terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Ser Filósofo Clínico Por Hélio Strassburger


Ser Filósofo Clínico
Por Hélio Strassburger   
http://casadafilosofiaclinica.com/

“Então me senti como um observador dos céus.
Quando um novo planeta desliza para o seu campo de vista;
ou como o resoluto Cortés quando com olhos de águia,
contemplou o Pacífico e todos os seus homens entreolharam-se
com um alucinado presságio (...).”

John Keats
O exercício clínico do Filósofo acontece em contextos de imprecisão e descoberta. Inexistem fórmulas prontas, verdades, aconselhamentos, receitas, testes ou orientações pré-determinadas. As dinâmicas de acolhimento, cuidado e atenção com a vida desdobram-se no mundo como representação da pessoa. Um processo inicial de abertura e encontro anuncia a terapia. Ponto de encontro aos desdobramentos do papel existencial.  
A fundamentação teórica é conseqüência aproximada de 2.500 anos de Filosofia. A fundamentação prática descortina-se nos eventos de consultório. Propor uma leitura direta dos clássicos e tentar encontrar ali Filosofia Clínica, pode ser tarefa árdua. Este trabalho foi feito por outro médico_pensador: Lúcio Packter. Sua trajetória existencial: idéias, pensamentos, estudos e pesquisas, constituem um pré-requisito para saber mais sobre o tema. Seu aparato metodológico situa-se na pós-contemporaneidade da história das terapias.  
Talvez a questão de maior destaque sobre a natureza dos atendimentos, diga respeito ao que faz de um clínico um bom clínico. Chama atenção um ingrediente, considerado como falha ou defeito por outras abordagens: as carências e fragilidades do terapeuta. No referencial metodológico da Filosofia Clínica, este componente pode ser aliado imprescindível ao ser cuidador! No exercício do papel existencial, este aspecto, quando bem elaborado, vincula-se poderosamente a uma excepcional manifestação de humanidade. Aptidão que anuncia a natureza das interseções e costuma acompanhar a pessoa bem depois da alta compartilhada. Pode significar força e dedicação incomuns a pluralidade do fenômeno humano.
Algo mais se oferece em nomenclaturas de ser terapeuta: Acessar intencionalidades entremeios de narrativa, reconhecer o endereço e a forma pela qual as problemáticas se estruturam e identificar venenos e antídotos, na generosa farmácia das subjetividades, integram a magia do ser terapeuta.  
No exercício clínico, o sujeito vai descobrindo nomes e versões para realizar a tradução compartilhada destes inéditos.  Descortina-se em território próprio ao re-visitar o velho álbum das suas recordações. As considerações narrativas atualizam imagens que pareciam perdidas no tempo. Os refúgios da linguagem podem coincidir com o lugar onde os remédios se encontram. Há de se re-escrever mapas e reconhecer divisas, tratados e limites territoriais.
A terapia como ins-piração, acolhe e busca entender os tropeços iniciais, os quais podem antever escutas e vislumbrar sons de raridade inadequados as palavras. Em cada um, a obra aberta persegue-se na im-permanência das crises. Dialetos de aspecto estrangeiro deixam pistas de fugaz poesia.
Assim, descortinam-se roteiros de invisibilidade na estrutura dos atendimentos. Antecipações na forma estranha de contar. Conversação entrevista na interseção do sujeito com seu cotidiano. Ser Filósofo Clínico também é compartilhar silêncios e ressonâncias, sem descuidar de sua perspectiva e buscas. A plasticidade e um planejamento dinâmico (que pode incluir um não-planejamento) referem-se aos instantes onde o terapeuta tenha de refazer, objetivamente, aquilo para o qual estava preparado.
Quando o estudante consegue integrar, de maneira eficaz, sua historicidade e vivências aos estudos, a formação poderá ter um alcance maior. Transitar e dialogar com a estrutura das surpresas, fazer e refazer percursos, acrescentar percepções e não desmerecer intuições, bem assim investigar sua própria estrutura enquanto acolhe e transita por mundos estranhos, constitui aspectos determinantes a preparação deste médico de almas.
Encontrar um refúgio capaz de devolver o Filósofo Clínico ao seu eixo estrutural é imprescindível. Acostumar-se ao espírito aprendiz, num referencial de obra aberta para acolher o outro, suas dúvidas e contradições, num esboço descontinuado em busca de decifrar sua linguagem. O gerenciamento das atitudes de não-expectativa antes, durante e depois das sessões, podem conceder eficácia a investigação preliminar a aplicação das intervenções mais adequadas.
