grego Alcmaeon. Discípulo de Pitágoras, filósofo, cientista e médico, Alcmaeon foi o primeiro pensador a contestar as ideias cardiocentristas (paradigma egípcio Cardiocêntrico) afirmando ser o cérebro o centro das sensações. Em Alexandria, por volta do ano 300 a. C., Herophilus e Erasistratus foram os primeiros a dissecarem cérebros humanos e a compará-los com cérebros de animais. Para esses homens, o centro da inteligência residia nos ventrículos cerebrais. Eles afirmavam ser o cérebro responsável pela razão e pela alma. Foram eles os pioneiros nas distinções entre nervos sensoriais e motores.
Os romanos também tiveram um grande conhecedor da Medicina (o grego Galeno, médico e filósofo que morava em Roma), o qual postulou as bases da Medicina da Antiguidade que dominaram e influenciaram a Ciência Médica ocidental por mais de um milênio. No entanto, após Hipócrates e Galeno, a Medicina apresentou poucos avanços.
Edn-El Mathram, um dos médicos de Saladino, formulou uma teoria no século XI que se aproxima da metodologia homeopática, sistematizada séculos mais tarde (Formenti, 2000).
No mundo ocidental, durante o período religioso da Idade Média (1100 – 1500), os estudos por dissecação foram condenados pela Igreja. Em relação às cirurgias cerebrais, por exemplo, as mesmas somente poderiam ser praticadas no intuito do tratamento da loucura (e realizadas por clérigos formados). Durante o citado período, era comum que o médico procurasse curar praticamente todas as doenças recorrendo à sangria. Tal método era realizado, principalmente, com a utilização de sangue-sugas.
Para um médico trabalhando na Europa em qualquer época compreendida entre o período de 1200 e 1600 d.C., havia certo número de textos disponíveis. Tais textos descreviam a estrutura do corpo e do cérebro; outros descreviam as funções dos órgãos e, alguns, o tratamento das doenças (GLIMCHER, 2004). Entretanto, quase todos esses textos eram atribuídos a Galeno, médico e filósofo grego-romano do século II d.C.
Durante a Idade Média é patente a noção de que as doenças poderiam ser produzidas por meio de contágio. Porém, as interpretações sobre as causas iam desde a influência dos planetas, envenenamento de poços pelos judeus e leprosos, bruxarias, entre outras. Essas dúvidas culminam com a elaboração, no século XVI (por Fracastoro) de uma teoria do contágio, que foi sendo desdobrada através de novas concepções, fazendo surgir a Teoria Miasmática, que seria hegemônica por um grande período de tempo.
Com o surgimento do Renascimento Cultural (séculos XV e XVI), houve um grande avanço da Medicina. Movidos por enorme desejo de descobrir o funcionamento do corpo humano, médicos buscaram explicar as doenças através de estudos científicos e testes de laboratório.
Em 1543, surge o primeiro Tratado de Anatomia. Andreas Versalius (1514 – 1564), médico belga, é considerado o “Pai da Anatomia Moderna”. Foi autor da publicação De Humani Corporis Fabrica, um atlas da Anatomia Humana ricamente ilustrado. Sua ferramenta de trabalho era a dissecação de cadáveres. Versalius afirmou que o corpo humano era uma estrutura orgânica e não algo habitado por humores mágicos ou sobrenaturais. Contudo, no século XVII, William Harvey fez uma nova descoberta: o sistema circulatório do sangue. A partir daí, os Homens passaram a compreender melhor a Anatomia e a Fisiologia humanas. No século XIX, todo o conhecimento ficou mais apurado após a invenção do microscópio acromático. Com esta invenção, o francês Louis Pasteur conseguiu um enorme avanço para medicina, ao descobrir que micro-organismos são responsáveis pela causa de grande parte das doenças.
A Medicina evoluiu substancialmente nos últimos dois séculos, principalmente com:  o surgimento da Microbiologia (Louis Pasteur, século XIX); o advento da Medicina Preventiva; o fortalecimento da indústria farmacêutica; etc. Porém, estamos distantes de obter a cura (e mesmo o alívio) para diversos sofrimentos que atingem o Homem. Podemos lembrar que as epidemias dizimaram muitas vidas nas gerações passadas. A morte de crianças era bastante frequente até há alguns decênios e poucas eram as famílias que não perdiam um parente em tenra idade.
A Ciência Médica progrediu enormemente nas últimas décadas. A vacinação em massa praticamente erradicou várias doenças. Por conseguinte, cresce o número de anciãos e, com isso, aumenta o número de vítimas de tumores e doenças crônicas associados diretamente ao envelhecimento e, também, ao estilo de vida “contemporâneo”. Concomitantemente, eleva-se o número de pessoas com distúrbios psicossomáticos, com problemas de comportamento e de ajustamento. Há mais casos de transtornos emocionais nas salas de espera dos consultórios médicos do que jamais houve (KÜBLER-ROSS, 1981). As pessoas tentam enfrentar seus anseios, angústias e conflitos (ressaltando o receio da morte) buscando profissionais da saúde. Outras vezes, elas recorrem a representantes religiosos e mesmo a assistentes sociais ou estudiosos das áreas humanas.
Mais recentemente, os filósofos passaram a resgatar a Filosofia como a mesma foi definida por Platão: “uso do saber em proveito do homem”, ou seja, como um método de pesquisa voltado para o homem e seu universo existencial. Foi assim que, no final dos anos 1980, o filósofo brasileiro Lúcio Packter iniciou a sistematização da Filosofia Clínica, área do conhecimento que faz uso da Filosofia acadêmica para servir de instrumento e auxílio às pessoas. Para a Filosofia Clínica, “não há um mestre e um aluno, não há um conhecimento pré-elaborado, não há fórmulas mágicas. Há, sim, um filósofo clínico e uma pessoa ou partilhante que caminham juntos através do ‘diálogo’, mas é a pessoa que encontra em si mesma um saber que julgava não possuir” (PAULO, 1999).
            A História da Medicina coaduna-se com a História da Filosofia e da humanidade, já que são co-existentes. Quem se dedica a estudar a História do Homem, procura escutar o que já foi dito, observar o que já foi feito e se interessar pelas lições aprendidas com as ações passadas.






2  O INÍCIO – A PRÉ-HISTÓRIA


É de conhecimento popular a história dos dezoito patos negros. No princípio, o primeiro observador contou que viu sete cisnes brancos, brancos como a neve, sobrevoando lindamente um lago a alguns quilômetros da cidade. De boca em boca, o acontecido foi se espalhando. Como cada um que conta um conto aumenta, altera ou inventa um ponto, em um mês era narrado o fato de terem sido avistados dezoito patos negros como carvão nadando tranqüilamente na piscina pública da cidade. Em trinta dias, o fato narrado nada tinha a haver com o fato ocorrido. Se num curto espaço de tempo, o acontecimento foi alterado e modificado, que – apesar de baseado em um fato observado – o que estava sendo contado, então, não passava de uma falsa interpretação, como pode ser contada com toda a certeza, ou mesmo com pequena certeza, o percurso do uso das plantas medicinais no decorrer da História? É nesse ponto que entra em palco a arqueologia, "ciência que estuda a vida e a cultura dos povos antigos por meio de escavações ou através de documentos, monumentos, etc., por eles deixados" (AURÉLIO, 2001).
A idade geológica da Terra é de aproximadamente cinco bilhões de anos. Há 3,5 bilhões de anos, a Terra estava constituída de rochas e mares. A partir desses elementos básicos, foram constituídas as mais variadas formas de vida vegetal e animal. Há 500 milhões de anos, os vegetais gigantescos e os insetos imperavam no planeta. Por volta de 260 a 65 milhões de anos atrás, os dinossauros dominaram a Terra. Por motivos que ainda estão sendo investigados e estudados, os dinossauros foram extintos. O espaço por eles cedido permitiu que os mamíferos se desenvolvessem e se espalhassem pelas terras então existentes (BLAINEY, 2005).
Quando teria surgido o Homem? O que é oficialmente apresentado pelos antropólogos é o seguinte:

Pitecantropo de Java (viveu até por volta de 01 milhão de anos atrás);
Sinantropo de Pequim (viveu de 01 milhão até 430 mil anos atrás);
Homem de Neanderthal (viveu de 240 a 35 mil anos atrás);
Homem de Cro-Magnon ou Homo sapiens (viveu desde 140 mil anos atrás até os dias de hoje). (BLAINEY, 2005, p. 8).

As descobertas dos últimos anos têm mostrado que é muito improvável ser verdadeira a versão simplificada de Charles Darwin – no que tange à evolução humana em linha única! Atualmente, a maioria dos antropólogos acredita que houve vários ramos estilo “beco sem saída” da árvore genealógica da humanidade. Não se sabe com certeza se o Homem de Neanderthal viveu num período em que já vivia o Homem de Cro-Magnon. Evidências recentes sugerem que eles possam nunca ter se encontrado (BLAINEY, 2005).
Foram as pesquisas arqueológicas que nos mostraram que o Homem de Neanderthal, ridicularizado e desdenhado durante muito tempo, usado como símbolo da brutalidade subumana, estendia seus mortos para o descanso com oferendas e flores. Um dos esqueletos mais conhecidos do Neanderthal é o de um jovem que aparentemente foi enterrado com verdadeira ternura, sendo colocado na postura de quem dorme, a cabeça sobre o antebraço. Sua cabeça descansava sobre fragmentos de sílex cuidadosamente empilhados formando uma verdadeira almofada (BLAINEY, 2005).
Em algum trecho ao longo do seu caminho, o Homem de Neanderthal passou a acreditar numa vida após a morte. Na maioria dos seus túmulos, foram encontrados machado e outras ferramentas (que alguém deve ter pensado que poderiam ser utilizadas por eles posteriormente).
Há um emocionante túmulo dos tempos do Neanderthal onde foram encontrados feixes de pólen de, no mínimo, oito espécies de flores – espécies pequenas e brilhantes. Alguém – nas brumas da última Idade do Gelo – caminhou pelas encostas montanhosas, cheias de perigo, com a tarefa de colher flores para os mortos (BLAINEY, 2005).
O que nos mostra – as investigações arqueológicas – é que o Homem, para retirar da natureza o que era necessário à sua sobrevivência, teve que, ao longo do tempo, fazer observações e experiências que hoje podem ser apontadas como início do que chamamos de "espírito científico". Pouco a pouco, o Homem aprendeu a diferenciar as estações climáticas e todas as mudanças que ocasionam no mundo animal e vegetal. Animais e vegetais foram progressivamente observados e classificados (Wrangham, 1996).
O que poderia assegurar que as plantas medicinais teriam sido conhecidas pelos primitivos Homo Sapiens e/ou anteriormente pelos grupos hominídeos ou pré-hominídeos que existiram?
O antropólogo Richard Wrangham – da Universidade de Harvard (em seu livro: “O Macho Demoníaco” de 1996) – refere que o chipanzé (Pantroglodytes), o parente mais próximo do Homem, tem uma inteligência notável e faz uso dela para:

1) Colocar cocos sobre uma pedra e os quebrar com um calhau. É como se usassem martelo e bigorna;
2) Mastigar um punhado de folhas. O “bolo” vira uma esponja que absorve a água existente em poças rasas;
3) O conhecimento de dezenas de plantas medicinais. Eles as colhem e as mascam quando se sentem mal;
4) Formar equipes para caçar. Um grupo "fica de tocaia" e o outro atrai a presa para a armadilha (WRANGHAM, 1996).

As mães dos chipanzés ensinam essas habilidades aos filhos. E ainda corrigem os erros. Moradores das regiões interioranas brasileiras (e das regiões florestais do Brasil) contam casos similares observados no comportamento de diversas espécies de primatas.
Quando os cães sentem indisposições estomacais, diarréias, prisão de ventre e outras disfunções digestivas, comem capins ou outros vegetais (se livres), papéis, madeiras, terra; lambem óxido de ferro (se presos em casa); comem frutas como mamão (inclusive a casca), laranja, maçã, etc. (Wrangham, 1996).
Comportamentos similares aos acima descritos são observados em diversas outras espécies de animais. Acredita-se não restar dúvidas de que o conhecimento e o uso das plantas medicinais pelo Homem se confundem com sua própria criação.
A pesquisa arqueológica também nos ensinou que os Homens da Idade da Pedra eram fundamentalmente ligados à magia. Há cerca de onze mil anos, com o início da agricultura – realizada primeiramente apenas pelas mulheres –, surgiu o cultivo do trigo, da cevada e de outros cereais. Com a agricultura e com a domesticação de animais, iniciou-se o desenvolvimento do pastoreio. É dessa mesma época o desenvolvimento da cerâmica, da fiação e da tecelagem.
No início, o Homem expulsou as feras das cavernas e nelas passou a habitar. Posteriormente, de 8000 a 6000 anos atrás, foram criadas as tendas com peles de animais, bem como palafitas e palhoças feitas de barro e madeira, agrupadas em aldeias. Aprendeu-se a usar fermentos e levedos, a fabricar-se o pão e bebidas como a cerveja, que era oferecida aos deuses.
Com todos esses desenvolvimentos, uma grande mudança ocorreu no tocante à vida espiritual. Como já foi dito, o Homem estava muito ligado à magia. À medida que se tornavam sedentários, dedicando-se à agricultura e ao pastoreio, os seres humanos passaram a depender muito mais das forças da natureza. O sol, a chuva, a fertilidade do solo, as doenças e as pragas passaram a afetá-los muito mais (CAPLAN, 1993).
As preocupações com o dia a dia, com o futuro e com a morte, bem como os mistérios da natureza, colaboraram para o surgimento da idéia de deuses e demônios que, dotados de poderes sobrenaturais, governavam o universo (CAPLAN, 1993).
Por volta de 6000 anos atrás, com o aparecimento das cidades, do estado e da escrita, encerra-se a pré-história. Todavia, foi com o surgimento da escrita que nasceu a História, já que os grupos humanos passaram a registrar os mais diversos aspectos da sua experiência na Terra.

