segunda-feira, 22 de outubro de 2012

QUANDO PERCO AQUILO QUE NUNCA TIVE


QUANDO PERCO AQUILO QUE NUNCA TIVE

Marta Claus

Busca... É disso que estou falando? Falo daquilo que, muitas vezes, me faz ficar igual a um cachorro que corre atrás do pneu e quando o carro pára não sabe o que fazer com aquele pneu que deu tanta correria. Saio então de fininho sem nem olhar para trás e fico tecendo elucubrações a respeito do pneu – Este é muito pequeno, quem sabe dou mais sorte na próxima. Ou então, - Puxa fui correr logo atrás d’um pneu careca!!!! Como é dura essa vida de cachorro! - Agora tenho que ficar a espera de um outro carro qualquer que resolva passar por essa rua para poder correr atrás de outro pneu. Às vezes isso me faz ficar dias e dias prostrada no mesmo meio fio da mesma calçada esperando que os mesmos caros passem...e com os mesmos pneus que sei que não me servem.  Armadilha conceitua, foi nisso que caí? Engraçado como algo que busco tanto me faz girar em círculos e nunca chegar lá. Aí vago pela rua noite e dia, e fico cheirando cada centímetro de chão e marcando território em cada poste, como um cão sem dono. Avanço em todos que chegam perto de mim com medo que me tirarem dali...de uma calçada suja, fria. O barulho dos carros que passam distante dali me dão a esperança de que logo meu pneu chegará, e então espero. Ah, agora já sei, comportamento e função, é isso? Fico lá repetindo a mesma coisa todo o sempre porque todo o sempre quando um carro passa pela rua corro atrás de seu pneu. Agora sim, essa é o comportamento de um cachorro. Correr atrás de pneus, de lingüiças, de cães menores, agora estou no padrão. Mas, sinto um vazio quando o carro pára, a lingüiça acaba, o cachorro menor nem liga pra mim. Será que sou um cachorro diferente? Será que perdi minha identidade canina? Claro que não!!! Eu sou gente! Nunca tive uma identidade canina...e só agora me dou conta disso! Puxa, não preciso correr atrás de todo pneu que passa pela rua, posso escolher a hora de correr...basta que eu corra. Posso também passar em outras ruas, quem sabe com carros maiores e mais bem equipados, com certeza, estes terão pneus esportivos...eu posso andar, não preciso ficar na calçada fria e suja. Posso comer toda a lingüiça e em seguida procurar mais. Não preciso ficar tecendo justificativas para as minhas armadilhas e comportamentos. Que pena. Os cães são mais simples, sinto ter que abrir mão de seu instinto e sua simpatia.
Que triste desfecho. É!!! Eu tenho a razão humana.