Percorrer em reciprocidade os recantos da subjetividade partilhante, identificando sensações e percepções, pode significar uma leitura de maior qualidade na compreensão das suas verdades. A estrutura das investigações, na prática clínica, denuncia a vida como algo mais que a trama bem arrumada dos conceitos.
Nesta espécie de laboratório, uma pluralidade de hipóteses, experimentações e simulacros, desdobram-se em buscas inicialmente compartilhadas como sem sentido. Para bem depois das queixas iniciais, o terapeuta trabalha para superar a circunstância narrativa em direção a um entendimento estrutural mais significativo. Heresia com o enredo bem guardado a dificultar vivências de harmonia no dia-a-dia imprevisível das vontades.
Cuidar das des-estruturações pode significar algo mais que as explicações da epistemologia. Muitas vezes o vir-a-ser singular pressupõe transgressões aos novos endereços existenciais. A interseção com o Filósofo Clínico inventa conexões de apoio aos ensaios de vida nova. Sob muitos aspectos, o exercício da clínica, revela-se como um poderoso aliado dos sonhos por transformar o mundo. Muitos terapeutas ainda carregam no olhar, o brilho estranho de insatisfação e inconformidade.
Outro dia escutava um colega dizer: “ser terapeuta em tempos de fartura e bonança é fácil, quero ver quem realmente consegue utilizar o que aprendeu, em tempos difíceis, onde os desafios, muitas vezes, sobrepõem às escassas alegrias”. Nosso papel existencial aparece vinculado intimamente ao ‘fora de foco’ caótico, a decadência e as tempestades, traduzidos no cotidiano das grandes cidades. 
Um aspecto importante, após decifrar a trama conceitual contida na fundamentação teórica e avançar nos estudos para ter domínio do método, é estabelecer diálogos permanentes entre as vivências do aprendiz e, o quanto disto tudo pode ser aproveitado na estruturação do seu estilo de ser terapeuta. Bem assim, não descartar os fracassos, tropeços, dissabores ou sensações de desajuste social, os quais podem se tornar aliados importantes em algum momento da prática clínica.
As descobertas, riscos e concepções possuem um longo alcance na estrutura dos atendimentos. O Filósofo Clínico vai se acostumando a interagir com as adversidades, quase ao mesmo tempo em que se exercita em território próprio. Tendo maior intimidade com os procedimentos adequados a subjetividade em atendimento, é possível descobrir qual o alcance das ferramentas utilizadas por ela: se fazem sentido em algumas circunstâncias, constituem eficácia geral ou só encontra pelo caminho atitudes contraditórias e inadequadas. A transgressão metodológica, em alguns instantes, pode significar a invenção que a pessoa imprecisa para viver melhor.
 A etapa estruturante para autonomia da pessoa, aprecia a sedução destes imensos horizontes de incógnita. Até o tempo insinua-se entremeios de incerteza e dúvida. Na fala viva destas incompletudes um referencial supera anteriores versões. Propostas para além do texto bem arrumado dos compêndios.
Secretas vontades interagem em contextos de re-significação. Interseção onde o humano experimenta-se na provisoriedade de novos papéis. Assim, a terapia se faz laboratório aos ensaios de múltiplas faces. Exercícios para a representação dos aspectos inexplicáveis da própria condição.
Talvez uma pergunta sem resposta possa marcar o início sem fim destas explorações compartilhadas. Conexão com a natureza difusa das subjetividades. A recuperação da expressividade interdita pelos diagnósticos, se oferece entrelinhas nos espaços de aparente vazio. Apreciam o disfarce de inexistência no refúgio sagrado das abstrações.  
Nestas idas e vindas nos atendimentos, o terapeuta oferece partes importantes de si na relação clínica. Ingrediente de longo alcance e imprescindível a qualificação das sessões. Neste sentido, localizar refúgios sagrados e identificar formas de auto-cuidado podem ajudar, assim como, buscar atualização da própria estrutura.
Estéticas da alteridade relacionam-se com a (quase) indescritível beleza do papel existencial nesta metodologia. Ressonância dos encontros para bem depois das altas compartilhadas. Escutas, olhares e intuições perseguem a in-conclusão destas certezas.
No entanto de qualquer coisa assim, insinuam-se territórios de um absurdo casual. Acolhida sem julgar ou classificar para estas impossibilidades da palavra, também ela a dizer coisas sobre este outro que a legitima.