3  O TRAJETO – A HISTÓRIA

No século XX, a arqueologia surpreendeu-se com a descoberta de tabuletas de argila no túmulo da rainha Shubad, localizado nas ruínas de Ur, cidade da muito antiga Suméria. As referidas tabuletas continham prescrições para o tratamento da dor. Essas tabuletas têm agora mais de 5000 anos de idade.
Graças às inscrições encontradas em diversas regiões do planeta (gravadas em cavernas, paredões rochosos, cascos de tartarugas, tabuletas de cerâmica, papiros, paredes de túmulos e em livros feitos em seda), surgiu o conhecimento de que plantas medicinais, tão rotineiramente utilizadas nos dias de hoje, já eram empregadas na Antiguidade. De acordo com as literaturas do passado longínquo, que chegaram aos dias atuais, os antigos médicos (mágicos, sacerdotes, pajés, xamãs, etc.) conheciam com profundidade as substâncias que utilizavam, suas propriedades terapêuticas, as doses a serem ministradas e, inclusive, levavam em consideração a eficiência e a seguridade, bem como possíveis associações (que poderiam aumentar o efeito e mesmo diminuir a toxidade).
É de conhecimento geral que a humanidade perdeu vastas informações com a destruição da biblioteca de Alexandria (e de inúmeras outras que foram destruídas pela insensatez do Homem no decorrer dos conflitos armados ao longo da história). Foi, portanto, necessário redescobrir o que já estava descoberto, incluindo farto conhecimento ocultado pelas chamas da Inquisição. Boa parte do saber “médico” da Antiguidade permaneceu sob o domínio do conhecimento empírico. Para fins didáticos, faz-se necessário separar a História da Medicina - em alguns ramos principais - que forneceram a base para a moderna Medicina globalizada:

01 – Medicina na Antiga Mesopotâmia;
02 – Medicina Chinesa;
03 – Medicina Indiano-Tibetana;
04 – Medicina Egípcia;
05 – Medicina Grega;
06 – Medicina Romana;
07 – Medicina Árabe;
08 – Medicina da Idade Média - Europa;
09 – Medicina do Século XV (Renascimento) em diante;
10 – Medicina Americana;
11 – Medicina Africana.
3.1  MEDICINA NA ANTIGA MESOPOTÂMIA

O nome Mesopotâmia (que significa “a terra entre rios”) se refere à região situada próxima aos rios Tigre e Eufrates, no Oriente Médio. Devido à combinação do solo fértil com a necessidade do trabalho humano organizado, no sudeste dessa região, onde hoje se situa o atual Iraque, desenvolveu-se a primeira civilização humana, que ficou conhecida como os “Sumerianos”. As origens dessa civilização ocorreram há mais de 5500 anos, ou seja, por volta de 3500 a 3700 a.C. Há cerca de 3500 anos, os Sumerianos já tinham desenvolvido muitos dos aspectos que caracterizaram as civilizações subsequentes. Contudo, acredita-se que a verdadeira civilização sumeriana passou para a História por volta de 3100 a.C., com o advento da escrita cuneiforme (CAPLAN, 1993). Essa escrita reinou absoluta por cerca de 2000 anos. Como resultado, várias tabuletas cuneiformes sobreviveram, mas não muitas concernentes à prática da Medicina. Destas últimas, a maioria é proveniente da biblioteca de Asshurbanipal, o último grande rei da Assíria. A mencionada biblioteca foi construída no palácio do rei em Nineveh. Quando o palácio foi incendiado por invasores, cerca de 20.000 tabuletas de barro foram “cozidas” (e portanto preservadas) pelo grande fogo (CAPLAN, 1993).
Da antiga Mesopotâmia, o mais antigo conhecimento de Medicina que conseguiu chegar até os presentes dias recebe o nome de “Tratado de Diagnóstico e Prognóstico Médico”. Esse tratado contém o conhecimento “clínico” (fitoterápico) da Mesopotâmia adquirido durante muitos séculos de história. São textos racionais e alguns dos tratamentos prescritos mencionam, por exemplo, a terapêutica empregada para sangramentos excessivos, onde as plantas (que estão bem descritas, o que contribuía para a sua fácil identificação) são essencialmente as mesmas do tratamento moderno. Por volta de 2600 a.C., os registros mostram que os médicos eram sacerdotes e farmacêuticos ao mesmo tempo. Eles precisavam invocar os deuses e descreviam nas tabuletas os sintomas das doenças. Esses médicos eram peritos na administração empírica de ervas medicinais. Várias drogas foram identificadas nessas tabuletas, enquanto outras identificações se perderam, já que os mesopotâmicos muitas vezes utilizavam metáforas para designar algumas substâncias vegetais (THORWALD, 1990).
Uma outra fonte de informações acerca da Medicina na antiga Mesopotâmia é o “Código de Hamurabi” (1700 a.C.). Essa coleção não foi escrita em tabuletas de argila. Foi encontrada descrita em um grande bloco de pedra. Um de seus textos fala sobre um tratamento à base de óleo vegetal com ação anti-bacteriana (NAGY, 1970).
À título de esclarecimento, em 1924, na Inglaterra, os técnicos do Museu Britânico conseguiram identificar 250 vegetais, minerais e substâncias diversas cujas virtudes terapêuticas eram conhecidas pelo médicos babilônios. Nos pergaminhos da época são citadas ervas como o cânhamo indiano, utilizado como analgésico nos casos de reumatismo (CAPLAN, 1993).

3.2  MEDICINA CHINESA

Praticada há mais de 5000 anos, como as demais Medicinas da Antiguidade, valia-se dos rituais mágicos, purgativos e de feitiçarias. Acreditava que as doenças eram originadas por deuses e/ou demônios que castigavam os Homens devido ao desequilíbrio do Homem com a natureza (castigo dos deuses e/ou demônios) e consigo mesmo. Na China, acreditava-se na existência de 36000 demônios (THORWALD, 1990).
A arte da cura pertencia aos sacerdotes, já que tinham o poder de expulsar os demônios e assim possibilitar que o Deus protetor livrasse o doente de seus males.
A cura era efetuada através de danças, encantamentos, orações e exorcismos. Os galhos do salgueiro Salix purpúrea L. e do pessegueiro Prunus pérsicae L. eram muito utilizados nos rituais de exorcismo. Os sacerdotes preparavam os remédios com a utilização de mais de 1000 plantas e de mais de 700 substâncias medicinais já conhecidas na Antigüidade. O livro Bem Gao Gang Mu (clássico das Raízes e Ervas) que ao longo dos séculos foi recebendo acréscimos, na edição “publicada” no ano de 1596, tem em registro 1892 substâncias medicinais, das quais 1173 são plantas (CAPLAN, 1993).
A Medicina Chinesa começou a se afastar da religião há cerca de 3100 anos, porém, a ligação sacerdote/médico durou oficialmente por mais 500 anos. Em torno de 2700 a.C., o imperador Shen Nung investigou o valor medicinal de várias ervas. Ele disse ter testado várias dessas medicações em si mesmo e, também, escreveu o primeiro Pen T-Sao, ou Ervas Nativas, registrando 365 drogas (CAPLAN, 1993).
Há mais ou menos 2600 anos, surgem os primeiros moldes dos conceitos da Medicina Chinesa: o equilíbrio Yin-Yang, a lei dos cinco elementos/movimentos, a origem das doenças por fatores naturais ou por desequilíbrio dos órgãos internos.
A Medicina Chinesa perdeu sua face religiosa, mas conservou os conceitos de fisiologia energética, a acupuntura, dietas especiais, exercícios e toda sua farmacopéia.
O manual clínico mais importante da Medicina Tradicional Chinesa é o Shang Hang Lun (estudo sobre “Doenças Agudas Causadas pelo Frio”) escrito por Chang Chung-Ching (142-220 d.C.). A fama e a reputação de Shang Hang Lun tornou-se quase tão grandiosa quanto o livro Chin Kuei Yao Lueh (ou “Prescrições da Câmara de Ouro”), conhecido como a origem histórica das mais importantes fórmulas fitoterápicas, servindo de base para a fitoterapia chinesa e chino-japonesa, que recebe o nome de “Kampo” (THORWALD, 1990).
A Medicina Chinesa nos dias atuais está espalhada por todo o mundo, quase sempre conquistando novos profissionais para a sua prática. Apesar das explosões de modernidade nas ciências, mesmo que inconscientemente, as mentes de seus praticantes permanecem com vestígios de ordem mágica.

3.3  MEDICINA INDIANO-TIBETANA

Sabe-se que há mais de 5000 anos, na região onde hoje se situa a Índia, surgiu o Ayurvedismo (conhecimento da vida), que se fundamenta na crença de que a saúde ideal nada mais é do que o perfeito equilíbrio do Homem com a natureza. O conhecimento médico era passado oralmente de mestre para discípulo, embora a Medicina Ayurvedica seja oficialmente considerada a mais antiga por possuir os primeiros relatos escritos (CAPLAN, 1993).
Os praticantes do Ayurvedismo acreditam que tudo o que existe no planeta, inclusive nós, é formado por cinco elementos: espaço, ar, fogo, terra e água. O espaço (éter) representa a ligação entre os Homens e os deuses. O ar representa o movimento. O fogo é o calor. A terra permite a obtenção da consistência. A água possibilita a aderência da combinação.
A combinação entre os cinco elementos forma os três tipos básicos de constituição física e psicológica dos seres humanos (dosha). Ar combinado com espaço forma Vata. Fogo combinado com água forma Pitta. Água combinada com terra forma Kapha.
As pessoas de Vata seriam criativas e alegres, porque o ar está sempre se movimentando. As pessoas de Pitta seriam empreendedoras e objetivas, porque Pitta é o dosha do fogo, o elemento da transformação. As pessoas de Kapha seriam amorosas, equilibradas e estáveis, porque Kapha é o dosha da água e da terra.
Uma consulta com um médico Ayurveda pode durar horas. A primeira coisa que fará é descobrir o dosha do doente. Alguns médicos indianos dizem poder identificar o dosha à primeira vista. Após fazer perguntas detalhadas sobre o doente, desde o dia do seu nascimento, cada particularidade e detalhe é observado e examinado: pulsação, língua, olhos, lábios, temperatura da mão, linhas do rosto; modo de falar e caminhar, inclusive os “tiques nervosos”.
Para o Ayurvedismo, o corpo pode revelar mais detalhes sobre a saúde do que jamais imaginou a filosofia alopata.
Um dos tratamentos mais comuns na Medicina Ayurvédica é uma desintoxicação feita à base de massagens utilizando-se uma infusão à base de óleos e plantas. Tal infusão penetra no corpo eliminando toxinas, diminuindo o estresse, melhorando o sistema imunológico e ativando a circulação.
A alimentação é um ponto muito importante. Cada dosha necessita um tipo de dieta especial. Por exemplo: quem é Vata, deve evitar frutas secas e cereais porque seu organismo já é pouco hidratado; quem é Pitta, deve evitar comer pimenta e amendoim, alimentos “quentes” e energéticos.
Disciplina, reeducação alimentar, exercícios respiratórios, de meditação e de postura, aliados às massagens, esse é o escudo da Medicina Ayurvédica para proteger as pessoas das moléstias.
A Medicina Tibetana é a única Medicina antiga que permanece leal à origem religiosa das doenças. Firmemente apoiada nos ensinamentos de Buda, no xamamismo local Bön e na medicina Ayurvédica, ela atribui importância especial aos fatores psicossociais como responsáveis pela perturbação do equilíbrio e, portanto, geradores de doenças.
Apesar de mundialmente conhecida e aplicada, é – sobretudo no Tibet e na Mongólia – que ela continua presente (CAPLAN, 1993).

3.4  MEDICINA EGÍPCIA

Há cerca de 5000 anos, subiu ao trono Geser, o Grande, primeiro faraó da III dinastia (Menfita). Foi nessa dinastia que o Egito assumiu a ordem e as características (de união e prosperidade) em que se baseou o glorioso desenvolvimento de sua civilização.
No reinado de Geser, o Grande, surge a misteriosa figura de Imhotep. Estadista, astrônomo, arquiteto, sacerdote e acima de tudo médico. Imhotep desenvolveu a escrita, inventou a arte de construir com pedra entalhada, aperfeiçoou o calendário e foi o primeiro e mais competente médico da nação. Os colonos gregos o chamavam de Imouthes, identificando-o como o próprio deus da Medicina, Esculápio (CAPLAN, 1993).
Imhotep construiu um santuário próximo à cidade de Mênfis, uma combinação de templo e sanatório. Naquele local, ficavam congregados: o doente, para ser curado; o aleijado, para ser colocado em forma; o estéril, para se tornar fértil; egípcios, gregos e romanos. No local, também funcionava uma escola de Medicina dirigida pelos discípulos de Imhotep. Assim, médicos inexperientes obtinham seu treinamento (BIBLIOTHECA ANTIQUA, 2006).
Entre os vários documentos descobertos sobre a Medicina Egípcia, dois são fundamentais: o Papiro Smith, de cinco metros; um perfeito tratado de cirurgia óssea e de patologia interna; foi comprado em Tebas por Edwin Smith em 1862 (citado na Introdução); atualmente, encontra-se em exposição no Museu Britânico. O segundo: o Papiro de Ebers, que possui vinte metros de comprimento. Ele contém quarenta e seis diagnósticos e cerca de cinquenta receitas misturadas a inúmeras fórmulas “mágicas” e astrológicas, que provavelmente serviam para auto-sugestionar o paciente. Esse papiro foi comprado em Tebas pelo egiptólogo alemão Georg Ebers em 1873. Ebers, após ter decifrado a introdução, foi surpreendido pela frase: "aqui começa o livro relativo à preparação dos remédios para todas as partes do corpo humano". Atualmente, encontra-se na Biblioteca da Universidade de Leipzig como sendo o “primeiro tratado médico egípcio conhecido” (BIBLIOTHECA ANTIQUA, 2012).
Pode-se afirmar que 2000 anos antes do aparecimento dos primeiros médicos gregos, já existia uma Medicina Egípcia organizada (CAPLAN, 1993).
Dentre as plantas mais utilizadas pelos egípcios é indispensável citar o zimbro, a semente de linho, o funcho, o alho, a folha de sene e o lírio.
O médico (sacerdote) egípcio auscultava o doente e conhecia os tipos de afecção do coração, do fígado, dos intestinos, etc. A função do cérebro era caracterizada; sabia-se que uma lesão na parte esquerda podia causar a paralisia da parte direita do corpo e vice-versa. Praticava-se corretamente a cirurgia e as fraturas e luxações eram sanadas. Quanto aos ferimentos, alem da operação, praticavam-se os pontos. Usavam-se esparadrapos.
O câncer, “doença que devora os tecidos”, era colocado entre as doenças incuráveis ou que deviam ser tratadas cirurgicamente.
As lesões pulmonares eram tratadas com inalações. As do fígado, com dietas vegetarianas. Os distúrbios gástricos, com clisteres e óleo de rícino.
A odontologia era avançada, pois em várias múmias foram encontrados dentes obturados e dentes frouxos ligados àqueles sãos com fios de ouro.
As oftalmias eram muito comuns e curavam-se com o sulfureto de antimônio. Havia também uma pomada que curava, sem que hoje saibamos como, o estrabismo.
A anestesia era conhecida. Utilizava-se o ópio.
Os médicos ocupavam um grau muito elevado na escala social. Eram sacerdotes de Sekhmet (feroz deusa da guerra), a qual, porém, terminada a batalha, passava a tratar dos feridos. O fato que deixou Heródoto perplexo foi que todos os médicos egípcios eram especialistas: “Cada médico cura apenas uma doença, e não mais que uma. Todos os lugares andam cheios de médicos, visto que há doutores para os olhos, para a cabeça, para os dentes, para o abdômen e para as doenças não identificadas” (CAPLAN, 1993).
A Medicina Egípcia era, pois, muito famosa em todo o mundo da Antiguidade: Homero, na sua Odisséia, menciona: “no Egito, mais que em qualquer outro lugar, todos sabem da cura pela arte divina” (CAPLAN, 1993).
A mais famosa das escolas de Medicina foi a de Saís, que foi considerada também, a primeira Universidade do mundo.
Já existia, no antigo Egito, uma legislação relativa à Medicina. O aborto era severamente punido e, segundo Diodoro Siculo, já deveria existir também algum tipo de órgão assistencial (isso de 2000 a 3000 anos antes do advento da Medicina Social em países como a Inglaterra, a Alemanha e a França): “Em tempo de guerra, e durante as viagens dentro das fronteiras do Egito, todos os doentes são curados gratuitamente, visto que os médicos são pagos pelo Estado” (NAGY, 1970).
A Medicina popular de todos os dias era repleta de superstições. O mal era considerado influência de um espírito maligno e, antes do tratamento orgânico, seria necessária sua expulsão do corpo do paciente (com as adequadas fórmulas de esconjuro). Após, iniciava-se o tratamento com as mesmas formas de hoje: comprimidos, supositórios, produtos cozidos, clisteres, inalações, etc.
Não se sabe exatamente o que continham esses produtos, já que as fórmulas eram secretas. A posologia de uma pomada para ferimentos na cabeça chegou ao nosso conhecimento, cujo papiro original se encontra no Museu de Leiden.
Além da magia, é obvio que, naquela época, a publicidade já era considerada importante. Os ingredientes conhecidos mais usados eram: o óleo, o alho, a levedura de cerveja, o mel, a cicuta (planta venenosa da família das Umbelíferas), as sementes de linho, a cebola e, inclusive, o sangue das serpentes.
O povo egípcio contribuía e a higiene era uma sistemática de vida. Os egípcios tomavam banho duas a três vezes ao dia. Raspavam a cabeça (tanto o homem como a mulher) para que fosse evitado o piolho, ou mesmo outros parasitas. Durante algum tempo, praticaram a circuncisão. Pelo menos em três dias consecutivos do mês, praticavam o jejum porque julgavam que as doenças eram provocadas pelos alimentos. Os pós anti-sépticos e unguentos contra picadas de insetos eram muito utilizados. Para completar, o povo egípcio procurava ter ou trazer junto de si uma quantidade significativa de talismãs para que, assim, ficassem protegidos contra as doenças (CAPLAN, 1993).
Depois de ter-se espalhado ao redor do Mediterrâneo, Grécia, Roma, e, por fim, misturar-se a outras práticas (inclusive com a dos árabes), tornou-se, uma das raízes da medicina européia, base da Medicina do mundo ocidental do presente.
A Medicina do Oriente Médio não se perdeu por completo; todavia, foi a que mais se transformou devido à sua entrada na Europa (CAPLAN, 1993). E essa Medicina (do Oriente Médio) possuía muitas características da Medicina Egípcia.

3.5  MEDICINA GREGA

Foram sobretudo os gregos e, mais tarde, os romanos, que herdaram e aperfeiçoaram os conhecimentos egípcios. Todo esse conhecimento médico egípcio foi passado para o mundo grego junto com o conhecimento médico babilônico. Os gregos assimilaram, assim, enorme volume de material, acumulado por mais de 3000 anos de experiência. Através da eliminação da magia e da superstição, fundaram com Hipócrates a moderna Medicina.
Os gregos eram famosos por utilizarem as rosas. Estas últimas são bem anteriores ao homem. Folhas fósseis de rosas de aproximadamente 25 milhões de anos atrás foram encontradas no continente europeu, no extremo Oriente e na América do Norte. A mitologia grega conta que a rosa surgiu do sangue derramado por Afrodite, que se feriu na busca de seu amado Adônis (que, por sua vez, havia sido ferido mortalmente por um javali).
Na antiga Grécia, existia o costume de se colocar coroa de flores na porta da casa dos apaixonados e na casa onde nascia uma criança. Ramos de flores enfeitavam as mesas dos banquetes e eram oferecidos aos visitantes. Aos cozinheiros, que executavam algum prato considerado muito especial, eram ofertadas grinaldas de flores. Durante os acontecimentos importantes, as ruas eram enfeitadas com fileiras de violetas. As crianças que completavam o terceiro ano de vida recebiam como presente coroa de violetas. Na antiga Grécia, a mortalidade infantil era muito alta e o ato de presentear as crianças com flores era considerado como um agradecimento à vida. Os atenienses eram extremamente apaixonados pelas violetas. No inverno, eles as protegiam do frio, colocando-as em pequenos pátios cercados por altos muros cobertos com esteiras.
Homero é a fonte mais antiga do conhecimento grego. Os dois poemas épicos atribuídos a Homero, a Ilíada e a Odisséia, datam em torno do VIII século antes de Cristo. Contudo, esses famosos poemas pouco mencionam a Medicina da época (CAPLAN, 1993).
Hipócrates (460 - 375 a.C.) é usualmente considerado um mestre completo da Medicina racional ou científica. Ele pode também ter sido o primeiro médico natural em um sentido mais moderno, pois ele utilizou remédios naturais simples, tais como vinagre, mel, ervas e hidroterapia na cicatrização (CAPLAN, 1993). Hipócrates reuniu a totalidade dos conhecimentos médicos de seu tempo no conjunto de tratados conhecidos pelo nome de “Corpus Hipocraticum”, onde, para cada enfermidade, descreve um medicamento (vegetal) e o tratamento correspondente (CAPLAN, 1993).
Já Teophrastus (340 a.C.) escreveu “De Historia Plantarum” e “De Causis Plantarum”, onde descreveu vários tipos de plantas, como elas eram utilizadas na Medicina e muitas outras observações. Houve ainda Krateus (100 a.C), herbalista grego que é considerado a primeira pessoa a produzir um livro ilustrado sobre plantas medicinais (Nagy, 1970).
Uma descrição extensa sobre ervas na antiga Grécia é encontrada no “De Materia Medica” (do ano 78 d.C) de Dioscorides Pedanius (de Anazarbos), considerado a fonte autorizada de informação farmacológica até o Renascimento. No prefácio desse livro de Dioscorides, o autor chama a atenção para a experiência e o conhecimento de mais de 500 plantas, classificando-as de acordo com suas propriedades. Aproximadamente, 80% consistem de plantas medicinais, 10% mineral e 10% animal (NAGY, 1970).

3.6  MEDICINA ROMANA

Como os romanos copiavam quase tudo dos gregos, o modelo de prática médica também o foi. À vista disso, ambos (os gregos e os romanos) baseavam e estruturavam a prática médica nos conhecimentos advindos do Egito antigo. Concomitantemente, tal como os gregos, os romanos cultivavam rosas, violetas, lírios e jacintos. Todavia, a modesta violeta era a flor que apresentava maiores encantos e poder “protetor” (contra males de toda sorte, inclusive doenças) para os romanos. No começo, eles importavam as rosas do Egito. Como a procura era muito grande e os preços fossem elevados, os romanos passaram a cultivá-las. No auge do seu poder, Roma produzia toda a quantidade necessária de rosas, mas tinha que importar comida. Destarte, o poeta Marcial (aproximadamente 38-103 d.C.) imortalizou os seguintes versos: “A vós, egípcios: hoje, as rosas romanas são mais belas que as vossas. Agora, já não mais necessitamos de rosas, porém de vosso trigo”.
Vale ressaltar que os romanos eram conhecidos por apreciarem o uso de “bebericagens” venenosas, as quais (suspeita-se) fossem constituídas de plantas tóxicas. Há citações do uso de preparados (à base de ervas?) maléficos utilizados com o intuito de eliminar personalidades na Roma antiga (PETRÔNIO, séc. I d.C.).
Plínio (60 d.C.) é o autor da maior compilação sobre plantas do período do Império Romano, conhecida como “História Natural”. Plínio afirmou que para cada doença há uma planta específica que a trata e que isso traria certo prejuízo (afinal, ele acreditava que se uma planta servisse para determinada doença não serviria para outra, o que, atualmente, sabe-se ser um pensamento errôneo).  Embora Plínio não tenha sido muito crítico, ele utilizou escritos que não sobreviveram, tornando-se fonte de registro do uso de plantas na Medicina antiga. Plínio listou mais de 1000 plantas (CAPLAN, 1993).
Cláudio Galeno ou Élio Galeno, em latim Claudius Galenus (Pérgamo, 129 d.C. – provavelmente Sicília, 217 d.C.), mais conhecido como Galeno de Pérgamo, foi um proeminente médico e filósofo romano de origem grega; provavelmente, o mais talentoso médico investigativo do período romano (NUTTON, 1973). Suas teorias dominaram e influenciaram a Ciência Médica ocidental por mais de um milênio. Ele deixou relatos de Anatomia Médica baseados em macacos, visto que a dissecação humana não era permitida no seu tempo. Tais observações anatômicas foram insuperáveis até o surgimento da descrição impressa e das ilustrações de dissecções humanas por Andreas Vesalius em 1543. Por conseguinte, Galeno é também um precursor da prática da Vivissecção e experimentação com animais (NUTTON, 1973).
Galeno escreveu uma pequena obra chamada "O Melhor Médico é Também um Filósofo". Ele via a si próprio como sendo ambos, o que significava embasar a prática médica no aparente conhecimento teórico ou "filosófico", como era chamado em seu tempo. Galeno estava muito interessado na disputa entre as facções médicas racionalistas e empiristas, além da utilização da observação direta, da dissecação e da vivissecção (já citadas), utilizações essas como forma de fundamentar a formação do médico e a prática médica em si (FREDE & WALZER, 1985).
Ainda, o famoso médico grego acima citado (que viveu em Roma) ligou o seu nome ao que se denomina "farmácia galênica", onde as plantas não eram mais usadas na forma de pó e sim em preparações, nas quais se utilizavam solventes (como álcool, água ou vinagre, que serviam para conservar e concentrar os componentes ativos dos “remédios”), sendo as referidas preparações usadas para a produção de unguentos, emplastros e outras formas galênicas (CAPLAN, 1993).
Galeno descreveu seus primeiros anos de vida em "Sobre as Moléstias da Mente". Nascido em setembro de 129 d.C., seu pai Élio Nicon foi um rico patrício, arquiteto e construtor com interesses ecléticos, incluindo Filosofia, Matemática, Lógica, Astronomia, Agricultura e Literatura. Ele relatou que seu pai era um "homem muito afável, justo, bom e benevolente". Naquela época, Pérgamo era um grande centro cultural e intelectual, notável por sua biblioteca (expandida por Eumenes II), só inferior à de Alexandria e atraía tanto filósofos estoicos como platônicos, a quem Galeno foi apresentado aos 14 anos. Seus estudos também abrangeram cada um dos principais sistemas filosóficos da época, incluindo o Aristotélico e o Epicurista. Seu pai tinha planejado uma carreira tradicional para Galeno na Filosofia ou na política e teve o cuidado de expô-lo a influências literárias e filosóficas. No entanto, Galeno afirma que, por volta de 145, seu pai teve um sonho em que deus Esculápio apareceu e ordenou a Nicon que seu filho estudasse Medicina. Novamente, nenhuma despesa foi poupada e após sua inicial educação liberal, aos 16 começou a estudar no prestigiado santuário local ou Asclepeion, dedicado a Esculápio, o deus da Medicina, como um θεραπευτής (auxiliar para tratamento ou atendente) por quatro anos. Lá, sofreu influências de homens como Aeschrion de Pérgamo, Stratonicus e Sátiro. Esses santuários funcionavam como “spas” ou sanatórios onde o doente vinha procurar ajuda do sacerdócio. O templo de Pérgamo era procurado avidamente pelos romanos em busca de uma cura. Foi também o refúgio de pessoas notáveis como Cláudio Charax, o historiador, Aélio Aristeides, o orador, Polemo, o sofista, e Cáspio Rufino, o cônsul (NUTTON, 1973).
Galeno iniciou seus estudos em Filosofia e Medicina por volta de 146 d.C. em Pérgamo, sua cidade natal. Após dois anos, achou que nada mais tinha a aprender e partiu para outros centros como Esmirna, Corinto e Alexandria a fim de se aperfeiçoar. Voltou para Pérgamo em 157, julgando terminada sua instrução. Passou, então, a ocupar o cargo de médico da escola de gladiadores, especializando-se em Cirurgia e Dietética.
Sendo Roma o centro do mundo àquela época, Galeno partiu para aquela cidade em 162. Ao curar um milionário de nome Eudemo, a fama alcançou-lhe os passos. Tão famoso ficou que se tornou médico particular do imperador romano Marco Aurélio. Suas conferências sobre Medicina e Higiene eram tão concorridas que Galeno as apresentava em um teatro. As aulas práticas que conduzia contemplavam vivissecção e necropsia. Assim, permaneceu em Roma até 192, afastando-se da cidade apenas por um curto período em que esteve no Oriente Médio. Ao fim da vida, retornou para Pérgamo.
Durante a decadência de Roma, a influência dos bárbaros fez com que parte das práticas médicas romanas se dissipasse. À título de curiosidade, o imperador Heliogábalo (218 a 222 d.C.) mandava encher as banheiras públicas com água de rosas. Várias salas de seu palácio eram decoradas com tapetes de flores. Além das rosas, o imperador apreciava as violetas e na sua cozinha eram preparados manjares com pétalas de violetas tostadas com rodelas de laranja e limão. Heliogábalo foi o inventor das almofadas perfumadas sobre as quais seus convidados se deitavam (CAPLAN, 1993).

3.7   MEDICINA ÁRABE

Os árabes, como os francos, os saxões e os normandos foram bárbaros que assimilaram os conhecimentos gregos. A capacidade de assimilação do povo árabe, entretanto, era mais desenvolvida do que a dos demais povos e, na virada do milênio, quando o Cristianismo começou a estimular as Cruzadas contra os árabes, estes últimos representavam o povo mais civilizado do mundo medieval. O conhecimento da Medicina da Grécia antiga foi transmitido para os árabes através dos cristãos sectários oriundos do Império Bizantino, os quais traduziam autores gregos para linguagens semíticas como o siríaco e o hebreu para o desenvolvimento de sua própria literatura médica clássica. Grandes escritores árabes surgiram como Rhazes, Avicenna e Averroes.
O conhecimento médico da época recebeu profunda influência da astrologia, o que determinou o surgimento de pseudociências como a alquimia. A alquimia procurava descobrir a relação do homem com o cosmos combinando ciência e astrologia de tal maneira que a astrologia analisava a relação do homem com os planetas e a alquimia, com a natureza terrestre. Acreditavam existir uma relação entre o microcosmo e o macrocosmo, de tal maneira que os sete planetas conhecidos (Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Saturno e Vênus) correspondiam aos sete dias da semana e aos sete metais conhecidos na época (ouro, prata, ferro, chumbo, estanho, cobre e níquel). Os alquimistas ficavam até altas horas da noite tomando café e fazendo experiências, pois acreditavam que todos os metais eram gerados nas entranhas da Terra, sob a influência apropriada dos planetas e que podiam transmutar-se. O objetivo era descobrir a pedra filosofal para ser possível transformar os demais metais em ouro. Extrapolando para o Homem a idéia da transmutação, os alquimistas acreditavam ser possível tornar o Homem imortal e eternamente jovem, através da descoberta do elixir da longa vida.
Mas, na procura do elixir da longa vida, sempre tomando muito café, os alquimistas fizeram inúmeras descobertas importantes em química, iniciando a moderna química farmacêutica. A pesquisa incessante nesse campo (e o contato amplo dos alquimistas árabes com diferentes povos e costumes) permitiu a descoberta e introdução de um fabuloso número de novos produtos e de medicamentos. O próprio elixir da vida, embora não tenha sido descoberto, passou a ser chamado Al Kohol (mais tarde latinizado para álcool) e os médicos e pacientes árabes tomavam imensas bebedeiras deste elixir, para usufruírem uma vida bem longa, algo que nunca deu certo. Na atualidade, o consumo de álcool é um dos maiores problemas da humanidade; as conseqüências (do seu vício) matam mais do que muitas outras doenças. Mas, mesmo não comprovando que o álcool era realmente o elixir da longa vida, pelos menos descobriram que a “bebedeira” poderia ser uma fórmula de imensa, temporária e enganosa felicidade. O movimento alquimista culminou na obra de Paracelso (1493-1541 d.C.), médico suíço que avaliaremos mais adiante.
O primeiro centro dominante do islamismo foi Bagdah, onde dois grandes líderes reinavam: Al Mansur (712-775 d.C.) e Harun Al Rachid (764-809 d.C.), o califa das Noites da Arábia. Esses governantes encorajavam e apoiavam a cultura em geral, o que levou à preservação da Antiguidade clássica. A atividade intelectual era imensamente ajudada pelo consumo regular e moderado de café entre os Islâmicos.
Os grandes vultos da Medicina Árabe foram:
1) Razi ou Rhazes: Muhammad ibn-Zakariyya al-Razi. Nascido em 865 d.C. em Ray, subúrbio de Tehran, faleceu em 925 d.C. Iniciou seus estudos com Música, tornando-se exímio tocador de alaúde, dedicando-se posteriormente à Filosofia e à Medicina (fez suas maiores contribuições à última). Recebeu também formação em Física e Química. Segundo Ragip:
Seu primeiro cargo de destaque foi o de médico da corte do príncipe Abu Saleh Al-Mansur, soberano de Khorasan. Posteriormente mudou-se para Baghdah, onde se tornou médico chefe no hospital da cidade, e médico da corte do Califa. Designado para definir o local da construção do hospital, espalhou pedaços de carne pendurados em vários pontos da cidade, e depois examinou seu estado de putrefação, recomendando a construção do hospital no local onde a carne apresentou menor decaimento. Com este procedimento, pode ser considerado o primeiro médico a inferir a putrefação bacteriológica da carne, sugerindo o papel ambiental que o ar desempenha no desenvolvimento das infecções. Há registro de 56 trabalhos na área médica atribuídos a Rhazes, entre eles podem ser citados: Al-Hawi", que significa Texto Completo. Trata-se de uma enciclopédia de conhecimento médico, com 22 volumes, baseados em sua experiência e observações pessoais. Também, "Al-Mansuri", dedicado ao seu patrono o califa Al-Mansur, composto por dez tratados, incluindo todos os aspectos referentes à saúde e doença. Refere-se a três campos da Medicina: saúde pública, medicina preventiva e tratamento de doenças específicas, enunciando sete princípios para a preservação da saúde: 1. Moderação e equilíbrio no movimento e no repouso, 2. Moderação no comer e no beber, 3. Eliminação dos excessos, 4. Aperfeiçoamento e adequação dos locais de habitação, 5. Evitar ocorrências excessivamente nocivas antes que se tornem incontroláveis, 6. Manter a harmonia nas ambições e nas resoluções, 7. Aquisição de resistência através do cultivo de bons hábitos incluindo exercícios. Rhazes descreveu os diferentes tipos de febre, afirmando que a febre pode ser um sintoma de doença ou uma doença em si mesma. Introduziu o mercúrio como droga terapêutica, pela primeira vez na história, o qual foi posteriormente adotado na Europa. Enfatizou que a vontade de curar-se, por parte do paciente, é fator importante no processo de restabelecimento, sem o qual as mãos do médico estão atadas. Sua obra teve enorme impacto na Medicina Islâmica, e se tornou texto básico nas escolas médicas por muitos anos (RAGIP, 2000).
2) Ali ibnul-Abbas: Al-Majusi, conhecido como Haly Abbas no ocidente, faleceu em 994 d.C., foi um renomado médico em Baghdah, diretor do hospital Adud-Dawlah. Sua obra, o "Livro Completo da Arte Médica", tornou-se texto básico no ensino da Medicina, tratando de temas como: Anatomia, classificação e causas das doenças, sintomas e diagnósticos, urina, catarro, saliva, pulso como auxiliares no diagnóstico, manifestações externas visíveis das doenças e doenças internas como febre, dor de cabeça, epilepsia, sinais indicativos de morte ou recuperação, higiene, dieta, terapia com drogas simples, terapias para febres, doenças da respiração, digestão, reprodução, tratamento com medicamentos compostos e áreas como: Cirurgia e Ortopedia.
3) Abulcassis: Abu al-Qasim Khalaf ibn al-Abbas al-Zahrawi, conhecido como Abulcassis no ocidente, nasceu em Córdoba, então capital da Andaluzia, em 930 d.C., falecendo em 1013 d.C. Foi eminente cirurgião, sendo que uma de suas obra Äl-Tastif, em trinta volumes, trata dos princípios gerais da Medicina, os elementos e a fisiologia dos humores, tratamento sistemático das doenças, da cabeça aos pés, e um volume dedicado inteiramente a questões  cirúrgicas. Foi o primeiro livro texto de cirurgia com ilustrações de instrumentos utilizados, até então publicado. Seu prestígio foi tal que foi utilizado em escolas de Medicina na Europa até o século 17 d.C. Ele enfatizava a importância do conhecimento de Anatomia e Fisiologia como essenciais antes de levar adiante qualquer cirurgia. Algumas operações são realizadas hoje em dia da mesma maneira que ele descreveu quase 1000 anos atrás, como, por exemplo: varicose, redução de fraturas cranianas e retirada de feto morto com fórceps. Descreveu a ligadura das artérias; utilizou cauterização para estancar sangramento; descreveu e realizou traqueotomia em situação de emergência; escreveu sobre ortodontia, extração de dentes, fixação, reimplantação, dentes artificiais, além de ter descrito duzentos instrumentos cirúrgicos dentais.
Em sua época, a Cirurgia foi uma especialidade respeitável praticada por médicos renomados, enquanto que na Europa, menosprezada, era praticada por barbeiros e açougueiros, tendo sido banida das escolas de Medicina no Conselho de Tours em 1163 d.C (RAGIP, 2000).
4) Avicenna: Abu-Ali Husayn ibn-Abdallah ibn-Sina, conhecido no mundo ocidental como Avicenna, aclamado por alguns historiadores com o maior médico de todos os tempos, nasceu em Bukhara, na Ásia Central, em 980 d.C, falecendo em 1073 d.C. Um prodígio, aos 10 anos já havia memorizado o Sagrado Alcorão; aos 16, dominava várias ciências como: Matemática, Geometria, Lei Islâmica, Lógica, Filosofia e Metafísica. Aos 18, já havia aprendido tudo que havia por saber em Medicina, tornando-se, logo em seguida, primeiro ministro e médico da corte do governante de Bukhara. Escreveu seu primeiro livro aos 21 anos. Nos 30 anos que se seguiram, escreveu mais de 100 livros, 16 deles sobre Medicina. Sua obra "Kitab al-Qanun fi al-Tibb", conhecida como "O Canon da Medicina" (composta por cinco volumes), foi traduzida para o latim e foi utilizada como livro texto de Medicina em escolas da Europa cristã até o século 16 d.C. Em seus cinco volumes, trata de: princípios gerais e teorias da medicina, drogas simples organizadas em ordem alfabética, doenças localizadas da cabeça aos pés, doenças generalizadas do corpo e drogas compostas. Foi concomitantemente considerado um grande filósofo. Sugeriu a natureza contagiosa da tuberculose. Também recomendou a aposição de vinho em feridas, o que se tornou prática comum na Idade Média. Avicenna ainda foi o introdutor da idéia do uso de anestésicos por via oral. Além do mais, criou um dispositivo que extrai óleo essencial e que é utlizado até os dias atuais (RAGIP, 2000).
5) Averroes: Ibn-Rushud, conhecido com Averroes, nasceu em Granada em 1126 d.C., falecendo em 1198 d.C. Estudou Filosofia, Medicina e Lei, sendo profundamente influenciado pela obra de Aristóteles. Entre suas obras tem-se "Al-Kulliyat fi al-Tibb", um sumário da ciência médica em sua época, e "Al-Taisir", versando sobre Medicina prática e descrições clínicas de doenças.
6) Al-Nafis: Ala'el-din ibn-al-Nafis, nasceu no vilarejo de Kersh próximo a Damasco, falecendo em 1288 d.C. Aprendeu Medicina e Filosofia em Damasco e passou a maior parte de sua vida no Cairo. Era médico, linguista, filósofo e historiador. Foi também o primeiro chefe do hospital Al-Mansuri no Cairo e decano da escola de Medicina em 1284 d.C. Em sua obra, escreveu 10 livros de Medicina. Em "Sumário do Canon", baseado nos escritos de Avicena, revê e corrige alguns conceitos deste e de Galeno.
A farmacologia fixou suas bases no século IX d.C., com Yuhanna ibn Masawayh (777-857 d.C.), que começou o estudo científico e sistemático das aplicações terapêuticas. Posteriormente, seus seguidores desenvolveram métodos de confirmar a efetividade das drogas através da experimentação com pessoas, bem como aprimoraram métodos de prognóstico e diagnóstico.  A proliferação de droguistas levou à regulamentação da profissão, instituindo-se a concessão de licenças para exercício da função, através de aprovação em um exame de proficiência. Farmácia tornou-se uma profissão independente e separada da Medicina e da alquimia. Inspetores aplicavam penas severas aos boticários que adulteravam drogas. Os médicos eram proibidos de comerciar medicamentos ou conservar estoques em farmácias.  Com as técnicas desenvolvidas, foram introduzidas novas drogas como: cânfora, sena, madeira de sândalo, ruibarbo, almíscar, mirra, cássia, tamarindo, noz-moscada, alume, babosa, cravo-da-índia, coco, noz-vômica, cubeba, acônito, âmbar cinzento, mercúrio e outras. A influência dos muçulmanos no desenvolvimento da química e da farmácia modernas está registrada no grande número de palavras e expressões derivadas do árabe, como: droga, álcali, álcool, aldeído, alambique, elixir, xarope e outras. Criaram extratos aromáticos de água de rosa, água de flor de laranjeira, casca de limão e laranja, alcatira, e outros ingredientes. Enfim, a Medicina do Oriente Médio não se perdeu por completo, mas foi a que mais se transformou, devido à sua entrada na Europa (RAGIP, 2000).
3.8  MEDICINA DA IDADE MÉDIA - EUROPA

Faz parte da Idade Média a já avaliada Medicina Árabe. Contudo, durante esse mesmo período, a prática médica na Europa – embora sofresse influência árabe – era inferior a esta última, possuindo – porém – as suas particularidades.
A escola médica de Salerno (séculos XI e XII), localizada na Itália, foi famosa e era um influente centro médico, salientando-se a figura do médico cristão “Constantino, o africano”, quem se acredita ser o responsável pela introdução da Medicina Árabe na Europa. Essa escola médica foi a primeira do seu gênero, conhecida por seus mestres e pelo seu horto-botânico. Era aberta a alunos de qualquer nacionalidade. Segundo Maurizio R. Sena:

No século XII, surgiu também a Università di Montpellier, considerada por muitos como uma “filial” da escola de Salerno. O espanhol Arnaldo da Villanova (1240-1312 d.C.), animado por um espírito independente de pesquisa, era o mestre mais ilustre (...). Para muitos autores, foi o primeiro a intuir que os princípios ativos presentes nas plantas eram extraídos pelo álcool durante a maceração (SENA, 2006).

Havia a crença no poder das rosas, nascida nos tempos da Grécia remota. Dar a alguém um ramalhete de flores era símbolo de um amor secreto que não podia ser revelado. Mas, poderia simbolizar também o desejo de saúde, já que nesse mesmo período, muito se acreditava no poder curativo das flores. Pensava-se que as rosas curavam tudo, inclusive a loucura. Aos lírios eram atribuídos poderes parecidos.
A pessoa que era mordida por uma cobra, recebia o tratamento com pétalas de lírios trituradas. Chegou-se à crendice de que as flores poderiam evitar as epidemias que assolavam o mundo da época. Luís IX, rei da França (1226 – 1270 d.C.), no comando de uma cruzada à Terra Santa, em Tunis, no Norte da África, mandou lançar cravos sobre as pessoas. Não foi por gentileza e nem para homenagear. Ele acreditava piamente que dessa forma estava combatendo com bastante vigor a peste que dizimava o mundo medieval. Sabe-se, contudo, que a Grande Peste Negra ocorreu em meados do século XIV, com surtos anteriores e posteriores a essa data (SENA, 2006).
As péssimas condições sanitárias e o desconhecimento da etiologia das doenças levaram ao surgimento de epidemias que dizimaram populações e mudaram o curso da história. Foi deste modo que a Grande Peste Negra do século XIV foi a maior pandemia infecciosa da trajetória da humanidade, embora não tenha sido a primeira. Responsável por cerca de 25 a 30 milhões de morte, a Peste Negra trouxe consequências sócio-econômicas e culturais. Em um capítulo de Decameron, Boccacio descreve a Peste em 1353:

“... A tragédia incutiu tamanho horror nos corações dos homens que irmãos desertam irmãos. As mulheres abandonavam seus maridos. Pais e mães recusavam-se a cuidar ou se aproximar de seus filhos.”


Com relação à utilização das plantas e flores no decorrer da História da Medicina, temos que registrar a estagnação e/ou mesmo retrocesso ocasionado pela Igreja Católica. Durante praticamente mil anos, o Ocidente ficou sob o domínio das autoridades da Igreja, que dominaram a Religião e o Estado. Além de se julgarem responsáveis pelos dons espirituais do ser humano, sentiam-se também responsáveis pelos dons materiais. Foi um período de certa estagnação intelectual. O Homem ocidental mergulhou na "proibição". Contudo, dentro dos monastérios, existia a “farmácia monástica” (do 5º ao 12º séculos). Esses “cientistas” preservavam manuscritos traduzidos ou copiados em suas bibliotecas. Os monges coletavam ervas dos campos ou as cultivavam em seus próprios jardins, os quais ainda nos dias de hoje podem ser encontrados nos monastérios de muitos países.
Somente a partir do Renascimento, a Medicina conseguiu desvincular-se da religião. Até por volta de 1500 d.C., a Igreja Católica manteve a crença de que todas as doenças eram castigos de Deus devido aos pecados praticados pelos seres humanos. Os remédios essenciais eram as preces, as mortificações e a rigorosa obediência aos dogmas da Igreja.

3.9  MEDICINA DO SÉCULO XV - RENASCIMENTO EM DIANTE

Até fins do século XIV, a Medicina praticada no Ocidente era uma somatória dos conhecimentos provenientes do Egito, da Grécia, de Roma e dos Árabes. Às plantas nativas, nos países Europeus, juntaram-se as provenientes do Oriente.
Foi, no entanto, durante o Renascimento, surgido das sombras da Idade Média, com a valorização da experimentação e da observação direta, com as grandes viagens para as Índias e a posterior colonização das Américas, que se deu origem a um novo período de progresso no conhecimento da Medicina. O movimento renascentista permitiu que pessoas e nações saíssem da estagnação e melhorassem o conhecimento do corpo humano, através das dissecações dos cadáveres, surgindo então a Anatomia. A descoberta de novas terras no final do século XV – com suas vastíssimas reservas naturais – enriqueceram muito as possibilidades do conhecimento. A alquimia sai dos esconderijos com Paracelso, que depois ficou conhecido como o “Pai da Química. A Fitoterapia tem um novo impulso e passa a se encaminhar à modernidade, sem abandonar certos princípios do passado.
A partir de século XV, houve uma preocupação em catalogar um grande número de vegetais, identificando-os e classificando-os de acordo com a procedência, e características dos princípios ativos.
A primeira farmacopéia oficial foi criada em 1498, em Firenze (ou Florença), Itália. Foi resultante da colaboração entre a Sociedade Médica local e os apotecários daquela cidade-estado, sob orientação do poderoso monge dominicano Savarola que, naquele tempo, era o líder político de Firenze.
Mesmo o famoso italiano Leonardo da Vinci (1452 1519 d.C.) estudou a Anatomia Humana, a Botânica e a Fisiologia Vegetal, observando o percurso da linfa, a disposição das folhas nas várias espécies. Ele tentou isolar os princípios ativos de algumas plantas (SENA, 2006).
Otto Brunfelds (1488 – 1534), um pastor e naturalista, também médico da cidade de Bern, ofereceu o primeiro trabalho original em Botânica, conhecido com “Herba” ou “Herbal”. Esse trabalho foi ordenado em classificação alfabética e enfatizava mais as ilustrações das plantas que as descrições escritas. A obra de Brunfelds motivou Hieronymous Bock, que completou o “Herbal”. O trabalho de Bock foi mais verdadeiramente científico que o de Brunfelds e é considerado um dos pilares para os subsequentes estudos de Botânica. Bock, que viveu entre 1498 e 1554, propôs-se não somente a identificar, mas também a descrever as características dos vegetais. Ele foi o primeiro a classificar as plantas em três categorias: ervas, arbustos e árvores. Apesar dele não ter desenvolvido conceitos como “gêneros” ou “espécies”, seu trabalho serviu de base para Lineu. Bock desenvolveu o protótipo da moderna fitografia, a ciência que descreve as plantas. Em edições posteriores, contudo, os editores acreditaram que ilustrações poderiam ser incluídas para tornar o livro mais útil (NAGY, 1970).
Pietro Andréa Mattiolo (1500 1577) foi um dos mais famosos herbalistas do século XVI, além de ter sido responsável pela incorporação de muitas plantas do “Novo Mundo” dentro do conhecimento botânico. Ele era conhecido como o médico pessoal do Arqueduque Maximilian de Praga em 1555.
A era de Shakespeare (1564 1616 d.C.), mais particularmente o início do Século XVII, assistiu o final de uma época de inocência em relação a bebidas consumidas pela humanidade. Até então, a experiência de longa data demonstrava que o vinho e a cerveja eram muito mais seguros que a água poluída da época (fonte de doenças). O vinho constituiu por séculos o componente essencial da dieta alimentar, existindo como única alternativa a cerveja. Em 1613, depois de escrever sua última peça, A Tempestade, Shakespeare se recolheu a sua casa nova em Battersea, nos arredores de Londres, enquanto que nesse mesmo ano (em Islington, uma aldeia no alto de uma colina próxima a Londres), foi concluído um projeto revolucionário. O Novo Rio, um aqueduto de sessenta quilômetros de extensão, concebido por um gaulês de nome Hugh Myddleton, levou água potável em abundância aos londrinos pela primeira vez, muito embora os cidadãos da antiga Roma tenham também conhecido a água potável vários séculos antes (NAGY, 1970).
Voltando ao início do século XVI, o já citado médico suíço Paracelso (1493 1541) tentou relacionar as virtudes das plantas com as suas propriedades morfológicas, sua forma e sua cor. Conhecida como a "teoria dos sinais" ou "teoria da similitude". Esse ilustre médico foi o pioneiro no uso de produtos químicos e de minerais na prática médica, esforçando-se, assim, em vincular a Medicina à alquimia, o que levou ao surgimento de uma nova ciência: a Química Médica ou Iatroquímica. Durante sua existência, a alquimia esteve ligada de um lado à química e, de outro, à religião mística. Paracelso considerava que uma doença podia ser curada com aquilo que com ela tivesse semelhança. Como já foi mencionado, esse pensamento não era original do médico suíço. Também os índios da América do Sul, e possivelmente nativos de outros continentes, tinham as mesmas idéias sobre os sinais das plantas e suas relações com o valor curativo.
O maior avanço científico do século XVI foi a descoberta da circulação do sangue e o desenvolvimento da Metodologia Científica pelo inglês William Harvey (1578 1657 d.C.), um grande admirador e consumidor de café. Embora menções existissem sobre a circulação do sangue, a elaboração não apenas da teoria, mas a comprovação morfológica e experimental da circulação do sangue por Harvey criou uma nova era no pensamento humano a era da experimentação clínica. Harvey legou para a História da Medicina o raciocínio lógico, onde o médico não é obrigado a aceitar uma teoria apenas porque ela é atraente e conveniente, ou porque ela foi elaborada por alguém famoso e influente. Harvey rejeitou definitivamente a teoria de Galeno sobre a circulação do sangue e ensinou a todo médico que ele não deve acreditar em tudo que lhe é informado. Ele (o médico) deve: “confirmar tudo que for possível; esta é a única maneira de existir progresso, evolução e conhecimento”. A descoberta da circulação de Harvey levou a duas conclusões lógicas: a possibilidade do uso intravenoso (IV) de medicamentos (uma pesquisa efetuada em 1656 por Sir Christopher Wren, Boyle e Wilkins); e a possibilidade da transfusão de sangue. Harvey recomendava o consumo de café para todas as pessoas e todos os seus pacientes.
Em 1649, o filósofo e matemático René Descartes (1596 – 1650) postulou a dicotomia entre cérebro e mente. Além de suas valiosas contribuições no campo da Filosofia e da Ciência Moderna (como colaborador do método científico, especificamente no campo da até então desconhecida neurociência), fez com que suas pesquisas culminassem na obra De Homini, onde propunha os mecanismos de reação automática e onde também descreveu como ocorria a comunicação entre mente e corpo, que seria através da glândula Pineal. Esta controlaria o fluxo de informações entre os dois sistemas. Com essa nova forma de ver e perceber o corpo humano, Descartes inaugura a Teoria Mecanicista, a qual apregoa ser o corpo uma máquina normalmente controlada pela alma (ver mais adiante, quando será feito um relato resumido da história da neurociência).
O médico inglês Thomas Willis (1621 – 1675), em 1664, publica o primeiro Tratado de Neuroanatomia e Neurofisiologia. A obra Cerebri Anatome inaugura a nomenclatura moderna da neurociência. Palavras como Neurologia, Hemisfério, Lobo, Pirâmide, Corpo Estriado entre outras surgiram nesse tratado.
Robert Hooke (1635 – 1703) ficou famoso com seu livro “Micrographia”, publicado em 1665. Ele descobriu uma célula de planta através de determinado sistema de iluminação e microscopia. É, conseqüentemente, considerado o “Pai da Micrografia”. Seus estudos microscópicos inspiraram Antony van Leeuwenhoek (1632-1723), um cientista holandês que visualizou os espermatozóides pela primeira vez e descobriu a bactéria “free-living” (embora a microbiologia tenha oficialmente nascido com o francês Louis Pasteur, no século XIX).
Não se pode deixar de mencionar o apotecário francês, nascido em Rouen, Nicholas Lemery (1645-1715). A respeito de Lemery, segue abaixo, um texto extraído do site da Bibliotheca Antiqua:
Autor de Pharmacopée universelle, que foi lançado na França (1697), sendo logo traduzida para o italiano, contendo as doses, o modo de preparar, as combinações, a sinonímia e as indicações. Estudou química e farmácia em Rouen, tornou-se apotecário em Paris (1667), e ensinou farmacologia. Graças à sua competência, praticou medicina antes mesmo de obter seu diploma na disciplina. Publicou um influente livro de texto sobre química, Cours de chimie (1675), onde adotava o teoria atômica, assumindo que as partículas fundamentais tinham forma característica. Esse livro desfrutou de tremendo sucesso e permaneceria como um texto básico durante mais de 100 anos, reimpresso mais de 20 vezes e em muitos idiomas. Viajou por toda a França, dando conferências e coordenando seminários farmacológicos, atraindo estudantes importantes para preparações de compostos inovadores de excelente qualidade em laboratório. Publicou também A Course of Chymistry Containing an easie Method of Preparing those Chymical Medicines Which are Used in Physik. London (1698), a primeria publicação a fazer a distinção entre química vegetal, a hoje orgânica, e mineral, a nossa inorgânica. Publicou o seu Tratado sobre o antimônio (1707), no qual o estuda sobre todos os aspectos, inclusive descrevendo a preparação do antimônio metálico e suas propriedades.Descobriu um processo comercial para a produção de ácido sulfúrico. Obteve ácido bórico do bórax e pesquisou a química do sulfureto de antimônio, e ainda analisou a cânfora e o mel. Nos seus escritos levava em conta a doutrina de Paracelsus e dos alquimistas, mas distanciava-se do que considerava ser metafísico e inútil. Assim, foi perseguido por razões religiosas, mas foi admitido na Academia de Ciências (1699). Ainda foram importantes e alcançaram grande popularidade Traite des drogues simples (1698) e o póstumo Pharmacopeè universale (1742) (BIBLIOTHECA ANTIQUA, 2006).


Os europeus, em plena Idade Moderna, não se livraram da obsessão pelas flores. A tulipa, flor que simbolizava a amizade e a simpatia, provocou estragos na Holanda no século XVII, onde se tornou negócio tão lucrativo que despertou cobiças, gestos tresloucados e levou muita gente à miséria. Muitos holandeses venderam seus bens para comprar bulbos de tulipas, que eram importados da Turquia. Por um único bulbo, os holandeses foram capazes de dar toneladas de trigo e centeio, bois, ovelhas, leitões, barris de cerveja, roupas e taças de prata. Houve quem trocasse 48 mil metros quadrados de terra (praticamente dois alqueires paulista e/ou um alqueire mineiro) por um único bulbo.
Já no início do século XVIII, nasceu Carlos Lineu em Stenbrohult, Suécia, vulto de importância na História da Medicina relacionada à Fitoterapia. Por essa mesma época, o fisiologista francês Luigi Galvani (1737 – 1798) descobriu a chamada “eletricidade animal”. Ele observou que as pernas de um sapo morto se contraem quando presas a uma mesa de ferro por ganchos de metal; assim, atualmente, o instrumento que mede a corrente elétrica se chama galvanômetro em homenagem a ele. E galvanização é o nome dado ao processo de recobrir um metal com outro metal.
Em 1741, nasce na Inglaterra Willian Withering (falecido em 1799). Estudante de Medicina em Edimburg, foi clinicar na pequena cidade de Stafford. Depois, mudou-se para Birmingham, que já despontava como um promissor centro industrial. Passou a integrar um grupo de intelectuais que formavam a Sociedade Lunar de Birmingham, assim chamada pelo fato de seus membros se reunirem em noites de lua cheia (não por se tratar de reuniões de bruxos e/ou mágicos, mas pelo simples fato de não haver iluminação nas ruas).
Em Birmingham, Winthering foi um médico de sucesso. Sua maior contribuição à Medicina foi a descoberta da ação terapêutica da digital (Digitalis purpúrea). Em seu trabalho intitulado “Account of the foxglove and some of its medical uses”, publicado em 1785, conta como fez a sua descoberta baseada na medicina popular:

No ano de 1775, tive minha atenção despertada para uma receita popular destinada à cura de hidropisia. Dizia-se que esta receita fora mantida em segredo por uma velha de Shropshire, que conseguia curar pacientes em que o tratamento médico havia falhado. Fui informado que tal medicação produzia vômitos violentos e efeito purgativo; os seus efeitos diuréticos aparentemente haviam passado despercebidos. A receita compunha-se de diferentes plantas, em número de vinte ou mais, porém, não foi muito difícil para um conhecedor perceber que a planta ativa dentre as empregadas não poderia ser outra senão a digital (SENA, 2006).


Withering experimentou as diversas partes da planta, encontrando maior atividade nas folhas. Chegou às doses em que poderia ser usada com segurança pelos pacientes, recomendando sua interrupção, caso houvesse náuseas e vômitos. Demonstrou que a hidropisia era a consequência da insuficiência cardíaca e não uma doença primitiva, como era considerada. Separou o edema cardíaco, que respondia bem com o tratamento com a digital, do edema da cirrose hepática, resistente à ação da digital. Aparentemente não percebeu a ação cardiotônica da digital, considerando-a como um diurético.
De acordo com a enciclopédia livre (Wikipédia), Samuel Hahnemann, o “Pai da Homeopatia”, teve uma longa vida e fez significativa contribuição à Medicina:
Christian Friedrich Samuel Hahnemann nasceu a 10 de Abril de 1755 em Meissen, na Saxónia. O seu pai Christian Gottfried Hahnemann era um pintor de porcelana, considerado um mestre na sua arte. Samuel foi o terceiro de quatro filhos do seu segundo casamento. Samuel Hahnemann considerava o seu pai como o seu “mestre”, pois as opiniões sobre a dignidade e moralidade coincidiam. Seu pai sempre tentou fazer com que o seu filho continuasse a sua profissão, mas o jovem Hahnemann resolveu-se pela sua forte inclinação intelectual. A sua insaciável procura por conhecimento tournou-o aluno perdilecto do seu professor que, após os estudos primários, convenceu o pai de Samuel a deixá-lo suguir estudos em St. Afra como aluno particular do professor Müller. Era aluno externo, pelo que residia com o professor e não pagava a escolaridade. Esta escola era frequentada por nobres locais, e tinha reputação de seriedade e qualidade de ensino. Hahnemann foi para Leipzig em 1775, depois de terminar os estudos de liceu, estudar medicina. Leipzig era, nessa altura, a capital intelectual da Saxónia. A sua Universidade era muito famosa. A faculdade de medicina apenas contemplava disciplinas de ensino teórico, descurando o ensino perto do doente, o que acontecia em todas as faculdades de medicina da Europa. Este tendência de dar mais importância à teoria que à prática encontrar-se-ia difundida por toda a Alemanha em 1790, o que explica o atraso cientifico das universidades alemãs da altura. Durante a estadia em Leipzig, Samuel Hahnemann fez muitas traduções de obras no domínio da medicina e química, o que permitiu estudar em pormenor estes campos. Em 1777 Hahnemann dirige-se para Viena, onde vai freqüentar a nova escola médica de Van Swieten, que tomava como importante a observação e ensino clínico junto do doente. Durante mais de seis meses Hahnemann acompanhou e observou as visitas do Dr. Joseph Quarin ao Hospital onde era médico respinsável. Este médico melhorou as condições de diversos hospitais e aprefeiçoou a clínica médica. Depois de seis meses em Viena, Hahnemann torna-se médico privado e bibliotecário do Governador de Transilvância. Em 1779 vai para Erlangen, onde defende a sua tese de doutoramento em medicina, seguindo depois para Dessau, onde conhece o farmacêutico Haeseler e a sua filha Henriette, com quem se casou. Na sala interior da farmácia do seu sogro inicia as suas experiências de química, ao mesmo tempo que mantém a atividade médica. Continuou o seu trabalho em traduções, às quais acrescentou sempre anotações pessoais, que o ajudaram a ficar conhecido na Alemanha. Trabalhou muito na pesquisa química, publicando diversos artigos em várias revistas de química e farmácia. Quando estava a traduzir a obra “As leituras da Matéria Médica” de Cullen, Hahnemann escreveu uma anotação onde criticou a opinião do autor sobre os efeitos da quina no tratamento da malária, que dizia tratar pelo seu sabor amargo. Hahnemann escreveu que não se pode considerar que a quina cure a malária por ser amarga, mas por causar os efeitos semelhantes aos da malária se tomada por alguém saudável, o que ele experimentou. Isto dá origem ao primeiro enunciado do princípio da semelhança. Hahnemann confirmou as suas descobertas no que diz respeito à chinchona, ao observar que os trabalhadores das fábricas de quinino sofriam do envenenamento da chinchona, que era semelhante à febre intermitente. Começou então a perceber que um remédio pode provocar as condições mórbidas de doença como curá-las, quando testado em voluntários humanos saudáveis. Mais tarde teve dois casos que ajudaram a essa sua teoria. Numa família com quatro crianças, três tiveram escarlatina e apenas uma, que estava a tomar Belladona para a artrite, escapou à infecção. Numa outra família com oito crianças, três tinham escarlatina, e Hahnemann deu às outras cinco Belladona em doses muito baixas. Nenhuma das cinco crianças ficou doente. A partir de 1796, Hahnemann volta aos seus trabalhos de tradução, apurando a sua doutrina e publicando diversos artigos em jornais de medicina prática. Nestes artigos expunha os absurdos e erros da medicina ortodoxa, a que eles chamava Alopatia. Durante anos andou inconstante, mudando de casa diversas vezes em poucos anos. Os seus recursos vinham quase exclusivamente das suas traduções. Em 1804 mantém-se em Torgau por sete anos, praticando medicina regularmente, num longo período de estabilidade. Regressa depois a Leipzig, e muda de casa mais duas vezes. Em Köthen exerceu prática médica regular, dando.lhe finalmente alguma estabilidade financeira, sendo então o período de maturidade da doutrina homeopática. Juntaram-se-lhe a ele diversos entusiastas da prática em conjunto, testaram várias drogas com todos os cuidados possíveis para eliminar o erro. Estes testes foram meticulosamente relatados, formando o núcleo da matéria médica homeopática, compilados na clássica Matéria Médica Pura (1811). Durante alguns anos foi estudando diversas drogas e seus efeitos e aplicações, ficando com uma profunda compreensão da patogenesia de muitas substâncias poderosas, e utilizou-as como remédios. Nesta base contruiu a arte da prática homeopática. Devido aos relatos incompletos ou inadequados dos toxicologistas, patologistas e clínicos, Hahnemann não teve opção senão testar os remédios e venenos em indivíduos saudáveis, que seriam ele, a sua família e amigos. Em 1810, Hahnemann publicou a primeira do famoso “ORGANON da medicina racional”, que foi uma ampliação do seu trabalho “A medicina da experiência”. Em vida publicou mais quatro edições, corrigidas e aumentadas em função das modificações da sua teoria, segundo a sua experiência. Passou a chamar-se “ORGANON A Arte de Curar”. Este livro depressa se tornou um clássico. Hahnemann morre a 2 de Julho de 1843 em Paris, França, deixando para a Humanidade os importante relatos e conclusões que, em vida, trabalhou e comprovou, para uma medicina mais Humana e coerente. Até à sua morte praticou medicina em Paris com grande sucesso (WIKIPÉDIA, 2006).



Em 1789, Edward Jenner (17491823), um médico naturalista britânico que clinicava em Berkeley, observou que as vacas tinham nas tetas feridas iguais às provocadas pela varíola no corpo de humanos. Os animais tinham uma versão mais leve da doença, a varíola bovina, ou bexiga vacum. Em 1796, resolveu pôr à prova a sabedoria popular que dizia que quem lidava com gado não contraía varíola. Ao observar que as mulheres responsáveis pela ordenha – quando expostas ao vírus bovino – tinham uma versão mais suave da doença, então ele conduziu sua primeira experiência com James Phipps, um menino de oito anos. Jenner inoculou com o pus extraído de feridas de vacas contaminadas (recolhendo o líquido que saía dessas feridas) e o passou em cima de arranhões que ele provocou no braço do garoto. O menino teve um pouco de febre e algumas lesões leves, tendo uma recuperação rápida. A partir de então, o cientista pegou o líquido da ferida de outro paciente com varíola e novamente expôs o garoto ao material. Semanas depois, ao entrar em contato com o vírus da varíola, o pequeno passou incólume à doença (princípio da imunidade). Pocuco mais tarde, no século XIX, Pasteur batizaria as vacinas com tal nome (relativo a “vaca”) em homenagem a Jenner.
O sueco Friedrich Wilhelm Adam Sertürner (1783 1841) isolou o princípio ativo do ópio, a morfina. Descobriu ainda a importância de uma nova classe de substâncias orgânicas: os alcalóides. Dois de seus contemporâneos, os franceses Joseph-Bienjamin Caventou e Pierre-Joseph Pelletier, isolaram a estricnina da noz-vômica, entre outros feitos semelhantes.
O húngaro Ignaz Philipp Semmelweis (1818 1865) nasceu em Ofen quando seu país fazia parte do Império Austríaco. Posteriormente, ele foi para Viena com o intuito de completar os estudos em Advocacia, como era desejo familiar. Entretanto, resolveu estudar Medicina ao tomar contato com os trabalhos de Anatomia Patológica realizados por Karl von Rokitansky (1808 1878).
Após sua graduação em Medicina (ocorrida em 1844), sem conseguir vaga na clínica do professor Joseph Skoda (1805 1881), que vinha se notabilizando pelas suas pesquisas em propedêutica, Semmelweis  acabou (em 1846) como assistente em uma Clínica Obstétrica. A perversa fama dessa unidade era que a mortalidade das pacientes da unidade 1 (atendidas por médicos) superava entre três a dez vezes à das parturientes da unidade 2 (que eram atendidas por parteiras). A diferença de percentagem parecia ser inexplicável, já que as duas unidades eram contíguas. Em função disso, Semmelweis realizou um estudo epidemiológico “modelo” na tentativa de se elucidar os elos da cadeia epidemiológica e propor medidas efetivas de controle. Esse estudo continha todas as etapas clássicas das mencionadas investigações: a definição precisa de caso; a contagem, distribuição e a consolidação de casos e de fatores predisponentes; a confirmação do surto e a definição do seu período; a formulação de hipóteses e sua comprovação; as medidas de controle e a verificação de sua eficácia, com reorientações quando necessário.
Semmelweis, porém, enfrentou a desconfiança do diretor de sua disciplina, Johann Klein, que era um nacionalista fervoroso e de postura essencialmente conservadora. Por mais que se esforçasse, Semmelweis não encontrava na ciência oficial respostas para as diferenças observadas entre as duas unidades. Sob a orientação do professor Kolletschka (da Medicina Legal), em conjunto com seus alunos, autopsiava detalhadamente todas as pacientes, encontrando supurações e inflamações generalizadas, um quadro semelhante ao das febres purulentas e das infecções traumáticas, que se seguiam amiúde às manipulações hospitalares. Estimulava também um detalhado exame clínico de todas as pacientes, mas além de nada descobrir, apenas observava um aumento da mortalidade, chegando sua unidade a ter em 1846 uma mortalidade de 11,4% contra 2,7% na outra clínica (unidade 2). Ele notou que as parturientes adoeciam dentro das primeiras 36 horas do parto e sua doença rapidamente evoluía para o óbito.
Semmelweis observou que os óbitos na unidade 1 eram bem superiores aos da unidade 2 porque os médicos e os estudantes de Medicina manipulavam cadáveres antes de realizarem os partos. Portanto, ele concluiu que a doença era veiculada pelas mãos dos médicos. Assim, inicialmente, ele postulou duas regras, a saber: a) lavar as mãos com ácido clórico antes de entrar na enfermaria dessas parturientes; b) ferver instrumental e utensílio. Posteriormente, Semmelweis notou que não somente os cadáveres transmitiam doença, mas que uma infecção purulenta de pessoa viva também era capaz de matar outra pessoa. Deste modo, passou a exigir a mais rigorosa desinfecção das mãos após cada exame, ou seja, entre uma paciente e outra. Todavia, Semmelweis não foi bem tolerado pelos seus colegas e contemporâneos que o acreditavam obsessivo com a questão da assepsia (Pasteur ainda não havia descortinado o mundo da Microbiologia).
Até o final do século XIX e o início do século XX, a Botânica era uma das mais importantes disciplinas do curso de Medicina. Os medicamentos, então utilizados, geralmente eram provenientes das plantas e consistiam de extratos de vegetais preparados artesanalmente, na maioria das vezes pelo próprio médico. Alexander W. O. Tschirch (1856 1939), alemão professor em Berlim e em Bern, gastou dezessete anos escrevendo três volumes sobre Farmacognosia (“Handbuch der Pharmakognosie”), obra que se tornou padrão literário por longo tempo.
Ainda na segunda metade do século XIX, através dos trabalhos do ilustre e excepcional cientista francês Louis Pasteur (1822 1895), ocorreu o advento da Microbiologia, da Virologia e da Imunologia. Assim, a indústria farmacêutica foi impulsionada e a chamada Medicina alopática “química” floresceu. Com isso, a prática da Fitoterapia restringiu-se mais ao campo da Medicina popular.
Poucos cientistas conquistaram tanta admiração e respeito quanto Louis Pasteur, reconhecido como herói nacional da França e benfeitor da humanidade ainda em vida. Explica-se: a crença na geração espontânea da vida teve predominância desde os tempos de Aristóteles até meados do século XIX. Pasteur, no entanto, provou que essa crença era infundada.
 A despeito do pensamento de que a doença poderia ser transmitida por contato ser extremamente antigo, isso era frequentemente ignorado pelos seguidores de Hipócrates. A origem da vida não preocupava a comunidade científica até o início do século XIX, pois a grande maioria dos estudiosos acreditava que era possível obter seres vivos a partir de matéria inanimada (geração espontânea de vida). Recomendava-se (pasmem!) a utilização de matéria orgânica em estado de putrefação. Assim, Louis Pasteur não foi o primeiro a sugerir que as doenças infecciosas eram causadas pelos germes (como na já descrita história de Semmelweis), mas suas pesquisas foram essenciais para: a descoberta de fenômenos bioquímicos como a fermentação; a queda da teoria da geração espontânea; o surgimento da Microbiologia; a preparação do campo para a Virologia e a Imunologia (desenvolveu a vacina anti-rábica); entre outros feitos.

















3.10  MEDICINA AMERICANA

No ano de 1492 d.C., o navegador italiano Cristóvão Colombo, representando o Império Espanhol, “descobre” as terras que viriam a ser chamadas de América. A partir daí, inicia-se uma nova fase da História. Portanto, os espanhóis “descobriram” a América no final do século XV. Os portugueses “descobriram” o Brasil em 1500 d.C. Entretanto, os ingleses e franceses apossaram-se da América do Norte. Os espanhóis apossaram-se da América Central e parte da América do Sul. Os portugueses ficaram com um grande território da América do Sul, que viria a ser chamado de Brasil.
As terras da América do Norte, América Central e América do Sul eram bastante populosas em todas suas regiões. As populações de algumas cidades eram maiores do que da maioria das cidades européias (BLAINEY, 2005).
Nesta enorme quantidade de povos que os europeus encontraram nas Américas, existiam povos nos mais diversos estágios de evolução. Havia povos vivendo como se estivessem na Idade da Pedra e povos com culturas que poderiam ser comparadas a de seus “descobridores”. E, em muitos aspectos, poderiam ser considerados de maior desenvolvimento técnico, cultural e científico (BLAINEY, 2005).
Povos como os astecas, toltecas, incas e muitos outros, possuíam uma Medicina particularmente adiantada. De 2000 a 3000 anos antes da chegada dos europeus e 2000 anos antes da dominação dos incas, um povo muito civilizado já se encontrava espalhado por extensas áreas da América do Sul. Cavavam grandes redes de canais de irrigação. Usavam fertilizantes para melhorarem as lavouras. A batata era produzida em mais de 600 espécies (levada para a Europa, tirou do mundo de então o fantasma da fome). O milho era produzido em diversas espécies. O algodão era produzido em diversas cores (técnica que somente agora, em pleno século XXI o Homem ocidental está começando a redescobrir). Teciam brocados, gaze e tapeçarias. A tapeçaria deles tem que ser divulgada. Ela tinha, às vezes, 500 cordões de lã duplos, por polegada, enquanto que a melhor tapeçaria européia antes da utilização do tear mecânico continha não mais que 100. Conheciam a fusão de minério, o caldeamento e a solda.
O grande número de crânios encontrados em sítios arqueológicos pré-colombianos mostra que seus proprietários foram submetidos à operação de trepanação e delas se recuperaram. Não se tem certeza se a civilização pré-incaica acreditava na cura de (algum tipo de) desordem mental através da lobotomia pré-frontal. De qualquer maneira, esses povos deixaram provas de suas assombrosas habilidades com bisturis de bronze (BLAINEY, 2005).
Blainey (em 2005) cita que na obra intitulada “Estudos sobre Paleopatologia”, o pesquisador Dr. Roy L. Moodie refere que:

Nenhuma raça primitiva ou antiga, em qualquer parte do mundo, desenvolveu o conhecimento cirúrgico como os peruanos pré-colombianos. Suas atividades cirúrgicas incluem amputações, excisões, transplantes de osso, cauterizações e outros processos menos evidentes (MOODIE, 2004. BLAINEY, 2005).


Na verdade, a grande maioria dos historiadores afirma que, no princípio da colonização, havia na América e, em particular, no Brasil, poucas doenças. Afirmam que os males dos indígenas americanos resumiam-se a picadas e ferimentos provocados por animais ou insetos, lesões traumáticas provocadas durante a caça, ferimentos de guerra, dermatoses, febres e diarréias não específicas. Afirmam ainda que se podia indicar a “raça vermelha” como sendo muito sadia e possuidora de grande longevidade, mas só até quando habitava sua própria terra e enquanto não entravam em contato com a “civilização européia”.
Os europeus contaminaram os indígenas americanos com inúmeras doenças desde o primeiro contato. Os colonos trouxeram na bagagem: sífilis, varíola, malária, tuberculose, sarampo, lepra, gripe, pneumonia, etc.
Na segunda metade do século XVI, com a chegada dos primeiros escravos africanos que iriam substituir os indígenas enquanto mão de obra, com eles aportaram a febre amarela, o tracoma, a ancilostomose e a verminose provocada por parasitos dos mais diversos vertebrados. As moléstias espalharam-se rapidamente em epidemias que foram exterminando os indígenas que, devido ao regime de semi-escravidão e fora de seu habitat, em precárias condições de higiene, tornaram-se muito sensíveis aos germes desconhecidos (GUIMARÃES, 1979).
Logo após os colonos, especificadamente na América Central (e parte da América do Norte) e a América do Sul, começaram a chegar os jesuítas da Companhia de Jesus para tomarem posse das novas terras. Os jesuítas acabaram sendo os primeiros médicos da América Latina.
Com o passar do tempo, com a vinda de mais e mais colonos e escravos africanos, as epidemias obrigaram os jesuítas a adotarem medidas que possibilitassem maiores cuidados com os doentes. Utilizaram as escolas (colégios) que serviam para a educação, catequese, enfermarias e transformaram-nas nos primeiros hospitais e boticas (que passaram a fabricar medicamentos). Como os medicamentos enviados da Europa chegavam em quantidades insuficientes, e muitas vezes deteriorados, não podendo ser utilizados, foi necessária a gradual assimilação das plantas nativas utilizadas pelos indígenas para que assim fosse suprida a deficiência das remessas européias.
Com o aumento da população, as epidemias se alastraram, e os médicos jesuítas não conseguiam atender a todos os necessitados. A necessidade de mais médicos era urgentíssima. No fim do século XVII, físicos (bacharéis em Medicina) e doutores (que haviam defendido tese) começaram a chegar na América. Eram, em sua maioria, cristãos novos, que fugiam das perseguições promovidas pelas Inquisições Espanhola e Portuguesa. (GUIMARÃES, 1979).
Com a expulsão da Companhia de Jesus em 1759 d.C., visto que existissem poucos médicos, esses se concentraram nas vilas, guarnições e cidades. A população interiorana ficou abandonada à sua própria sorte. O imenso espaço abandonado pelos médicos permitiu que a medicina passasse a ser praticada por barbeiros.
É interessante observar os antigos cirurgiões e curandeiros. Usando ervas que cresciam à sua volta e que eram cultivadas nos quintais, os curandeiros passaram a reproduzir terapêuticas indígenas, misturando-as com rezas católicas e benzeduras. Ao contrário dos jesuítas, esses conhecimentos eram passados oralmente, principalmente pelas mulheres que foram as primeiras responsáveis pela Medicina – que hoje é chamada de Medicina popular (GUIMARÃES, 1979).
Nas cidades, as boticas se espalharam e foram desvinculadas da Igreja. Os farmacêuticos e os negociantes que as administravam (os boticários) passaram a prescrever e a fabricar suas próprias fórmulas.
Ao contrário dos jesuítas, que souberam tirar proveito da flora nativa, a maioria dos médicos dos séculos XVII e XVIII continuava optando pelos medicamentos provenientes da Europa. Os produtos da terra eram deixados a utilização dos pajés, curandeiros e xamãs. Desde aquela época, ficou anunciada a rixa “Medicina popular versus Medicina oficial”. Muito devagar, pela necessidade diante da falta de medicamentos originários da Europa, e devido ao sucesso que certos vegetais americanos faziam no exterior, os médicos passaram a incorporar ervas nativas aos seus recursos terapêuticos.
É interessante observar que o panorama da Medicina, no final do século XIX, era muito parecido ao que conhecemos hoje, tanto nas zonas rurais quanto nas grandes cidades da América Latina. Médicos e farmacêuticos conviviam com curandeiros, rezadores e erveiros, e a população escolhia o tratamento mais adequado às suas possibilidades e crenças (GUIMARÃES, 1979).
Com relação aos indígenas brasileiros, é necessário tecer-se alguns comentários sobre a Medicina que até os dias de hoje é por eles praticada. O índio considera que tudo no Universo é formado de matéria e de um espírito que anima esta matéria. Seres humanos, animais, rios, florestas, plantas e pedras são, portanto, animados. Os espíritos da natureza podem ser bons ou maus. Os bons espíritos são protetores e passam os poderes de cura aos pajés (médicos feiticeiros). Os maus espíritos são responsáveis pelas doenças e pela morte (GUIMARÃES, 1979).
Para os índios, as doenças estão sempre ligadas à dissociação do físico, do espírito e do social. A cura é baseada na recuperação desses três aspectos.
As práticas de cura da Medicina indígena brasileira são exercidas pelos pajés (zelador das coisas sagradas, sacerdote, profeta, adivinho, mágico e feiticeiro). Por ter acesso ao mundo sobrenatural, o pajé torna-se o mediador entre as pessoas e os deuses, podendo - portanto - decodificar os mistérios da natureza da vida e da morte. Sua principal função é a de encontrar, no além, o diagnóstico e a cura das doenças.
O pajé é grande conhecedor dos remédios das matas, pois apanha as ervas a serem utilizadas, respeitando as fases da lua para a coleta. Folhas e frutos são apanhados na lua cheia, quando acumulam mais energia (aumentando o poder de seu princípio mágico curativo). As raízes são preferencialmente coletadas na lua minguante.
Alguns grupos indígenas ainda mantêm um sistema de saúde em que existem várias especialidades. Por exemplo, os Kayapós utilizam para o tratamento das doenças não espirituais os me Kute pidja (conhecedores das plantas medicinais), que não necessariamente são xamãs. Quando a doença é claramente de origem sobrenatural, ou quando o tratamento com ervas não funciona, são chamados os waiangre.
Para estabelecer os ingredientes que foram colocados no “caldeirão” da Medicina praticada nas Américas (muito em particular no Brasil), torna-se imprescindível falar sobre a Medicina Africana que, junto com seus mestres, foi transportada nos porões dos navios negreiros, a partir da mãe África, até os rincões do Novo Mundo (GUIMARÃES, 1979).

3.11   MEDICINA AFRICANA

A História da Medicina Africana confunde-se com a da Fitoterapia. Pouco se sabe sobre as práticas da Medicina em terras africanas (exceto em relação ao norte da África, como a Medicina Egípcia, a Medicina Árabe, etc.). Porém, com a chegada ao Brasil dos primeiros africanos de origem Banto (oriundos de regiões localizadas abaixo do Equador), iniciou-se os contatos desses com os indígenas, que foram passando seus conhecimentos sobre as plantas nativas e o papel que cada uma delas desempenhava em seus rituais religiosos e de cura. A partir daí, os escravos africanos começaram a utilizar as plantas indígenas, além das que já conheciam na África. De tal modo, encontra-se nas crenças de origem/influência africana (como candomblé e umbanda), a maior incidência quanto ao uso de plantas, tanto nas cerimônias religiosas quanto nos rituais de cura (que também recebem uma conotação religiosa).
É tão grande a importância do uso de plantas tanto nas práticas das crenças religiosas afro-sul-americanas quanto no tratamento de doenças que a ausência das mesmas descaracterizaria, por exemplo, seus ritos. Diz o texto abaixo:

Ossain é a divindade das plantas medicinais e litúrgicas. Sua importância é fundamental, pois nenhuma cerimônia pode ser feita sem a sua presença, sendo ele o detentor do àse (poder), imprescindível até mesmo aos próprios deuses. O nome das plantas e sua utilização e as palavras (ofó), cuja força desperta seus poderes, são os elementos mais secretos do ritual no culto dos deuses iorubas. (VergeR, 2002).

As plantas estão presentes nas preparações de banhos de defesa (espiritual e orgânica), de limpeza, de purificação, nas preparações das comidas, bebidas e remédios, nas cremações, em incensórios, cachimbos, charutos e cigarros.
Com relação aos rituais afro-brasileiros (religiosos ou de cura de enfermidades) que assistimos nos dias atuais, é possível verificar que, além das plantas com utilizações exóticas acima citadas, muitas outras plantas nativas brasileiras passaram a ser utilizadas, evidenciando-se razoável distanciamento com relação à África. Esse fato fica verificável ao se consultar a obra de Ewe Verger, quando o autor divulga grande número de receitas para as mais variadas finalidades, ditadas por religiosos na África, quando nelas predominam plantas africanas  não usadas no Brasil em receitas para fins semelhantes (VergeR, 2002).
Podemos considerar que as plantas empregadas - na medicina popular e nas crenças afro-brasileiras - desempenham dois papéis:

O papel sacro, também de cunho social, tem muito a ver com a medicina popular presa a um universo sacralizado, controlador das forças sobrenaturais, desempenhando, de alguma forma, um papel de responsabilidade relativa, tanto ao aparecimento como a cura de doenças, tal como nos foi transmitido pelos antepassados portugueses. Nesse sentido destaca-se, também, o valor simbólico atribuído às plantas no universo mágico/religioso dos sistemas de crenças de origem/influência africana.
O papel terapêutico: deve-se aos princípios ativos medicamentosos presentes nas plantas, cujas atividades biológicas condizem com os usos terapêuticos (VERVER, 1996).

Não é difícil constatar que as plantas têm seus papéis determinados dentro dos rituais e que esses últimos têm muito a ver com suas propriedades, a partir dos elementos químicos que encerram. Isso se dá tanto nas cerimônias religiosas quanto nos rituais de cura. Pode-se deduzir que as plantas não são escolhidas aleatoriamente. Por exemplo, não são raras as plantas com ação no sistema nervoso central, capazes de provocar alterações comportamentais requeridos pelo ritual. Um exemplo diz respeito às plantas como as Datura, espécies botânicas conhecidas desde épocas remotas. As Datura eram utilizadas pelas feiticeiras européias e pelos xamãs da América do Sul, além dos índios Uaqui do México, os quais, sob a ação dessas plantas, experimentam a sensação de voar (Davis, 1986). Ainda segundo Davis, essas plantas foram estudadas por Amorim (1974); Dolmatoff (1975); Harner (1976); Cooper (1987); Schultes (s/d), entre outros. O efeito alucinógeno de espécies do gênero Datura decorre do principio tóxico dos alcalóides (hiosciamina), da atropina e de outros princípios ativos, que levam os usuários a ter visões e sonhos que se somam à dificuldade de articulação das palavras, aumento da frequência cardíaca, midríase, agitação, confusão mental e alucinação (PANIZZA, 1998). Cita-se, também, a Jurema (Mimosa hostilis), com a qual é preparado um vinho consumido em determinados trabalhos de catimbó, umbanda e em festas de caboclo dos candomblés, a qual tem por princípio ativo N-N-dimetiltriptamina, agindo no metabolismo das funções psíquicas, provocando alterações de humor, ansiedade, distorção na percepção de tempo, espaço, alucinações visuais do tipo onírico, despersonalização, além de outros efeitos. Dá-se o nome de Jurema tanto à planta como à bebida e à divindade. A “deificação” dessa planta não permitiu que ela fosse profanada, de modo a não fazer parte do rol das drogas socialmente consumidas (PANIZZA, 1998).
Outra planta é a Liamba (Vitex agnus-castus) de ação inibidora sexual, que apresenta princípios ativos - tais como óleo essencial (cineol, pineno, lineol) e alcalóide (viticina) - responsáveis pelas atividades biológicas. Há ainda as plantas do gênero Erithrina conhecidas por Mulungu, as quais são também usadas em determinadas situações ritualísticas; possuem ação curarizante, hipnótica e tranquilizante devido à presença dos alcalóides eritrocoralóidina, entre outros (PANIZZA, 1998).
Pesquisas realizadas em São Paulo, em Candomblé de tradição Queto, registraram o uso da Brugmancia suaveoléns (Datura suaveoléns), espécie nativa da América do Sul, cujas folhas fervidas são empregadas no preparo de um líqüido que deve ser parcialmente ingerido e, o restante, usado em banho de limpeza. Segundo o seus utilizadores, essa bebida leva “às alturas dos ventos” (PANIZZA, 1998). A Liamba (Vitex agnus-castus) é um inibidor sexual empregado para dar equilíbrio àqueles que se iniciam na religião.
As plantas com poderes inebriantes presentes nas práticas religiosas permitem os estados de desligamento desejados pelos fiéis, de forma a permitir-lhes uma entrega absoluta aos seus deuses. A ação psicoativa de determinadas plantas já foi objeto de estudos por vários estudiosos, principalmente no que se refere à preparação da consciência do fiel nos ritos de iniciação em Candomblés, onde, entre as plantas empregadas, está a maconha (Cannabis sativa) (Bastide, 1973).
O uso ritual de plantas no combate às doenças e no restabelecimento da saúde constitui prática comum nos cultos afro-brasileiros, revelando acentuado hábito cultural, com grande rede de influência social (Albuquerque, 1994).
Quase todas as plantas usadas nos rituais religiosos e de cura são as mesmas conhecidas da Medicina popular ou tradicional (de todas as camadas sociais), pois, de certa forma, fazem parte da formação cultural do brasileiro.

4  BREVE HISTÓRIA DA NEUROCIÊNCIA

Em 1738, o relojoeiro francês Jacques de Vaucanson exibiu no Jardim das Tulherias o robô mais celebrado de todos os tempos, um pato mecânico fixado em uma base de madeira. O pato de Vaucanson era feito de cobre dourado e fazia movimentos muito semelhantes aos de um pato real.  Ele, inclusive, realizava todos os gestos que um pato faz para se alimentar (além de beber, ter “digestão” e grasnar como se fosse vivo). Esse pato fez ressurgir antigos questionamentos que ainda assombram a moderna Neurociência, como por exemplo: “as interações mecânicas que ocorrem dentro de nós são suficientes para gerar padrões complexos de comportamento que nós produzimos? O que é que nos define como seres humanos: a complexidade do comportamento que nós produzimos ou os padrões específicos de interação (que ocorrem na nossa fisiologia) para gerar esse nosso comportamento?” (GLIMCHER, 2004).
É quase um axioma, entre os círculos escolásticos, de que a Neurociência começou no século XVII com os trabalhos do matemático, filósofo e fisiologista René Descartes. Nascido em 1596 (na então La Haye, França, agora conhecida como Descartes), teve uma educação centrada no sistema jesuíta (era de família algo humilde), tendo ainda recebido graduação superior em Direito. É, provavelmente, mais conhecido na atualidade por seus estudos metafísicos. Descartes esforçou-se em responder a questão “o que nós verdadeiramente sabemos sobre o universo?” Assim, chegou à famosa assertiva: “cogito ergo sum”, ou seja, “penso... logo existo” (GLIMCHER, 2004).
O trabalho de Descartes – como metafísico e matemático – fez com que ele acreditasse que (quase) qualquer fenômeno no mundo físico poderia ser completamente descrito em termos geométricos simples. Todavia, seu trabalho como fisiologista foi ainda mais “único”, visto ter sugerido explicações mecânicas para os mais complexos eventos fisiológicos. Então, nos anos 30 do século XVII, Descartes propôs um modelo teórico de como mecanismos físicos no mundo material poderiam desenvolver comportamentos tipicamente humanos, como o Pato de Vaucanson criado um século depois (GLIMCHER, 2004).
Descartes era um “dualista”, ou seja, ele acreditava que a mente não poderia ser reduzida a uma substância física; assim, para ele, havia uma dicotomia entre mente e corpo. No entanto, Descartes também era “interacionista”, já que pensava que o corpo não vive sem a mente. Por isso, surgiu a questão: “se mente e corpo são entidades distintas, como ocorre a interação entre elas?”. A resposta cartesiana para essa questão foi que a interação seria feita através da glândula Pineal (já mencionado quando foi relatada a História da Medicina a partir do renascimento).
Por essa época (século XVII), na Inglaterra, o filósofo e político Francis Bacon procurou convencer os europeus a elaborar uma explicação – lógica e materialista – para os fenômenos físicos através de um método experimental. No entanto, foi em 1805 que surgiu a Neurociência dita Experimental. Nesse ano, o alemão Franz Joseph Gall publicou um trabalho sobre frenologia (teoria que considerava a conformação do crânio como indicadora do caráter e das faculdades intelectuais; sinônimo: craniometria – que é a mensuração do crânio). Gall relacionou áreas salientes do cérebro com traços de personalidade. Apesar das teorias desse pesquisador alemão não terem conseguido fundamento, sua pesquisa inaugurou a Neurociência Experimental (que objetivava a localização das funções cerebrais). Essa doutrina é chamada de “localizacionismo” (McGRAW-HILL, 2000).
Em 1848, ocorreu um acidente com um homem chamado Phineas Gage, o qual foi um importante marco para a Neurociência. Gage foi um operário americano que, em um acidente com explosivos, teve seu cérebro perfurado por uma barra de metal, sobrevivendo a despeito da gravidade do acidente. Todavia, após o ocorrido, Phineas, que aparentemente não tinha sequelas, apresentou uma mudança acentuada de comportamento, sendo objeto para estudos de caso muito conhecidos entre neurocientistas. A sua transformação foi tão grande que todos diziam que "Gage deixou de ser Gage". Morreu em 1861, treze anos depois deste acidente, sem dinheiro e epiléptico (WIKIPÉDIA, 2013).
Já em 1861, o neurologista francês Paul Broca (1824 – 1880) localizou o centro da fala no cérebro através de estudos dos cérebros de pacientes afásicos (incapazes de falar). Atualmente, esse referido centro é conhecido como Área de Broca, a terceira circonvolução do lobo frontal.
Carl Wernicke, médico, anatomista, psiquiatra e neuropatologista (1848 – 1905) pesquisou os efeitos do traumatismo craniano na linguagem. Ele concluiu que nem todos os déficits de linguagem eram resultado de danos na área de Broca. Notou também que lesões na região posterior esquerda do giro temporal superior resultavam em déficits na compreensão das palavras. Tal região é hoje conhecida como área de Wernicke e a síndrome associada é denominada de Afasia de Wernicke (GILLISPIE, 1990).
Sigismund Schlomo Freud  (18561939), mais conhecido como Sigmund Freud, formou-se em Medicina e especializou-se em Neurologia, tendo logo a seguir criado a Psicanálise. Nasceu em uma família judaica, em Freiberg Mähren (na época pertencente ao Império Austríaco; atualmente, a localidade é denominada Příbor, na República Tcheca).
Freud iniciou seus estudos pela utilização da técnica da hipnose como forma de acesso aos conteúdos mentais no tratamento de pacientes com histeria. Ao observar a melhoria de pacientes de Charcot, elaborou a hipótese de que a causa da doença era psicológica, não orgânica. Essa hipótese serviu de base para seus outros conceitos, como o do inconsciente. Freud também é conhecido por suas teorias dos mecanismos de defesa, repressão psicológica e por criar a utilização clínica da psicanálise como tratamento da psicopatologia, através do diálogo entre o paciente e o psicanalista. Ele acreditava que a desejo sexual era a energia motivacional primária da vida humana, assim como suas técnicas terapêuticas. Depois, acabou por abandonar o uso de hipnose em pacientes com histeria, em favor da interpretação de sonhos e da livre associação, como vias de acesso ao inconsciente (WIKIPÉDIA, 2013).
Santiago Ramón y Cajal (18521934) foi um médico e histologista espanhol. É considerado o "Pai da Neurociência Moderna". Recebeu o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1906 – juntamente com Camillo Golgi – pelo trabalho que descrevia o contato físico entre os neurônios. Utilizando método de coloração (pela prata) desenvolvida por Golgi, Cajal revolucionou o estudo da Neuroanatomia por ter descrito com detalhes a estrutura do sistema nervoso.
Em 1924, Hans Berger (neuro-psiquiatra alemão, criador do eletroencefalograma) conectou dois elétrodos ao couro cabeludo de um paciente e detectou uma pequena corrente elétrica (após usar um galvanômetro balístico). Entre os anos 1929 e 1938, publicou 14 relatórios acerca dos seus estudos com eletroencefalografia (EEG). Muito do conhecimento atual sobre o referido assunto deve-se à sua pesquisa. Berger analisou os EEGs qualitativamente, mas em 1932, G. Dietsch aplicou a análise de Fourier em sete gravações de EEG e tornou-se o primeiro pesquisador do que mais tarde se denominou EEG quantitativo ou QEEG (WIKIPÉDIA, 2013).
Charles Scott Sherrington (1857 1952) foi um histologista, microbiologista, neurofisiologista e patologista britânico. Foi agraciado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina (de 1932) por descobertas na área da Neurologia. Realizou vastos estudos no campo da Neurociência, a saber: estudos da espinha medular e das raízes motoras e sensitivas; mapeamento dos dermátomos sensoriais; descoberta da placa motora na contractura reflexa muscular; estudo do sistema nervoso no animal (gato, cão e macaco), sobretudo os mecanismos do arco-reflexo. Mostrou que a excitação de um grupo muscular era inversamente proporcional à excitação do grupo muscular oposto (a relação excitação-inibição). Para além do seu trabalho científico, Sherrrington era um homem de amplos interesses e realizações: biógrafo, historiador da Medicina, poeta, desportista e bibliófilo. Também exprimiu a sua veia filosófica no livro: “O Homem e a sua Natureza” transcrição das Palestras Gifford que proferiu entre 1937 e 1938 (WIKIPÉDIA, 2013).
Francis Harry Compton Crick (19162004) foi um biólogo molecular, biofísico e neurocientista britânico, mais conhecido pelo "modelo de dupla hélice” da estrutura da molécula de DNA. Em 1962, juntamente com James Watson e Maurice Wilkins, recebeu o Nobel de Medicina ou Fisiologia pelo trabalho sobre o DNA. No entanto, Crick dedicou a maior parte da sua vida à Neurociência. Uma de suas linhas de pesquisa mais notáveis (e controversas) nesse campo foi uma proposta sobre a função biológica do sono REM (do inglês: rapid eyes moviment ou movimentos rápidos dos olhos), a chamada "Hipótese da Aprendizagem-Reversa", a qual se explica mais ou menos deste modo: pela natureza associativa da memória e pelo fato de forjarem-se novas conexões neurais diariamente através do aprendizado, as redes neuronais criariam memórias “falsas”. Com o risco de ficar sobrecarregada, essa rede passaria por uma “desaprendizagem” periódica; para isso, seria necessário um mecanismo para enfraquecer as conexões sinápticas errôneas durante o sono REM (De SÁ & ROSSI, 2012).  Crick interessava-se concomitantemente pelo entendimento do que é a “consciência”.
Eric Richard Kandel (1929) é um neurocientista austríaco, naturalizado estadunidense. Foi agraciado, juntamente com o sueco Arvid Carlsson e com o estadunidense Paul Greengard, com o Nobel de Fisiologia ou Medicina (de 2000) por descobertas envolvendo a transmissão de sinais entre células nervosas no cérebro humano.
Kandel formou-se médico, especializou-se em psiquiatria, mas abandonou a clínica para se dedicar às Neurociências. Trabalhando por 45 anos com um organismo muito simples - Aplysia californica, o Nobel de Medicina revelou aspectos fundamentais do processo de formação de memórias. Ele identificou as proteínas que devem ser sintetizadas a fim de converter memórias de curto prazo em memórias duradouras. Kandel acredita "que a integração da Psiquiatria com a Biologia Molecular trará uma compreensão mais completa da mente humana e estratégias terapêuticas mais eficazes".
Em 1974, surge o primeiro pet scanner (tomografia computadorizada por emissão de pósitrons) que registra a atividade cerebral on line, sem haver invasão do cérebro. Isso deveu-se ao trabalho de pesquisadores da Universidade de Washington em St. Louis, EUA.
Seiji Ogawa (1934), um japonês pesquisador conhecido por ter desenvolvido o aparelho de Ressonância Magnética (RNM), é considerado o “pai da imagem cerebral moderna”.
Antonio Rosa Damasio (1944) é um médico neurologista (neurocientista) português que trabalha nos estudo do cérebro e das emoções humanas. Atualmente, é professor de Neurociência na Universidade do Sudeste da Califórnia. Entre os anos de 1996 e 2005, Damasio trabalhou no hospital da University de Iowa.
Damasio licenciou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, onde veio também a doutorar-se. Após uma estadia no Centro de Investigação da Aphasia de Boston (Estados Unidos), regressou ao Departamento de Neurologia do Hospital Universitário de Lisboa. Publicou o seu primeiro livro: “O Erro de Descartes - Emoção, Razão e Cérebro Humano” assim como “O Sentimento de Si” (2001), eleito um dos dez livros do ano pelo New York Times. Também escreveu “Ao encontro de Espinosa”. Recebeu, entre muitos outros prêmios, o Prêmio Pessoa e o Prêmio Príncipe das Astúrias de Investigação Científica e Técnica em Junho de 2005. Em 2010, editou o seu mais recente livro "O Livro da Consciência".
Estudioso de Neurobiologia do Comportamento Humano e investigador das áreas cerebrais responsáveis pela tomada de decisões e conduta, Damasio observou o comportamento em centenas de doentes com lesões no córtex pré-frontal,  o que permitiu concluir que, embora a capacidade intelectual se mantivesse intacta, esses doentes apresentavam mudanças constantes do comportamento social e incapacidade de estabelecer e respeitar regras sociais.
Os estudos de Damasio debruçam-se sobre a área designada por Ciência Cognitiva; eles têm sido decisivos para o conhecimento das bases cerebrais da linguagem e da memória (WIKIPÉDIA, 2013).
Michael M. Merzenich (1946) é um emérito neurocientista da Universidade da Califórnia, em São Francisco - EUA. Merzenich pesquisa a incrível capacidade do cérebro de se reconectar de maneira ativa. Em suma, esse estudioso estuda maneiras de aproveitar a plasticidade cerebral para melhorar nossas habilidades e recuperar funções perdidas.
Em 2009, a Revista Época considerou Miguel Ângelo Laporta Nicolelis um dos 100 mais influentes brasileiros daquele ano. Nicolelis é um médico nascido em São Paulo no ano de 1961. Lidera um grupo de pesquisadores da área de Neurociência da Universidade Duke (Durham, Estados Unidos), no campo de Fisiologia de Órgãos e Sistemas, na tentativa de integrar o cérebro humano com máquinas (neuropróteses ou interfaces cérebro-máquina). O objetivo das pesquisas é desenvolver próteses neurais para a reabilitação de pacientes que sofrem de paralisia corporal. Nicolelis e sua equipe foram responsáveis pela descoberta de um sistema que possibilita a criação de braços robóticos controlados por meio de sinais cerebrais. O trabalho está na lista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) sobre as tecnologias que vão mudar o mundo (WIKIPÉDIA, 2012).
Atualmente, fala-se no Conectoma, um mapa das conexões neurais do cérebro. Isso porque, em 1986, um grupo de cientistas – liderado pelo americano John White – concluiu o mapeamento do sistema nervoso de um verme, o C. elegans. Então, em 2005, o neurocientista alemão Olaf Sporns foi o primeiro a usar o referido termo Conectoma, salientando-se que uma das principais ferramentas para se estudar o Conectoma é a já citada RNM.
5  BREVE HISTÓRIA DA CRIAÇÃO DA FILOSOFIA CLÍNICA

Filosofia Clínica é uma proposta de utilização terapêutica da Filosofia. O termo (em alemão: klinische Philosophie; em francês: philosophie clinique; em inglês: clinical philosophy) foi cunhado pelo psicólogo e filósofo alemão Hilarion Petzold em 1971 e faz parte de conceitos de diversos pensadores, entre os quais o filósofo japonês Kiyokazu Washida e o cientista norte-americano James Elliott.
A partir década de 1980, o termo foi mudado para Aconselhamento Filosófico (do inglês: philosophical counseling), quando começou a ganhar popularidade pela divulgação de obras dos seguintes filósofos: o canadense Lou Marinoff, o filósofo francês Marc Sautet  e, no Brasil, o filósofo (e também psicanalista) Lúcio Packter.
O termo Aconselhamento Filosófico é entendido como uma proposta para resolver questões típicas da psicoterapia (problemas pessoais de relacionamento, auto-imagem, etc.). Ele foi cunhado pelo Gerd B. Achenbach, em 1981, a partir da concepção epicurista de filosofia como "terapia da alma". Nesse contexto, o Aconselhamento Filosófico é definido principalmente pela preocupação de tornar acessível a metodologia e o conhecimento filosófico ao público em geral afim de usar o potencial prático da Filosofia como recurso terapêutico para indivíduos, organizações ou empresas através de consultas individuais, discussões de grupo, seminários, palestras, viagens ou cafés filosóficos.
Lúcio Packter oficializou sua versão da Terapia Filosófica - chamada de Filosofia Clínica - em 1994, mas utilizando seus trabalhos iniciados desde o final dos anos 1980. Considerado o precursor do ramo no Brasil, a Filosofia Clínica, segundo Packter, "direciona e elabora, a partir da metodologia filosófica, procedimentos de diagnose e tratamento endereçados a questões existenciais" ou em outras palavras trata-se da "utilização da Filosofia aplicada ao indivíduo" (PACKTER, 2001). Cabe ressaltar que na Filosofia Clínica, os conceitos de doença e patologia deixam de existir, havendo, então, representações de mundo que originam maneiras singulares de existência. Em decorrência disso, fica explícito que a Filosofia Clínica não promove curas, mas auxilia na tentativa de resolução de choques estruturais que causam um mal-estar existencial à pessoa (PACKTER, 2001).


6  CONCLUSÃO

Toda a História da Medicina está intimamente ligada à História do ser humano. Desde que o Homem passou a ter consciência de si mesmo, a preocupação com as doenças (ou o alívio de suas sintomatologias) sempre esteve presente.
O Homem desenvolveu, no decorrer dos séculos, um senso aguçado em relação às enfermidades que o afligiam e ainda o afligem. Por conseguinte, com a aquisição de experiências por diferentes civilizações, as doenças foram sendo classificadas e catalogadas. Assim, povos em todo o planeta foram “vivenciando” e juntando seus aprendizados.
A Medicina, em graus diferentes, dependendo de sua localização no planeta, esteve ou ainda está associada a práticas mágicas, místicas e ritualísticas. Entretanto, foi um filósofo do século II, Galeno, o primeiro médico a conduzir pesquisas fisiológicas, justamente porque ele se considerava um “pensador” e, portanto, um “questionador” (filósofo). Em vista das limitações técnicas (em especial limitações ópticas), Galeno inevitavelmente acabou cometendo erros. Não era possível ver o que se passava no interior dos órgãos, por exemplo. No entanto, ele acertou ao associar questionamentos filosóficos na construção de uma Medicina que soube evitar problemas na disputa entre as facções racionalistas e as empiristas.
A Filosofia foi a primeira forma de conhecimento racional. Ela representou, no passado, o que hoje é a Ciência e suas especialidades. Tal concepção “maternalista” é confirmada ao se estudar o nascimento e a subordinação das Ciências à Filosofia.
Enfim, a Filosofia Clínica, filha da Filosofia acadêmica, nasceu com o propósito de auxiliar o auto-conhecimento no intuito de aliviar questões existenciais, o que a torna uma irmã da Medicina. Portanto, é imprescindível a noção da importância da História da Medicina para a Filosofia Clínica, posto possuírem ambas a mesma origem, além de intenções semelhantes (ainda que a última não se proponha a curar).










7  CONSIDERAÇÕES FINAIS

É bem mais do que satisfatório estudar as vidas de povos e de personalidades que contribuíram com o avanço do saber. É, na verdade, uma experiência única, envolvente, apaixonante e estimulante.
O filósofo Thomas Kuhn (1962) argumenta que a Ciência progride com frequência após arroubos e inícios impulsivos (GLIMCHER, 2004).
Através da realização do presente trabalho de revisão da literatura acerca da História da Medicina, percebe-se que ainda existe muito a ser feito para auxiliar o ser humano no alívio de suas aflições. Há um campo vasto de trabalho (e de pesquisa) aberto às mentes mais aguçadas e interessadas no progresso da Medicina e, por conseguinte, no bem estar da humanidade.
A Filosofia Clínica sistematizada por Lúcio Packter veio cumprir importante papel na retomada da atividade filosófica dos primórdios: a de tentar confortar e consolar o Homem em suas inquietações.
Que o tempo nos traga boas e novas respostas. E que esse tempo não demore.

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